Beleza é um estado de espírito

Foi numa festa que eu me dei conta. Já tinha tomado algumas, então, de cara, já não me dei muita atenção. Mas depois aquele pensamento veio batendo lentamente, pouco a pouco, na minha cabeça, até que foi impossível ignorá-lo. Até que, pra mim, ele se tornou verdade. A minha verdade.

É que disseram que uma garota era muito linda, e eu percebi que não compartilhava daquela opinião. Era uma mulher, quase em seus trinta, com cabelo normal, olhos comuns e roupas bonitas - mas o que tem a ver com beleza? Só que tinha alguma coisa nela que a tornava completamente diferente da maioria das outras que também estavam naquela festa, com os mesmos olhos castanhos - que nunca é tão exaltado quanto merece -, uma saia parecida, o mesmo estilo de cabelo. 

E eu comecei a observar, intrigada.

Foi quando eu comecei a reparar o que ela tinha de diferente, que extra aquela garota carregava. Não era o modo de se comportar, ou as suas curvas, ou a cor do seu blush que era diferente, especial. Não, era algo muito mais imprevisível. Ela só parecia se amar. Eu juro! Ela sorria e dançava como se estivesse completamente confortável em sua própria pele. Como se amasse cada segundo de simplesmente ser. 

Só então eu entendi que talvez isso fosse o amor-próprio - mas essa era só a ponta do iceberg. 

Ela era comum. Mas uma rosa não é menos bonita só porque todas as outras também são vermelhas. Comum como eu, como você e várias outras bastardas por aí que enxergam o comum com desgosto, que quase tem um ataque cardíaco por se imaginarem iguais a alguém, mas que não hesitam em apelar para a progressiva, a lipoaspiração, ou recorrer ao botox quando sentem que não se enquadram no padrão. Foi aquela garota que, mesmo sem nunca saber meu nome, me ensinou que há beleza em ser único, amar a si mesmo, no estágio da vida que for. 

Tinha essa coisa totalmente inexplicável sobre ela, essa aura que a tornava diferente, embora de relance parecesse brutalmente comum. Comum às outras garotas perto dela. Rendera-se aos padrões de beleza, por quaisquer motivos que fossem, mas manteve o amor-próprio intacto. 

Talvez soubesse que o padrão está em constante movimento, e que não vale a pena se apegar a algo assim.

Vai ver é por isso que dizem que a beleza - o que importa - vem de dentro. 

Sobre ser o suficiente (auto-ódio)

Gorda.
Devia comer menos, me sinto grande demais. Quando essa blusa começou a apertar nas laterais? Essa balança deve estar com algum problema. Tá olhando o quê? Nunca viu ninguém com a calça apertando um pouquinho? Como se ninguém tivesse gordurinhas.

Feia.
Essa espinha já tá na minha testa há quantas eras? Desde quando o meu nariz é torto assim? Nossa, meu cabelo precisa cair desse jeito? Por que ele não pode ter mais brilho ou ser um tonzinho mais claro? Melhor cobrir com maquiagem. Só pode ser por isso que ele não quis continuar comigo, meu sorriso é estranho demais. E essa mancha no meu ombro? A blusa fechada vai cobrir perfeitamente.

Fora do padrão.
Baixa demais. Alta demais. Braços finos. Desengonçada. Olhos grandes. Olhos separados. Juntos demais. Pequenos demais. Sobrancelhas finas. Espessas. Desgrenhadas. Unhas roídas. Cílios ralos. Voz ruim. Pernas grossas. Finas. Tortas. E se eu puxar esse shorts um pouco... mais... pra cima? Cabelo escuro demais. Loiro demais. Vão me achar sem-sal. Lábios sem cor. As bochechas não coram. Pele oleosa.

Sem-graça.

                    Comum.




                                                                                 Sozinha.


Ensaio sobre o fim

Hoje em dia tá lá, sorrindo com todo mundo, como se eu nunca sequer tivesse passado pela sua vida.
Mas eu passei.

Tá namorando outras, até parece que nunca me disse que eu era a única na sua vida. 
Mas disse.

Tá com novas melhores amigas, sem mandar nem lembranças, como se eu também nunca tivesse sido a melhor amiga.
Mas eu fui.

Viaja pra todos os cantos, e faz questão de ir aos mesmos lugares que já fomos, como se fosse a primeira vez.
Mas não é.

Tá bebendo mais do que nunca, espalhando por aí de peito cheio que é porque o salário dele aumentou.
Mas há quem discorde.

Tá se perdendo entre tantos corpos, como todos os outros, sendo mais um pra qualquer um assim como todo mundo um dia foi qualquer um para alguém. Sozinho, ele tá sendo só mais um.
Mas ele não é.

Tá por aí, em todo canto, sorrindo o meu sorriso pra qualquer uma, gastando os meus elogios em desconhecidas, às vezes se convencendo bem demais que eu nem existi, às vezes voltando à dura consciência e sentindo falta de quem a gente era. Daquilo que era único.
Mas isso é passado.