De vez em quando ainda me pergunto se ele sabe que eu o afastei de propósito. Se foi embora porque realmente comprou a minha de querer dar o próximo passo e se assustou, ou se aquela era a ideia dele antes mesmo que meu esquema de término entrasse em ação. E a questão é que, mesmo que eu nunca vá saber, não consigo parar de repetir a história. É um ciclo. A cada cara, cada encontro, me vejo na mesma situação. Se o coração não acelera, não bate meio desengonçado num segundo ou outro, já tô assinando o óbito do amor, e a causa mortis varia entre o "não estou tão afim" e o "estou afim demais"; desculpinhas esfarrapadas de quem sabe que aquele ainda não era o cara certo, só não quer admitir. Eu queria entender por que é que eu faço isso, por que diabos eu preciso ter tanta pressa pra encontrar um desfecho. E o pior é que não sou a única, não. Vai ver é questão de ser verdadeira demais, pragmática demais, durona, sei lá, meio taurina. Mas a parcela de mulheres que tão comigo nessa guerra, embora seja grande, não é maioria. Poucas vezes encontro uma companheira-guerreira por aí, um ombro pra derramar umas lágrimas, dividir uns drinks e também umas dores. Dor de gostar daquele que não é pra você, saber que é encrenca e por isso precisar ir embora, afinal enquanto você se desdobrava pra ver ele, ele não mexia um dedo por você. Dor de querer tanto, mas entender, na real, que ainda tem algo errado e ser corajosa o suficiente pra desistir. Queria falar da angústia que é precisar sufocar um amor quando ainda é uma mudinha, porque infelizmente, é a semente certa no chão errado. Não é pra mim, eu digo. E dói, mas se tem uma coisa que eu não faço é empurrar com a barriga; gastar o meu tempo e o do pobre coitado já é falta de consideração, e respeito eu ainda tenho. O tiro, às cegas, mas certeiro, é de via dupla. Machuca precisar abrir mão de um cara legal exatamente por respeito, e não só por ele, mas por mim também, que não consigo amarrar meu coração em qualquer canto. Mas, por outro lado, dá paz, é encontrar a calmaria depois da tempestade. Não adianta me arriscar em todos os amores do mundo, quando - lá no fundo - eu sei que só preciso de um, em especial. E desse, pode escrever, eu não vou me afastar.
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De todos os amores do mundo
É preciso lutar por um amor?
No meio daquela sessão desabafo entre as amigas, foi inevitável chegar nessa questão. Porque, entre nós, quando o caso é se devemos insistir num cara ou não, não há supremo tribunal que chegue a um veredicto. É que, sendo amor, precisa mesmo de tanta luta?
Mas não precisei pensar muito pra perceber que essa nunca foi uma das minhas preocupações. Meus amores sempre pediram uma dose de luta e eu sempre usei a gosto. Contra minhas próprias crenças, minhas manias, meus amigos, minha possessividade descontrolada, as piriguetes da balada, Deus e o mundo, mas não contra ele.
Afinal, lutar por um amor? Claro que sim, quantas vezes fosse preciso. Insisto que lute. Mas, simples assim, não brigaria por alguém que não quer ficar. Não insistiria em recriar um momento que acabou para o outro, porque eu também odiaria que fizessem o mesmo comigo. Foi um prazer enquanto durou, mas se ele consegue ir embora sem nem olhar pra trás, que assim seja. É que, acima de tudo, por mais que doa perder um amor, pior ainda é perder o amor próprio. Relutante, dou minha benção. Que vá em paz, amém.
Mas não precisei pensar muito pra perceber que essa nunca foi uma das minhas preocupações. Meus amores sempre pediram uma dose de luta e eu sempre usei a gosto. Contra minhas próprias crenças, minhas manias, meus amigos, minha possessividade descontrolada, as piriguetes da balada, Deus e o mundo, mas não contra ele.
Afinal, lutar por um amor? Claro que sim, quantas vezes fosse preciso. Insisto que lute. Mas, simples assim, não brigaria por alguém que não quer ficar. Não insistiria em recriar um momento que acabou para o outro, porque eu também odiaria que fizessem o mesmo comigo. Foi um prazer enquanto durou, mas se ele consegue ir embora sem nem olhar pra trás, que assim seja. É que, acima de tudo, por mais que doa perder um amor, pior ainda é perder o amor próprio. Relutante, dou minha benção. Que vá em paz, amém.
Cada par de palavras
Mas não dá certo. Quase nunca dá certo, querer virar pro lado e dormir. Como se de repente eu pudesse esquecer o que acabou de acontecer. Como se desse pra deletar as marcas que você deixa em mim a cada par de palavras. Você nem sabe, mas eu fico pensando em todas essas coisas, as que você disse e as que eu deixei de dizer. Pensando que eu não vou cometer os mesmos erros que os outros me viram fazer, jogando todos os relacionamentos no buraco com gosto. Eu não vou falar de ex. Não vou te comparar - em voz alta, juro. Não vai ter espaço pra ironia nas nossas discussões; não, porque eu quando fico irritada, falo na cara, sem rodeios, sem dar voltinha, sem precisar dar aquela risadinha sarcástica de canto. É grosseria mesmo, intrínseca, mas é o que eu gosto de chamar de "amor rude". É a verdade sem seda. Mas talvez você nunca saiba disso tudo e talvez nem conheça esse lado meu, porque eu crio meus ensaios de discurso, mil e uma palavras, mas acabo me medindo tanto, achando que vou ocupar teu espaço, que não sobra mais que duas pra mim. Queria dizer que... Boa noite. Tudo bem. Acontece, né. E aí o espaço que eu te dou me deixa sem nada, me deixa apertada dentro de mim, sem ter pra onde correr, sem saída de como agir, me deixa presa, sufocada - coisa que eu nunca achei que fosse atribuir a você. E eu fico com essas palavrinhas em dobro, minúsculas pra tamanha necessidade de fala, de expressão. Sei que se eu quisesse falar todas elas de uma vez, ia assustar. E mulher nenhuma quer ser a descontrolada, a instável, a desestabilizada, seja lá o nome que for. Todas nós aprendemos da pior forma possível, perdendo incontáveis potenciais amores, que essa mania de ser tão peito-aberto, de dar a cara pra bater e se arriscar, não costuma ser a melhor opção. Eu não quero mais. Não quero mais colocar o coração à prova e voltar com ele estraçalhado, ensanguentado. Mas também não vai funcionar simplesmente apagar a luz e dormir, quando seu rosto ainda paira no meu olhar. Entende? Não quando cada par de palavras tuas me faz sonhar mais com os olhos abertos do que fechados. Mas um par de palavras nunca vai ser o suficiente. Então faz um favor, que eu tô pedindo uma última vez, não fica tão quieto, que isso não tá certo.
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