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Grandir

Tem coisa mais bonita que gente bem resolvida? É tão atraente aquela pessoa que sabe o que quer, e o que não quer, e não se trai em nome do que a sociedade acha certo ou não, não acha? Por que é que a gente fica fingindo estar tão bem, quando não tá?
Tem coisa que dá mais orgulho do que gente que não fica bancando a madura, forçando uma distância com quem terminou fisicamente, sendo que o coração ainda não aceitou? Porque não adianta nada fingir que não viu na rua, se quando tá sozinha não sai das redes sociais do indivíduo e nem para de checar o visualizado por último do celular. Acho que, às vezes, o que falta na gente, é admitir que falta certa maturidade - o que, ironicamente, nos tornaria bem maduros - e lidar com nossos problemas da forma mais básica do mundo, encarando-os.
Porque a gente sabe, e todo mundo percebe, essa forçação de barra - esse esforço todo pra parecer que tá bem, só acaba tendo o efeito oposto. De que adianta fingir que tá tudo bem, e continuar stalkeando, seguindo nas redes sociais por um, dois anos depois que terminou? Seguir nos bares que costumavam ir, procurar encontrar em todos os lugares - e quando encontrar, fingir demência. Término saudável pra quem? Deixa o coração se curar, por favor. Deixa a dor bater, e deixa ela passar. Porque vai passar. 
Bom mesmo é quem tem a coragem de sofrer de uma vez, a audácia de chegar e conversar, bater um papo reto, mas resolver superar de uma vez - ser a si mesmo, do que fingir que está bem, fingir ser alguém sem coração em relação a uma pessoa que ocupou um espaço na sua vida por anos. Pessoas assim enxergam que é melhor a mágoa de uns meses bem sofridos, na cara e na coragem, do que continuar sofrendo sem apoio, sozinho - pois, por algum motivo muito sem fundamento, hoje em dia vulgarmente chamado de orgulho, ninguém pode saber.
Será que realmente a gente só vive pra performar nessa vida e enganar os outros? Então, tanto faz o nosso interior, nossa cabeça, nossa saúde? Eu gosto é de quem se entende. De quem se balanceia, se enxerga e se ama. Sofre, mas de cabeça erguida. Tem coisa mais gostosa que alguém bem resolvido, que é chão firme pra gente botar os pés? Que sabe onde dói e em vez de fingir uma paz inumana e irrealizável, admite as fraquezas e busca uma resolução? 
Dá até um arrepio pensar em gente que pega e corre direto pra direção da cura, porque sabe que a solução é correr com elas até gastá-las, em vez de ignorar. Gente bem resolvida é uma coisa linda de se ver. Mas isso não quer dizer que gente bem resolvida não sofre. É preciso ser justa. Gente bem resolvida, madura, dessas que dá gosto e não se encontra em qualquer lugar, também sofre, sente dor e passa perrengue. Ninguém disse que é fácil e a gente nem sempre sabe muito bem pra onde ir, mas só pela coragem de encarar viver e de resolver os problemas, a gente já cresce. Já vale a corrida.

Dois e um

O que é que vai ser da gente? Daqui a uns anos, daqui a uns meses, daqui a dois dias? Quando você arrumar aquele emprego, quando a gente se mudar, e quando nosso cachorro chegar? O que é que vai ser se nossa vida se separar? Se virar de repente eu pra cá e você pra lá? O que é que vai ser? Cê consegue imaginar? Você voltaria de novo, largaria o ego, o orgulho, tudo por nós? Porque eu largaria. Deixava pra lá tudo essas coisas que não importam, sabe. O que fica é a real, esses laços, o amor, eu e você. A gente faz um esforço, se desdobra em três, vira um mil, mas a coisa sai. Quando quer, acontece, sim. Eu só pergunto, e se pergunto, é só porque respeito a sua opinião, respeito sua vontade. Porque nós dois, sobre nós dois, você sabe que é verdade... Não tem dois sem um.

Outra pessoa

E se eu não quiser outra pessoa? Por mais que soe infantil pensar assim, que eu não arredo o pé de você, não é absurdo pensar que só porque as coisas não estão simples, eu teria que encontrar outra pessoa? Porque eu acho bizarro. Tão bizarro quanto alguém que diz nunca ter amado, cê me desculpe. Mesmo com meus poucos anos de vida, eu não caio nessa fábula de alma ferida e coração congelado. E também me deixa perplexa o quanto as pessoas, em geral, recorrem ao recurso de jogar tudo de lado e recomeçar. Isso me apavora, porque eu também quase fui pra esse lado diversas vezes - e isso não combina comigo, nem um pouco! Mas talvez isso explique como a gente consegue jogar fora anos da faculdade pra recomeçar o mesmo curso, ou jogar fora um relacionamento que ia bem, por alguma crise externa que surgiu, ou por tédio, ou mesmo desistir de aprender uma língua porque tá demorando muito pra ficar fluente. Cê entende? Onde é que tá a persistência, a vontade de consertar as coisas em vez de simplesmente descartá-las, cadê todos os valores que nossos pais tentaram nos enfiar goela abaixo? Cadê nós no meio de tanta desistência? Eu fico pensando o que sobra da gente no meio de tanto botão "delete" e de tanta vez que a gente dá as costas a algo que já nos fazia bem. Como é que a gente pensa que pode simplesmente jogar fora um sonho, jogar fora um amor, assim? E como é que você pode pensar que eu vou conseguir querer outra pessoa, agora?

Quem não quer sou eu

Sabe de uma coisa? Eu não quero a sua amizade, nunca quis. E foi de repente que eu percebi isso, tão de repente quanto decidi te contar. É que eu não quero ser obrigada a estar ao seu lado quando você conhecer a sua namorada, e aí observar enquanto ela aprende tudo sobre você, detalhe por detalhe, coisa que aliás vai demorar anos. E por mais que eu nem pense muito nisso, também não quero estar no canto dos padrinhos no seu casamento. Não quero dividir com você anos e anos de uma amizade sólida e equilibrada, porque equilíbrio é questão de ponto de vista, e eu não entendo como pode ser possível querer amizade com você. Só amizade, entende? A vida já nos dá tantas rasteiras, mudanças de plano de última hora, a gente não devia ficar dando chance para que a gente de repente se torne mais uma dessas fatalidades, uma dessas chances gigantescas jogadas pela janela no último momento, ou que estiveram lá o tempo todo e nunca foram vistas. É que, será que você entende?, eu não quero ser essa chance na estante, e jamais poderia ser. Não quero ficar pegando pó, esperando alguma ação, vendo a vida passar numa dinâmica diferente de tudo aquilo que poderia ser - mas que não é. Eu que já sou tão perita em despedida sei muito bem onde essa bagunça toda pode levar, e não vou querer ficar por perto pra ver fim nenhum. Desculpa, não vou ficar por perto, não. Não quero estar ao seu lado pra conhecer sua namorada, porque - e só agora eu percebi isso - eu prefiro ser ela.

Do outro lado do mundo

Acho que no fundo você sabe. Eu não desistiria a toa, não desisti nem quando você disse com todas as letras que era encrenca e que ia me machucar. Não liguei e não porque sou blindada - longe disso, ainda mais pra quem chora em comerciais de carro, mas porque não consegui enxergar nas suas palavras aquilo que as suas ações diziam. Estava em disjunção, sabe? Então eu fiquei. Queria entender. Dei outras opções: não precisava ficar na cama, estava determinada a aceitar um lugar no sofá. Mas sentei na soleira e esperei a madrugada toda. Aguentei o frio que veio e engoli o medo com o resto de coragem que me sobrava. Eu te ouvia mexendo na fechadura algumas vezes, mas aquela porta não se abriu. E depois de algum tempo assim eu finalmente entendi que não veria teu interior tão cedo. Talvez o problema fosse eu, talvez o mau tempo, talvez até algo no teu passado. Mas no meio de tanta dúvida, decidi que não cabia mais nenhuma. Me agarrei à minha única certeza e voltei pra casa com as sobras do meu amor próprio, um souvenir do meu último recurso. Foi um caminho longo, segurando a respiração a cada passo, engolindo a derrota latente e ainda lutando para manter a cabeça erguida em meio à frustração de uma simples porta que nunca se abriu. Um sofá que nunca me deu abrigo. Por teimosia ou imaturidade, eu não soube a hora de dar as costas e precisei abortar a aproximação. Bobeira, eu sei. Mas por medo ou por desinteresse, quem perdeu foi você. O tudo que poderia ter sido, mas não foi. E agora, com o sol subindo do outro lado do mundo, eu enxergo isso.

Não volta, não

Você fez o que era melhor pra você. Pode ter sido a pressão que eu não soube medir, a expectativa criada sem que eu me desse conta, a febre por algo tão novo e especial, tudo que nem você e nem eu tínhamos experiência ou paciência o suficiente pra aprender a lidar. E foi menos de um passo pra virar essa bagunça. Pensei por muito tempo ainda se você sabia o deserto que tinha ficado por aqui quando você foi embora. Porque você, diferente de todo o esperado, não deixou nada pelas metades quando partiu. Achei que fosse sobrar um sorriso aqui e ali, um desespero ao achar que te vejo em tudo que é canto, mas não. Nada. E o desespero foi três vezes maior. Você foi embora e deixou uma terra arrasada, e eu me vi obrigada a reconstruir meu mundo do pó. Precisei ficar só pra precisar só de mim. Mas veja bem, foi você tirar meu teto que eu reparei que o céu tinha estrelas, dei a cara a tapa e aprendi uma vida nova, em outros moldes, outros sistemas, outras fontes de alegria, e, olha só de novo, nenhuma delas nem ao menos lembrava você. Parabéns por não deixar reminiscências, por dar no pé tão sutilmente, a ponto de eu mesma me interrogar se algum dia você esteve por aqui. Pelo bem, pelo mal, foi assim que eu consegui começar do zero, refazer um mundo todo dentro de mim. Você reapareceu depois, maltrapilho e fatigado das andanças por aí, mas agora eu já reconstruí meu castelo de sapê, à beira-mar do jeito que eu sempre quis, e nem me preocupei em fazer quarto pra você. Que surpresa. Não te fiz quarto, e nem faço mais sala pra você. Eu descobri que a vida é muito mais do que aquele espacinho no quartinho do fundo do teu coração, que eu ainda achava o máximo. Agora você olha pra mim e sente falta, pede desculpa, aparece duas vezes por semana pra refazer a tua imagem, mas a pessoa que você deixou já não mora mais aqui. E o mais incrível é que a culpa é todinha sua. Não é irônico? O motivo de tanta mudança nem faz mais falta aqui. Você fez o que foi melhor pra você, mas agora faz o que é melhor pra mim. Não volta, não.

Monocromia

O mais engraçado é que, por um bom tempo, até, eu achei que gostasse dessa vidinha inconstante, montanha-russa invertida, cheia de novidades e nada que continuasse no lugar. Achei, do mesmo jeito que você passa a vida toda acreditando que odeia comer melão, mas quando experimenta, não consegue entender como é que por tanto tempo você viveu sem isso. Demorei tanto pra entender qual era o problema; por que é que, se eu gostava tanto daquelas noites cheias de drinks e amizades coloridas, elas me deixavam monocromática no fim. Acho que no fundo eu temia era que alguém como você aparecesse e me mostrasse que a minha vidinha sem sal podia ter muito mais sabor, mais cor e, ironicamente, mais vida. E o medo maior era que, depois de descobrir tudo de tão maravilhoso que existe por aí, o dono dessa mudança decidisse ir embora. E então, o que eu faria? Entende? Ninguém gosta de admitir isso, como se alguém fosse o culpado pela alegria ou pela tristeza de outra pessoa, mas acontece, sim. Da mesma forma que eu já pude fazer alguém feliz, vários me fizeram feliz - por umas noites, porque nunca deixei durar mais do que isso. Entende a proporção das coisas agora? Achei que eu gostasse da minha vida como estava, achei até que fosse sentir falta quando você apareceu, mas como é possível sentir falta de um passado tão raso, monocromático, depois de conhecer essa explosão de cores? E se me lembro bem, você até gostou de uma pausa na tua vida tão hiper. A gente combina e se equilibra sem nenhum esforço, e hoje eu agradeço por você ver isso, e mais ainda por toda a tua paciência com meu jeito meio torto de gostar; por me mostrar - além de tudo - o quanto ter alguém, ainda nos dias de hoje, é algo especial. 

De todos os amores do mundo

De vez em quando ainda me pergunto se ele sabe que eu o afastei de propósito. Se foi embora porque realmente comprou a minha de querer dar o próximo passo e se assustou, ou se aquela era a ideia dele antes mesmo que meu esquema de término entrasse em ação. E a questão é que, mesmo que eu nunca vá saber, não consigo parar de repetir a história. É um ciclo. A cada cara, cada encontro, me vejo na mesma situação. Se o coração não acelera, não bate meio desengonçado num segundo ou outro, já tô assinando o óbito do amor, e a causa mortis varia entre o "não estou tão afim" e o "estou afim demais"; desculpinhas esfarrapadas de quem sabe que aquele ainda não era o cara certo, só não quer admitir. Eu queria entender por que é que eu faço isso, por que diabos eu preciso ter tanta pressa pra encontrar um desfecho. E o pior é que não sou a única, não. Vai ver é questão de ser verdadeira demais, pragmática demais, durona, sei lá, meio taurina. Mas a parcela de mulheres que tão comigo nessa guerra, embora seja grande, não é maioria. Poucas vezes encontro uma companheira-guerreira por aí, um ombro pra derramar umas lágrimas, dividir uns drinks e também umas dores. Dor de gostar daquele que não é pra você, saber que é encrenca e por isso precisar ir embora, afinal enquanto você se desdobrava pra ver ele, ele não mexia um dedo por você. Dor de querer tanto, mas entender, na real, que ainda tem algo errado e ser corajosa o suficiente pra desistir. Queria falar da angústia que é precisar sufocar um amor quando ainda é uma mudinha, porque infelizmente, é a semente certa no chão errado. Não é pra mim, eu digo. E dói, mas se tem uma coisa que eu não faço é empurrar com a barriga; gastar o meu tempo e o do pobre coitado já é falta de consideração, e respeito eu ainda tenho. O tiro, às cegas, mas certeiro, é de via dupla. Machuca precisar abrir mão de um cara legal exatamente por respeito, e não só por ele, mas por mim também, que não consigo amarrar meu coração em qualquer canto. Mas, por outro lado, dá paz, é encontrar a calmaria depois da tempestade. Não adianta me arriscar em todos os amores do mundo, quando - lá no fundo - eu sei que só preciso de um, em especial. E desse, pode escrever, eu não vou me afastar.

É preciso lutar por um amor?

No meio daquela sessão desabafo entre as amigas, foi inevitável chegar nessa questão. Porque, entre nós, quando o caso é se devemos insistir num cara ou não, não há supremo tribunal que chegue a um veredicto. É que, sendo amor, precisa mesmo de tanta luta?

Mas não precisei pensar muito pra perceber que essa nunca foi uma das minhas preocupações. Meus amores sempre pediram uma dose de luta e eu sempre usei a gosto. Contra minhas próprias crenças, minhas manias, meus amigos, minha possessividade descontrolada, as piriguetes da balada, Deus e o mundo, mas não contra ele.

Afinal, lutar por um amor? Claro que sim, quantas vezes fosse preciso. Insisto que lute. Mas, simples assim, não brigaria por alguém que não quer ficar. Não insistiria em recriar um momento que acabou para o outro, porque eu também odiaria que fizessem o mesmo comigo. Foi um prazer enquanto durou, mas se ele consegue ir embora sem nem olhar pra trás, que assim seja. É que, acima de tudo, por mais que doa perder um amor, pior ainda é perder o amor próprio. Relutante, dou minha benção. Que vá em paz, amém.

Minha receita de amor

Vem cá, senta do meu lado. Fica à vontade, a casa é sua. Meu coração é largo, nele cabem muitos amores fraternais. Vai ver é por isso que eu sou paciente, e vou te falar tudo bem devagar. É que eu não funciono assim, com o amor espalhado pela cozinha, como se alguém tivesse deixado o liquidificador ligado sem a tampa. Meu amor romântico é só um. Tão concentrado que é quase concreto. E mais complicado de se fazer do que um bolo. Não é só colocar o fermento, que ele vai e cresce, coisa prática que nem um fluxograma. Não é tão simples, e essa parte que assusta, mas eu garanto que também não é impossível. Vai com calma, que você também vai precisar de uma pitada de paciência. Pra começar, digamos que a receita é adaptável. É, isso é uma coisa boa. Não tem muito tato? Dá pra compensar com umas desculpas bem dadas, com aquelas demonstrações que às vezes nem são gigantescas, mas que representam muito. Não precisa de um carro de som, que às vezes uma flor de papel significa mais do que a jóia escolhida por uma vendedora desconhecida. No mais, é o básico mesmo. Umas boas pitadas de coragem, cuidar pra não exagerar no desapego, não sufocar demais, bastante cuidado na hora de expor ao calor, não deixar na geladeira... Meu amor é assim. Às vezes muda, às vezes o apego é tanto que eu mesma não me aguento, às vezes falta e eu não sei nem o quê... É que, me desculpa, mas de amor mesmo eu não entendo. Se fosse fraternal, eu podia escrever um livro, mas amor, mesmo? Só receitinhas, dessas a olho, que de vez em quando dão super certo e eu aproveito tanto que acabam rapidinho, mas noutras vezes não dão e eu tenho que desistir. Mas digo uma coisa. Amor mesmo, desses românticos que a gente vê em filme, que andam pela praia de mãos dadas, ainda tá pra nascer quem vai me fazer viver um. Mas eu sou paciente, eu sei que o amor um dia vem, e enquanto isso eu vou tentando.

A vida toda

Tá, mas agora me fala a verdade. É sério que não tem nada errado com você? Eu não tô reclamando, longe de mim, mas você não tem mesmo uns trinta ex-amores na manga, que vão pular em cima de mim na primeira oportunidade? E atrás de você, tão pouca bagagem? Onde é que está sua bagagem, você aprendeu tão bem assim a guardar? É que eu não tô vendo uma muralha em volta do seu coração, e isso não é muito comum por aqui. Me explica, como funciona essa coisa de ser tão feliz, de sorrir o tempo todo, que eu quero também. Me explica que brilho é esse no seu olhar quando a gente conversa, e como é que você não precisa de esforço nenhum pra me embalar e jogar meus medos fora, um a um. E essa confiança, de onde vem? Esse passo calmo, essa tranquilidade, que há tanto eu desconhecia... E como é que você não veio correndo, invadindo meu espaço, se jogando janela adentro? Até parece que você sabe a hora de bater na porta e pedir educadamente só um lugarzinho pra sentar, na sala mesmo. Dá licença, obrigado. E eu fico tão sem chão quanto nas nuvens, porque ninguém nunca foi assim comigo. Meus amores sempre foram um tornado, e foi assim que eu conheci amor. Chegavam sem avisar, deixavam o sofá sem estofado e levavam até minha porta na saída, sem nem olhar pra trás. E depois cabia a mim trancar tudo às pressas! Mas você não, você veio com jeito, chegou de mansinho e me deu vontade de convidar pra entrar. E isso tanto me intriga quanto me agita. Entra, vem aqui! O que mais você pode fazer? Quer tomar uma xícara, ficar para o jantar?  Me conta de você, me diz por que é que - minha nossa - eu nunca conheci alguém assim antes. Tão diferente de todos os outros. O tipo de visita que a gente enrola pra deixar ir embora, e só agora eu entendo o valor de alguém assim. Então vou te pedir o óbvio, faz um esforço, fica mais uma noite, uma semana, ou a vida toda.

Coração anárquico

Mas se era assim que funcionava, como é que eu - justo eu - ia querer mudar alguma coisa? Como é que eu ia chegar com as minhas leis em um território onde tudo já funcionava tão bem sem poder algum se sobrepondo a outro? Porque a partir do momento em que eu colocasse as rédeas sobre nós, o tiro sairia pela culatra e em vez de conseguir a direção, acabaríamos perdendo o controle. Percebe a ironia? A partir do momento em que eu colocasse o rótulo que fosse em cima de "nós", automaticamente teríamos uma data de validade. É como se, enquanto nada fosse dito e vivêssemos naquele estado de acordo tácito, nada pudesse "nos" terminar. Enquanto não existíssemos de forma oficial, absolutamente nada poderia se voltar contra nós. Afinal, não há como acabar com um "nós" que, ao menos teoricamente, não existe. Por outro lado, a anarquia sempre funcionou muito bem sem oligarquia alguma. E nós, na plenitude de nossos corações anárquicos, nunca aceitaríamos lei alguma. Donos de nós mesmos. Mas ambivalentes. Loucos por um pedaço de pluralidade, mas mergulhados demais na própria individualidade. O que tínhamos de confusão e indecisão, igualmente havia em juventude e coragem. Queríamos ser pra sempre assim, eu lembro bem, mas nada dura pra sempre, e essa regra a vida aplica a todos. A solução era justo essa, e eu nunca vi. Devia ter burlado o sistema, ido contra os clichês, batido de frente com todas as ironias e resgatado o único bem que nunca foi meu, mesmo sempre tendo sido. Eu devia ter falado, então, para deixar assim, não sermos nada.

O amor não tem tempo


Espera! Fica aí. Não fala nada. Prometo que vou falar bem rápido, como quando se tira um band-aid, e não vai doer nada. É que toda essa atenção me sufoca. Me desculpa, mas é verdade. Olha, faz assim, escuta tudo, que eu juro que no fim você vai entender. Eu sei que é estranho, que eu fujo do padrão, mas assim assusta. Sei que eu sou complicada, mas confia em mim. O problema é eu não saber lidar com tanto carinho. Não cabe em mim, entende? Vivi tanto tempo tão rasa que qualquer carinho transborda, é demais. Parece que desacostumei a ter um lugar pra descansar a cabeça, alguém pra fazer um carinho de vez em quando. Desacostumei, só isso. Sei que a gente pode e vai dar super certo, mas não correndo desse jeito. Especialmente comigo, que mal sei lidar com as ligações, com as mensagens, com a preocupação, com o interesse. É como se uma parte minha ficasse se coçando pra sair correndo, enquanto a outra está louca pra ficar e ver até onde dá pra chegar. Afinal, o que você ia querer com alguém tão fora do padrão como eu? Alguém que nem sabe mais como amar, com o intrínseco pavor de cair em tentação. Vai ver só esqueci como é, como funciona esse tal de gostar. Então não vem com pressa, chega de mansinho, tô pedindo. Liga às vezes, finge que me esquece noutras, me mostra pouco a pouco como é que as coisas andam. Aparece de surpresa num dia, pra no outro dar aquela vontade de te ver de novo. Mas não corre, seja paciente. Deixa florescer devagar, e vai regando... Todo dia. Não atropela, por favor, que quem sabe amor não sabe tempo. Fica tranquilo, que meu amor não tem pressa. Espera!...

Eu amor, ele abissal

Mas é claro que eu percebi. Notei de primeira quando os olhos dele foram perdendo o brilho, as pálpebras antes tão arqueadas, agora preguiçosamente endereçadas a mim, os cílios alongados sempre tão serenos, tornaram-se inquietos.

É lógico que eu notei, desde o primeiro detalhe eu soube que algo estava errado. Desde a primeira nuance de mudança, eu soube. E não foi só o trejeito que mudou, que nisso ele ainda é o mesmo. Os detalhes foram tão sutis que só alguém tão próximo assim poderia notar, só alguém já pronto pra se jogar do precipício, sem medo da queda. E - detesto a falta de modéstia - esse alguém era eu.

Ele não ligava mais, e não é só de telefone que eu tô falando. Mas o que eu podia fazer? Se nem o meu amor bastava, o que eu podia oferecer pra fazer ele ficar? Ele foi assim, de repente. Num dia estava aqui, no outro fumaça. Leve demais pra ser preso por compromisso forte como o que o amor requer. Eu vi quando ele saiu na calada da noite, sem nem olhar pra trás pra não ter de admitir que debaixo daquela coragem tranquila se escondia um menino.

Quando eu comecei a ler os sinais dele, achei que tinha um dom. Achei que podia entender como ele funcionava, que tinha alguma vantagem com isso, mas aí entendi tão bem que suas ações fizeram sentido. Fez sentido ele ter abusado do vinho da última vez, não ter medido as palavras comigo, nem dissipado aquele furacão nos seus olhos. E eu estava lá, no olho do furacão, pronta pra ser tragada, mas ele estava muito adiante, tão preso dentro daqueles olhos tempestuosos, preso dentro daquelas íris negras como uma criança paralisada de medo do escuro.

E foi um baque assim, mesmo.

De repente não ligou, não apareceu, não mandou SMS e nem sinal de vida. Recusou todas as tentativas de contato até eu finalmente enxergar que a tempestade que eu via naquele olhar não era reflexo do que tinha em mim, aquele abismo era dele. Mas eu podia ajudar. Eu queria ajudar. Ele não. Eu estava pronta pra mergulhar naquele abismo sombrio. Tinha a corda, a lanterna, tinha os pés de pato e o oxigênio, mas ele recuou. E como se salva quem não quer ser salvo?

Então eu entendi, tão bem que não me senti nem mesmo no direito de desatar aquelas amarras, muito menos de dar o salto em direção ao escuro. No fundo ele precisava de mim, sim, até mais do que eu dele. Só que aquele mar dos olhos dele, turvo e abissal, ameaçador e sedutoramente letal... Se não dava pé nem pra ele, como eu ia dar conta de nós dois? Já vi essa cena antes. E eu queria ajudar, não leve a mal, eu só temia afundar também.

Sobre a autodestruição, o medo, e o gostar.

Essa vai ser minha última confissão, meu grito de socorro. O último aviso de chance de fogo antes que a artilharia seja pesada. Porque vai rolar fogo, e eu não vou olhar para trás quando tudo for pelos ares. Pode até passar pela sua cabeça por que é que eu estou pedindo ajuda, se eu mesma tô acendendo o isqueiro para destruir tudo de uma vez. Entendo a sua confusão.

Só quero que você me salve de mim mesma.

É muito complicado de dizer e eu sinceramente tento ter consciência de que você pode acabar entendendo menos ainda, mas eu preciso tentar. Se eu tô pedindo, é porque eu tenho noção disso. Mas o medo me vence toda vez. Se dizem que é pra aprender a conviver com o medo, eu aprendi bem demais. Deixei a sala de estar e meu quarto todinhos pra ele. E provavelmente a cozinha também, porque até a fome eu perdi. Faz algum sentido, não faz? Metaforicamente, pelo menos.

É quase como se eu estivesse com a faca na mão dizendo "Ei! Venha me impedir de fazer isso, seu idiota!". Eu sei o que estou fazendo, mas por que é tão importante que você note? É que gostar de você me lembra exatamente a sensação de quando eu perdia o controle do tratorzinho amarelo de brinquedo. O que aliás, eu descobri depois que é a mesma sensação de quando se pilota um veículo de verdade e se perde o controle sobre ele.

Então, é, gostar de alguém (você) me dá a mesma sensação de perder o controle de um veículo em alta velocidade. Porque a situação é quase a mesma, se for ver bem. Eu perdi o controle e não tenho nenhuma pista se você no mínimo liga de o carro bater e tudo ir pelos ares. É uma bomba relógio, você sabe, e isso (nós) poderia acabar a qualquer segundo. Mas eu continuo acelerando até sair da pista e, quem sabe, capotar. Porque alguma parte ínfima dentro de mim resiste bravamente, agarrada à crença de que isso pode valer a pena, de que nós vamos passar pela curva. Porque por algum motivo muito insano, eu só quero que você reaja.

Porque de alguma maneira muito maluca e que talvez só faça sentido em outra dimensão, o que eu mais quero é que seja você quem me olhe nos olhos e me faça parar. Que ponha as mãos sobre as minhas no volante e me diga pra respirar fundo, que vai ficar tudo bem.

Texto dos outros

"Eu queria saber por que ele se foi. Quais foram suas razões. Por que ele mudou de ideia.
Por todos esses anos, eu revirei em minha cabeça - todas as possibilidades - mas nenhuma delas faz nenhum sentido.
E então eu penso, talvez fosse porque ele nunca me amou. Mas isso faz menos sentido ainda."


I wish I knew why he left. What his reasons were. Why he changed his mind.
For all these years, I have turned it over in my head - all the possibilities - yet none of them make any sense.
And then I think, perhaps it was because he never loved me. But that makes the least sense of all.
Lang Leav
 

Cópias

Elas nunca vão ser como eu. Pelo menos quanto a isso eu tô tranquila. Nunca vão gostar daquela banda tão apaixonadamente como eu, ou saber exatamente quais os acordes que você erra, quando vai tocar a terceira música do primeiro CD deles. Pode procurar em todas as esquinas desse país, que eu quero ver a sua dor no peito quando notar que vai ser impossível encontrar alguém meramente parecida comigo. Nenhuma outra vai entender o que você realmente quer dizer quando fala que está com um pouco de fome, ou mesmo dor de cabeça. Ou quando você escolhe o pior filme no cinema só pra inventar um motivo besta pra uma briga babaca que vai terminar antes do filme começar, só porque você adora fazer as pazes. Quero ver alguém que entenda isso. Ou uma que consiga entender - e suportar - a sua mania de deixar o carregador na mochila, e sempre esquecer de tirar de lá e depois ficar atormentando todo mundo até descobrir onde tá. E sempre tá no mesmo lugar. Quem sabe um dia você encontre uma que suporte as tuas mancadas, tão sincronizadas com as datas especiais. Nenhuma vai ser tão sincera ou verdadeira quanto eu. Eu quero ver a próxima te dizer tanta coisa na cara e você conseguir sentir com a mesma intensidade que sentia antes, que eu só implicava tanto porque eu me importava com você. E isso é só uma amostra, a ponta da ponta do que eu sou, do que eu fui, e que pra tua infelicidade nenhuma delas vai conseguir ser metade. Eu sei disso porque você sabe, eu era perfeita pra você. Você tinha a mim, mas preferiu procurar as cópias. 

Meus altos e baixos

Minha vida sempre foi uma corrida de montanha russa. Dizem que a vida é uma loteria, ou pelo menos foi assim que eu vi em algum livro, uma vez. Mas não. A vida comigo sempre foi o alto extremo, a ponto de me fazer tremer de emoção, e o vale tão baixo que só repassar as lembranças já fica doloroso. Com o coração, nunca foi muito diferente. Às vezes dava aquela taquicardia antes de dormir, uma ansiedade louca por alguém que nunca durou mais do que qualquer outro, e depois de algum tempo, uma calmaria tão mansa que chegava a dar tédio. Depois de um tempo parecia ter sido tudo um sonho, com aqueles momentos em que o tempo corre rápido demais, ou então se arrasta tão... devagar... que... cansa.  Eu tentei tantas vezes ir pro fim da fila e começar de novo, mas depois de um tempo isso se tornou exaustivo. Era como se eu estivesse num loop infinito, tão feliz, tão triste, tão alta, tão baixa, sem previsão de normalidade. Eu não tinha previsão de calmaria, - ou pior, achava que tinha, que a próxima vez as coisas mudariam - e talvez fosse isso o que me deixasse inquieta, tentando de novo e de novo... Até você chegar. Mas você não mudou o curso do jogo, não tornou as curvas mais suaves e muito menos os baixos mais sutis. Você pegou seu lugar ao meu lado, me deu a mão e me acompanhou naquela aventura vertiginosa. E foi aí que eu percebi o que era mais incrível nisso tudo, que o que eu precisava não era de alguém que movesse as montanhas por mim, mas alguém que me acompanhasse no passeio.

Era só um chapéu, mesmo

Foi como aquela brisa que passou e antes que eu pudesse me dar conta, já tinha ido embora. É que o vento já tinha batido tantas vezes que eu não imaginei que uma brisa tão leve acabaria tendo a repercussão de um furacão. Um pequeno descuido. Um momento com os pés na areia, de olhos fechados, cabeça para cima, aproveitando ao máximo o calor do sol. No segundo seguinte, a água mostrou quem é que mandava. Mas se eu prezava tanto pelo que a água deslocou de mim - que acabou não por levar, apenas por destruir, como se pelo prazer doentio de quem busca apenas criar obstáculos e demonstrar sua superioridade -, por que eu? Se tantos não davam o devido valor, qual o motivo de se manifestar em alguém que havia se descuidado por um milésimo de segundo? Seria insano ou real demais acreditar que a água pudesse estar se vingando injustamente por todas as vezes em que todo ser desfrutou dela sem lhe dar o devido valor, em um único e efêmero, como se ela não soubesse também sê-lo, ser? Pegou-me em desaviso, o mar, e tão rápido quanto o vento que embaçou minhas vistas, senti-me obrigada a aceitar com resignação, abaixar a cabeça e ir comprar outro chapéu. Porque perdê-lo foi como o dia em que, numa brisa ligeira dessas, perdi meu chapéu para o mar. 

Tô pedindo

Não dá pra ser assim
tão
       tão 
                 
                                     tão

longe de mim


Olha, me liga
Telefona         sim
                Ô
Só diz 
que volta pra mim