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Não volta, não
Você fez o que era melhor pra você. Pode ter sido a pressão que eu não soube medir, a expectativa criada sem que eu me desse conta, a febre por algo tão novo e especial, tudo que nem você e nem eu tínhamos experiência ou paciência o suficiente pra aprender a lidar. E foi menos de um passo pra virar essa bagunça. Pensei por muito tempo ainda se você sabia o deserto que tinha ficado por aqui quando você foi embora. Porque você, diferente de todo o esperado, não deixou nada pelas metades quando partiu. Achei que fosse sobrar um sorriso aqui e ali, um desespero ao achar que te vejo em tudo que é canto, mas não. Nada. E o desespero foi três vezes maior. Você foi embora e deixou uma terra arrasada, e eu me vi obrigada a reconstruir meu mundo do pó. Precisei ficar só pra precisar só de mim. Mas veja bem, foi você tirar meu teto que eu reparei que o céu tinha estrelas, dei a cara a tapa e aprendi uma vida nova, em outros moldes, outros sistemas, outras fontes de alegria, e, olha só de novo, nenhuma delas nem ao menos lembrava você. Parabéns por não deixar reminiscências, por dar no pé tão sutilmente, a ponto de eu mesma me interrogar se algum dia você esteve por aqui. Pelo bem, pelo mal, foi assim que eu consegui começar do zero, refazer um mundo todo dentro de mim. Você reapareceu depois, maltrapilho e fatigado das andanças por aí, mas agora eu já reconstruí meu castelo de sapê, à beira-mar do jeito que eu sempre quis, e nem me preocupei em fazer quarto pra você. Que surpresa. Não te fiz quarto, e nem faço mais sala pra você. Eu descobri que a vida é muito mais do que aquele espacinho no quartinho do fundo do teu coração, que eu ainda achava o máximo. Agora você olha pra mim e sente falta, pede desculpa, aparece duas vezes por semana pra refazer a tua imagem, mas a pessoa que você deixou já não mora mais aqui. E o mais incrível é que a culpa é todinha sua. Não é irônico? O motivo de tanta mudança nem faz mais falta aqui. Você fez o que foi melhor pra você, mas agora faz o que é melhor pra mim. Não volta, não.
Na minha vez
Um alguém qualquer
Esses dias me perguntei, por que é que eu não te apaguei. As fotos, os textos, os presentes, o livros, tá tudo aqui ainda. E eu não tive a resposta na hora, e talvez nem agora ela esteja assim tão clara. Como é que se apaga alguns anos da memória, assim, tão rápido, me diz? Foi amizade boa, em alguns momentos, e então saiu de controle. Você e eu. Os trilhos ficaram mais apertados. Pra mim, mais você do que eu. Mas quem sabe no seu mundinho caótico as coisas não foram diferentes, não é? Ainda assim, entendo seu questionamento. E essa parte eu também não consigo entender; se é passado, por que ainda não devolvi tudo, apaguei a luz e fechei a porta. É que, fazendo isso, acho que eu finalmente estaria lacrando anos do meu passado. Seis, pra você ter certeza que é contigo, amiga. E parece que apagar isso, tantas horas que passamos juntas, e que eu confiei em você, apagaria um pedaço meu também. Então acho que é essa sua resposta. É por isso que um pedaço seu continua aqui, e vai continuar até eu decidir que um pedaço do meu passado já não é mais importante. Até que eu decida que um pedaço meu é tão desimportante a ponto de poder ser apagado sem rancor. E quem sabe quando eu vou decidir isso? E quem é alguém pra decidir que a própria memória não é importante pra lidar com o presente, com novas possíveis amizades? Não eu. Eu não vou tomar essa responsabilidade. E sabe de uma coisa, eu quero é paz. Vou guardar as lembranças, sim, mas não significa que vou revivê-las pra sempre. Não significa que eu sinta falta, jamais imagine isso. Acho mais que elas estão lá como uma maneira de me lembrar, pra me frear da próxima vez que confiar em um alguém qualquer.
Conta pra ela
Conta pra ela
que você se apaixonou
E que não foi por ela
Conta pra ela
que você seguiu em frente
E não foi junto dela
Vive a vida que te der na telha
Vive, sem neura
Mas
Conta pra ela
que acabou.
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