Monocromia

O mais engraçado é que, por um bom tempo, até, eu achei que gostasse dessa vidinha inconstante, montanha-russa invertida, cheia de novidades e nada que continuasse no lugar. Achei, do mesmo jeito que você passa a vida toda acreditando que odeia comer melão, mas quando experimenta, não consegue entender como é que por tanto tempo você viveu sem isso. Demorei tanto pra entender qual era o problema; por que é que, se eu gostava tanto daquelas noites cheias de drinks e amizades coloridas, elas me deixavam monocromática no fim. Acho que no fundo eu temia era que alguém como você aparecesse e me mostrasse que a minha vidinha sem sal podia ter muito mais sabor, mais cor e, ironicamente, mais vida. E o medo maior era que, depois de descobrir tudo de tão maravilhoso que existe por aí, o dono dessa mudança decidisse ir embora. E então, o que eu faria? Entende? Ninguém gosta de admitir isso, como se alguém fosse o culpado pela alegria ou pela tristeza de outra pessoa, mas acontece, sim. Da mesma forma que eu já pude fazer alguém feliz, vários me fizeram feliz - por umas noites, porque nunca deixei durar mais do que isso. Entende a proporção das coisas agora? Achei que eu gostasse da minha vida como estava, achei até que fosse sentir falta quando você apareceu, mas como é possível sentir falta de um passado tão raso, monocromático, depois de conhecer essa explosão de cores? E se me lembro bem, você até gostou de uma pausa na tua vida tão hiper. A gente combina e se equilibra sem nenhum esforço, e hoje eu agradeço por você ver isso, e mais ainda por toda a tua paciência com meu jeito meio torto de gostar; por me mostrar - além de tudo - o quanto ter alguém, ainda nos dias de hoje, é algo especial. 

Pra desmontar tudo

Foi no meu inferno astral que eu te conheci. Naquele momento quando as coisas ruins acontecem com a gente, sabe. E eu ainda achei que você fosse diferente, botei a cara pra bater que você era a calmaria em meio à tempestade. E, pra você ver, te achei tão inofensivo à primeira vista, que deixei entrar, fazer morada, botar teus alicerces enferrujados no lugar dos meus - de pura prata. Pra depois desmontar tudo, assim, meio de qualquer jeito, e se mandar. Eu ainda lembro de você, queria que soubesse disso. Às vezes com raiva, outras nem tanto, às vezes com saudade, outras nem um pouco. Você foi o primeiro a me ensinar tanta coisa, entre o amor e a indiferença. Porque a única coisa que você - apesar de todas as coisas - não foi capaz de me ensinar, foi a odiar alguém como você. Foi no meu inferno astral que eu te conheci, mas pra mim você era a exceção. Aquela época cheia de má sorte e superstição ficou pra trás, junto com você, com as tuas promessas, com as tuas lembranças. Eu olho pras peças desse jogo que eu mesma ajudei a criar as regras, achando que mandava em alguma coisa. Mas olho só mais essa vez, uma última vez pra trás, e fico até feliz de ter me enganado naquele primeiro segundo, porque quando eu olho pra dentro e penso comigo, contente e até orgulhosa, eu sei que não chegaria aqui de nenhuma outra forma. E mesmo assim - mesmo depois de tanta bagunça e tantos enganos - eu agradeço a Deus por cada engano nessa vida nos trazer sabedoria. Hoje eu me despeço de você com alegria, meu bem, porque sei que só passamos por algo ruim quando há algo muito melhor nos esperando em seguida. 

Eu não volto mais

O problema é que você nunca viu, eu nunca precisei de você. E eu sei que você também nunca precisou de mim, eu sei disso, sei de toda a nossa individualidade, e respeito muito. Acho até bom. Mas você sabe o quanto me deixava louca te ver agindo assim, como se eu fosse o pingente do seu colar, detalhezinho que os outros só admiram, mas que você ministra. Não sou acessório de homem nenhum, e se não foi a minha voz, talvez agora a minha ausência te mostre isso. Espero que você saiba lidar com a próxima que te aparecer, desejo que aprenda a largar todo esse preconceito que te impede de tratar alguém de igual pra igual, e peço aos céus que - caso contrário - você seja feliz por si só, que mulher nenhuma aguenta o que eu aguentei nem por uma semana. E tudo o que tinha de você em mim, queria te falar que aquilo sempre fui eu, nunca deixei ninguém me mudar; infelizmente, da mesma forma que você. Mudança vem de dentro, e eu te peço desculpas se em algum segundo eu fugi da minha própria moral e tentei encostar o dedo na tua essência. Agora eu vejo que não devia ter nem feito o esforço. Mas descanso em saber que tentei, que quis te mostrar o que me era tão errado, que dei chance, que fui atrás, sim, à exaustão. Talvez você não veja nem hoje, nem amanhã, mas um dia você vai entender, que eu tentei; e é coragem, dizer o que todo mundo pensa e não consegue falar, o que todo mundo quer dizer e não diz. Mas agora é questão de sanidade, deixar esse peso de nós dois pra lá, dar as costas, voltar minha atenção pra mim mesma. Chega de tentar meus toques indelicados, à beira da explosão, pra ver se você percebe teus murros em ponta de faca. E pensando bem, eu é que os dava, tentando ajudar, à minha maneira tão torta. Erramos, os dois, não foi? Dizem que os finais são assim, nunca só um errou, e eu aceito a minha parcela. Aceito, me desculpo, e também te perdôo, mas acabou. E agora, eu não volto mais. 

Aos de uma noite só

Essa é pra você, meu nada-sério, uma-noite-só, cara que definitivamente não é pra vida toda, mas que hoje ganha umas palavras minhas. E essa é pra você porque você não entendeu quando eu disse que por mim tava tudo bem, que eu não ligava pro título que fosse que tivéssemos, ou a falta dele. Não porque eu esteja sentindo mais do que disse - entre nós dois eu dispenso a mentira -, mas exatamente porque talvez você ainda não tenha caído na real. Eu queria encontrar palavras bonitas nesse momento, mas a beleza delas só acabaria funcionando contra mim agora. Mas aí vai; é que eu não entendo, por que é que homem tem esse medo irracional de perder a liberdade, como se fosse o prêmio final que toda mulher busca a partir do momento em que conhece um cara, sinal de batalha vencida. Não faz sentido esse senso alerta o tempo todo, como se quando você desviasse a atenção, BAM, eu fosse colocar uma coleira no seu pescoço - nem eu as quero. Essa declaração é pra você, mas essa é diferente. Eu juro que é adequada, a nós dois, aos nossos padrões, ao nosso momento. Não sou mais uma dessas meninas que você encontra por aí, obcecadas por um relacionamento a qualquer custo, com o par de calças que for, e que vai até o fim do mundo pra por um anel no dedo. E no fundo você devia saber. Pára de ficar com esse pé atrás, ou quem vai acabar caindo é você. Veja bem, não tô te pedindo pra amarrar teu coração em lugar nenhum, e se o medo é tanto - olha pra dentro - pode ser porque quem corre risco de sofrer de amor é você mesmo; mas por outro lado, queria te lembrar que é possível se apaixonar inesquecivelmente numa balada e também desapaixonar irrevogavelmente num jantar à luz de velas. Tá vendo onde eu quero chegar? A vida acontece o tempo todo, então esquece o receio e faz valer. Não corre com o coração na mão como se eu apresentasse ameaça, vai; se for pra correr, que seja pra levar esse pavor injusto pra bem longe daqui. E leva, mas faz o favor de não demorar, que meu tempo é tão precioso quanto o teu, cê sabe. Porque eu, assim como você, não sou de esperar tanto assim.

Dia das bruxas

As crianças brincam de se esconder.  Escondem-se por trás de máscaras, fantasias, personagens, depois vão pedir doces. Tornam-se alguém completamente diferente do dia para a noite é apenas uma questão de horas para que a mudança aconteça. Mas depois que conseguem o que querem, como bons soldados retornando da guerra - e vitoriosos, voltam para casa desfazer-se de seus disfarces.

Os adolescentes seguem quase o mesmo ritual. Eles tem o brilho perverso que as crianças ainda desconhecem e por esse ou qualquer outro motivo, fazem a noite durar mais. Voltam quando o dia 31 acabou há pelo menos seis horas, mas eventualmente guardam suas fantasias novamente no armário. Os adolescentes conhecem as mentiras da noite como ninguém, e sabem burlá-la até o amanhecer.

E de alguma forma, naquele dia de travessuras, lembrei de você. Vi nós dois mascarados, às ruas, inocentes - bom, ao menos um de nós. A noite estava embaçada no ponto em que decidimos voltar e deixar as garrafas de jäger pra trás. Eu vi quando o sol subiu e novembro anunciou a promessa de renovação, deixando os disfarces, as enganações e as brincadeiras infantis no passado. E, pra mim, juro, eu olho praquele ano e tudo que eu vejo é que nosso dia das bruxas foi incrível, se possível, o auge de nós dois. E aí eu percebi, olhando pras cinzas que sobraram, pros restos de folhas secas já escassas, que aquele dia acabou. O dia das bruxas vem uma vez no ano. Mas para você... todo dia é dia das bruxas.

Não espera

Queria te falar o que aconteceu desde que você foi embora. Quer dizer, se você foi sem sequer olhar pra trás, é óbvio que essas linhas nem te importam mais, mas acho que no fundo todos nós precisamos de um fnal - seja assim, gritado na rua, na frente dos vizinhos; seja por meio de uma mensagem insensível no celular; ou então numa carta, com o único intuito de colocar essas palavras pra fora e depois ser esquecida num canto qualquer. Como essa.

Demorei, e demorei muito, mas acho que finalmente consegui entender que você se foi. Mas e aí, vai deixar eu também ir embora assim? Vai mesmo deixar a gente ter esse fim? Vai mesmo esperar que eu descubra um outro amor - talvez até mais bonito que você, mais atencioso e educado, pra então se dar conta da nossa perda e me pedir pra voltar? Não renuncia a nós dois ainda, não.

Olha, quer saber? Se o teu problema é o orgulho, não espera. Não me deixa ir embora agora. Mas não me busca amanhã no serviço, não aparece à meia noite da quinta-feira que vem pedindo desculpas. Não faz que nem os outros, não deixa pra se arrepender amanhã. Tá entendendo? Não me deixa pra depois. Eu sei que você já foi, mas não me deixa ir também, não assim. Não espera um dia, uma semana ou um mês pra admitir a importância que eu já tinha visto em você, de cara, naquela faísca inicial. Naquele primeiro oi. Se o teu problema é medo de não me encontrar de braços abertos, então não espera pra admitir que errou. Não espera eu te esquecer. Não espera pra fazer uma reviravolta maluca, digna de um filme de comédia romântica, só depois do fim. E, principalmente, não espera pra me impedir de ir. Não me deixa ir embora agora.

Não espera pra se arrepender, ou então nem me espera.

Linhas em vermelho

Folha escrita
rabiscada
Linhas cruas
e parábolas
Curvas nuas
inexatas

tudo
sem
ordem
nem
nada

O muro até ruiu
com meu grito
ensanguentado
desesperado
derrotado

mas três outras camadas
se ergueram na sequência
e eu me vi enjaulada
dentro da tua incoerência

E em oração o que pedi
naquela noite de ardis
duas lentes pra ver o que fostes
poder ler entre as linhas
e rescindir os rancores

Só uma luz o que eu pedi
luz pra ver em meio às dores
luz pra ler tua folha de amores
negro rubro e sem guia,
labirinto à meia noite

E então fez-se ver
nas linhas do teu miocárdio
Letras e letras
puro amor intocado

Cem amores à tinta de sangue
conto tingido
vermelho brilhante
em coração impermeável

Guerra bruta
insossa
sem começo nem fim

Sem sentido nem motivo
Nem ninguém
que ganhe enfim

Folha em preto

A tinta desses gritos
era permanente
Lâmina afiada
nado contra a corrente

Incisiva incalculada
em teu frágil
raso amor
folha pseudo imaculada

Minha prisão
nessas palavras
tão medidas
em medidas desesperadas

sempre diretas
mas sem direção;
mesmo que retas
nenhuma razão

Em último ato
e ante a exaustão
pichei meu nome
nos muros do seu
coração

É bom mudar por alguém?

Esse é mais um daqueles questionamentos que me fazem ficar acordada a noite toda, se eu não me esforçar pra mudar de assunto e desligar o cérebro.
Nessa vida, pessoas e pessoas vão tentar te fazer mudar, e nem sempre é pra melhor. Afinal, o que é ser melhor? O cabelo, que bem que podia ser mais curto ou mais claro? Ou então o corpo, por que é que você ainda não tentou emagrecer? Faz tão bem... Mas acho que as mudanças mais intensas, que mais requerem energia, são as internas. Seu jeito de agir, seus gestos, seu romantismo, a atenção que você dá a certos assuntos e que não dá a outros, é tudo parte sua, isso compõe você. E então vem mais uma vez essas pessoas que chegam com uma checklist gigantesca, e muitas vezes, a gente não bate todos os requisitos. Mas a culpa não é nossa. Eu não admito que a culpa seja minha por não bater com a lista de alguém, ou por não caber numa agenda apertadíssima. Cansei de gente que chega de carro cheio e me culpa por não me fazer caber no porta-malas.
Mas também tem aqueles tão diferentes da gente, mas de alguma forma tão agradáveis, que a gente se vê querendo mudar. Tirando um pedacinho aqui e ali, pra acrescentar uma atitude diferente, um pensamento novo. Querendo ser melhor pra quem sabe estar no mesmo nível que (a gente vê) essa pessoa, pra quem sabe ser chamada pra sentar no co-piloto. E a gente, ou talvez só eu mesma, quando repara, já virou um quebra-cabeças remontado do avesso, algumas pecinhas até parecendo irreconhecíveis. E nesse jogo de mudar, se encaixar e desmontar, embora às vezes não dê certo e seja preciso voltar à estaca zero, noutras vezes - o que assusta muito mais - a gente percebe que funciona bem melhor assim. E que o avesso pode muito bem ser o lado certo.

De todos os amores do mundo

De vez em quando ainda me pergunto se ele sabe que eu o afastei de propósito. Se foi embora porque realmente comprou a minha de querer dar o próximo passo e se assustou, ou se aquela era a ideia dele antes mesmo que meu esquema de término entrasse em ação. E a questão é que, mesmo que eu nunca vá saber, não consigo parar de repetir a história. É um ciclo. A cada cara, cada encontro, me vejo na mesma situação. Se o coração não acelera, não bate meio desengonçado num segundo ou outro, já tô assinando o óbito do amor, e a causa mortis varia entre o "não estou tão afim" e o "estou afim demais"; desculpinhas esfarrapadas de quem sabe que aquele ainda não era o cara certo, só não quer admitir. Eu queria entender por que é que eu faço isso, por que diabos eu preciso ter tanta pressa pra encontrar um desfecho. E o pior é que não sou a única, não. Vai ver é questão de ser verdadeira demais, pragmática demais, durona, sei lá, meio taurina. Mas a parcela de mulheres que tão comigo nessa guerra, embora seja grande, não é maioria. Poucas vezes encontro uma companheira-guerreira por aí, um ombro pra derramar umas lágrimas, dividir uns drinks e também umas dores. Dor de gostar daquele que não é pra você, saber que é encrenca e por isso precisar ir embora, afinal enquanto você se desdobrava pra ver ele, ele não mexia um dedo por você. Dor de querer tanto, mas entender, na real, que ainda tem algo errado e ser corajosa o suficiente pra desistir. Queria falar da angústia que é precisar sufocar um amor quando ainda é uma mudinha, porque infelizmente, é a semente certa no chão errado. Não é pra mim, eu digo. E dói, mas se tem uma coisa que eu não faço é empurrar com a barriga; gastar o meu tempo e o do pobre coitado já é falta de consideração, e respeito eu ainda tenho. O tiro, às cegas, mas certeiro, é de via dupla. Machuca precisar abrir mão de um cara legal exatamente por respeito, e não só por ele, mas por mim também, que não consigo amarrar meu coração em qualquer canto. Mas, por outro lado, dá paz, é encontrar a calmaria depois da tempestade. Não adianta me arriscar em todos os amores do mundo, quando - lá no fundo - eu sei que só preciso de um, em especial. E desse, pode escrever, eu não vou me afastar.

É preciso lutar por um amor?

No meio daquela sessão desabafo entre as amigas, foi inevitável chegar nessa questão. Porque, entre nós, quando o caso é se devemos insistir num cara ou não, não há supremo tribunal que chegue a um veredicto. É que, sendo amor, precisa mesmo de tanta luta?

Mas não precisei pensar muito pra perceber que essa nunca foi uma das minhas preocupações. Meus amores sempre pediram uma dose de luta e eu sempre usei a gosto. Contra minhas próprias crenças, minhas manias, meus amigos, minha possessividade descontrolada, as piriguetes da balada, Deus e o mundo, mas não contra ele.

Afinal, lutar por um amor? Claro que sim, quantas vezes fosse preciso. Insisto que lute. Mas, simples assim, não brigaria por alguém que não quer ficar. Não insistiria em recriar um momento que acabou para o outro, porque eu também odiaria que fizessem o mesmo comigo. Foi um prazer enquanto durou, mas se ele consegue ir embora sem nem olhar pra trás, que assim seja. É que, acima de tudo, por mais que doa perder um amor, pior ainda é perder o amor próprio. Relutante, dou minha benção. Que vá em paz, amém.

Cada par de palavras

Mas não dá certo. Quase nunca dá certo, querer virar pro lado e dormir. Como se de repente eu pudesse esquecer o que acabou de acontecer. Como se desse pra deletar as marcas que você deixa em mim a cada par de palavras. Você nem sabe, mas eu fico pensando em todas essas coisas, as que você disse e as que eu deixei de dizer. Pensando que eu não vou cometer os mesmos erros que os outros me viram fazer, jogando todos os relacionamentos no buraco com gosto. Eu não vou falar de ex. Não vou te comparar - em voz alta, juro. Não vai ter espaço pra ironia nas nossas discussões; não, porque eu quando fico irritada, falo na cara, sem rodeios, sem dar voltinha, sem precisar dar aquela risadinha sarcástica de canto. É grosseria mesmo, intrínseca, mas é o que eu gosto de chamar de "amor rude". É a verdade sem seda. Mas talvez você nunca saiba disso tudo e talvez nem conheça esse lado meu, porque eu crio meus ensaios de discurso, mil e uma palavras, mas acabo me medindo tanto, achando que vou ocupar teu espaço, que não sobra mais que duas pra mim. Queria dizer que... Boa noite. Tudo bem. Acontece, né. E aí o espaço que eu te dou me deixa sem nada, me deixa apertada dentro de mim, sem ter pra onde correr, sem saída de como agir, me deixa presa, sufocada - coisa que eu nunca achei que fosse atribuir a você. E eu fico com essas palavrinhas em dobro, minúsculas pra tamanha necessidade de fala, de expressão. Sei que se eu quisesse falar todas elas de uma vez, ia assustar. E mulher nenhuma quer ser a descontrolada, a instável, a desestabilizada, seja lá o nome que for. Todas nós aprendemos da pior forma possível, perdendo incontáveis potenciais amores, que essa mania de ser tão peito-aberto, de dar a cara pra bater e se arriscar, não costuma ser a melhor opção. Eu não quero mais. Não quero mais colocar o coração à prova e voltar com ele estraçalhado, ensanguentado. Mas também não vai funcionar simplesmente apagar a luz e dormir, quando seu rosto ainda paira no meu olhar. Entende? Não quando cada par de palavras tuas me faz sonhar mais com os olhos abertos do que fechados. Mas um par de palavras nunca vai ser o suficiente. Então faz um favor, que eu tô pedindo uma última vez, não fica tão quieto, que isso não tá certo.

Você, vinho. O resto, água

Você é daquele tipo que me deixa a mil de questões e zero em respostas. E eu só queria te perguntar, talvez até sem gentileza nenhuma, com meu jeitinho ríspido do qual aliás você já nem deve lembrar, quem você pensa que é. Quem você acha que parece quando anda por aí de cabeça erguida, de mãos dadas com qualquer uma que for - porque não importa a coadjuvante -, como se você fosse vinho e eu água? E todo o resto, água. Diz, o que foi que passou pela sua cabeça quando você deu as costas pra todos que sempre estiveram aqui por você? Explica, porque eu nunca vou entender sozinha. Não, não entra na minha cabeça como é possível ser apagada tão rapidamente, num flash, sem avisos, nem adeus. Me diz como é fazer as malas e correr de madrugada, apagar as memórias instantaneamente, esquecer uma vida toda, que eu quero me assustar o suficiente pra nunca ter coragem de fazer o mesmo. Porque olha, você sabe, eu to acostumada com partidas, acenos tímidos, saudades intensas mesmo e consigo lidar muito bem, juro. Essa não é a questão. Só não faz sentido em uma partida caber tantos adeus. Não doeu esquecer de tudo, perder tantas lembranças? Não machuca olhar pra trás e pensar que aquele campo - concordo, nem sempre florido - nunca mais vai estar lá pra você, e que foi você quem destruiu a ponte de volta pra ele? Tem certeza que você não apagou pedaços importantes de você mesmo quando passou essa borracha tão grande no que ficou pra trás? Porque, e eu pensei sobre isso, não deve ter sido fácil. Não pode ter sido. Mas, pensando bem, nem explica, que não quero entrar nessa mesma noia que você. Deixa pra lá, eu não quero entender, vai que pega.

Ensaio sobre você

Então eu ensaio mais umas mil vezes o que dizer, reorganizo as vírgulas infinitas vezes, reformulo a frase, remonto uma expressão, pego o celular mais uma vez, mas não faço a ligação. Essa é a parte que eu deixo meu cérebro descansar de todo o trabalho que é pensar e repensar nós dois, da confusão que é gostar e não ter quase nenhuma certeza. E penso se estou sozinha nessa. É o problema do século, dizem, mas nem por compartilhar disso com meio mundo minha sina fica mais leve. Queria a liberdade de poder falar o que eu penso e sinto, sem censuras, nem temores. Queria falar da loucura que é encontrar alguém que finalmente empresta algum sentido ao título de "especial", "diferente". Não tô falando de amor, quem é que falou da palavra com A, aqui? Mas entendo que gosto e já parei de negar pra mim mesma carinho tão sincero; aprendi que a gente tem que ser honesto consigo próprio. E aí é quando minha cabeça quase sai do travesseiro, de madrugada, ansiosa pelas primeiras horas do dia pra poder te dizer logo todo meu script eloquente que obviamente só parece bom às duas da manhã, quando tá na ponta da língua. Lembro de como é importante ser sincera e penso em contar a verdade, abrir o jogo. Quem é que gosta de aprisionar sentimento tão bonito? Eu que não. Penso sobre o quão maluca é essa mania humana de deixar tudo subentendido, debaixo dos panos, por medo. E medo do quê? De ser feliz? Que sentido faz? Cansei de queimar neurônios noite afora tentando entender isso. Você. Imagino milhares de formas sensatas de expor o problema, sentar contigo e falar assim, de cara e consciência limpa, por mais que no fim de todas as minhas sketches mentais, o cenário seja você saindo correndo. Em comemoração ou pavor, ainda não decidi. Visualizo as possibilidades do resultado ser positivo e eu escutar aquilo que quero ouvir e sou surpreendida pela logística interna todas as vezes, que nunca entra em acordo. Adiciono isso à lista: nunca te entendo por completo, não sei prever teu agir. Bobagem, espontaneidade não se prevê. No fim, quando acredito entender; me vem esse click, como se tudo finalmente fizesse sentido. Me permito achar que entendo você, as vezes em que fala de menos, mas depois compensa com um gesto, mostrando milagrosamente que não se esqueceu de mim. E aí entendo que tudo pode ser porque você me tem fácil demais. Você sempre me deixa nesse limiar confuso entre o desinteresse e o típico medo de admitir qualquer sentimento. Entende? Se é reflexo de medo seu, não sei; sou obrigada a refazer metade do meu discurso, agora quase pronto. Então, eu ensaio tudo de novo.

Aquele que eu deixei

Queria que ele soubesse os verdadeiros motivos por que eu fui embora. Quer dizer, não é como se eu não pudesse contar, mandar uma mensagem, aparecer num café pra falar um dia desses. Mas entre pensar em dizer e realmente fazer isso, muita coisa aconteceu. Como por exemplo, eu ter percebido o quanto eu gostaria e até teria ficado, se ao menos ele fosse diferente. Mas seria muita injustiça e até maldade pedir uma coisa dessas. Seria pedir demais, eu sei. Além do mais, defendo a ideia que ninguém deve mudar apenas pra agradar outra pessoa, apenas pra se encaixar na lista de alguém. Todos merecem ser aceitos exatamente pelo que são. Eu, por exemplo, me sentiria profundamente ofendida se me pedissem para mudar desde meu cabelo até o jeito de agir, portanto seria hipocrisia demais pedir isso de alguém, não? Então eu decidi não contar. Porque quando você não gosta de uma pessoa como um todo, mas como adjetivos individuais, algumas coisicas que ela faz aqui e ali, talvez você não goste dessa pessoa tanto assim. E por mais difícil que seja admitir, eu posso não ter gostado dele de verdade, nem um pouco, nem naquela faísca inicial - que, pensando bem, não ocorreu. E o mais triste é eu ter demorado tanto tempo assim pra perceber. Então fica meu apelo pro universo, ou qualquer força mais forte que eu que esteja aí fora, me ouvindo, que eu gostaria que ele soubesse que eu sinto muito por ter desaparecido do jeito que o fiz, e que eu sinto muito duas vezes, mas ter ficado mais um pouco teria acabado comigo. Mas que, do fundo do meu coração?, espero que ele continue o mesmo.

Quatro linhas ou nada

O problema é que, na minha cabeça, eu não devia ter que te falar isso. Entende? Eu não devia ter que ser a pessoa a colocar todas as cartas na mesa. Até porque quanto mais eu penso, menos certeza tenho se tô fazendo a coisa certa. Você chegou com uma confiança que eu nunca tinha visto de perto, me deixando tão livre que vai ver por isso eu me vi tão presa a você. E aí eu comecei a achar isso maluco, ainda mais pra mim, que nunca fui de sequer pensar na mesma pessoa por tanto tempo. Foi novidade, sabe? E deu medo, de quem sabe depois precisar e não poder. Então eu bolei mil planos pra me distrair e parar de pensar em você, precisava ver se sentia minha falta... Então você veio, todo dia. Você conseguiu; não me deixou te esquecer - não que eu por um segundo quisesse. E mais uma vez, lá fui eu ensaiar os sumiços, e me lembrar dos motivos. Por quê? Por que falar com você ficou pesado. É difícil querer - tanto, e não poder falar o quanto. O ser humano não tinha que ter inventado esse monte de leis sociais, mas inventou. E falar a verdade vai assustar, vai te fazer sair correndo. Por isso eu pego o celular e me permito digitar quatro linhas. Não gosto desse jogo, não gosto de ter que seguir essa brincadeira, mas pra quem é como eu, a vida se encarrega de ensinar que não é você quem faz as regras. E se você não aceita o que ela diz, cartão vermelho, aí já era, você é expulso. Então eu coloco na cabeça que a única saída é esquecer você, me afastar dessa confusão que meu coração, fraco, coitado, nunca tinha vivido antes. Tento lembrar quantas vezes você pareceu demonstrar o menor desinteresse. Repito mentalmente umas mil vezes essas palavras na frente do espelho até achar que aquela menina do reflexo se convenceu. Mas você sabe que o meu defeito é não conseguir enganar nem a mim mesma, mesmo com todos os ensaios do mundo. Que eu não aguento de saudade, que eu não entendo o que acontece comigo quando falo com você. Que eu queria que seus sinais tivessem sido mais claros - pra ter certeza se não to de novo fazendo besteira, dando tiro no escuro, tão a minha cara. Que eu queria essa sensação boa que você me dá, - meu Deus - todo santo dia. Que na verdade eu não consigo te esquecer, e a mais cruel verdade de todas, é que eu nem quero. Você sabe, não sabe? E mais uma vez, aquelas quatro linhas vão ficar só pra mim. Egoísmo que só se compara a você, me mandando a primeira mensagem do dia, sempre a primeira pessoa que eu penso quando acordo.

E só os loucos sabem

Eu sempre fui muito decidida, nunca deixei que ninguém me ditasse o que pensar, como agir, como ser. Mas aí veio você com aquele bom dia e todas as minhas esperanças de começar o dia sem pensar em você foram de novo por água abaixo. Mas também eu já to mais que mal acostumada, agora não tem mais jeito, já espero a mensagem todo santo dia. Quando ela não vem, acontece o que aconteceu hoje. E hoje eu já acordei com uma dor de cabeça insuportável, daquelas que eu nunca tenho, mas quando tenho me faz pedir misericórdia. E aí que lidar com duas dores já seria demais até pra mim. E eu te chamei. Um minuto até chegar sua resposta, sempre tranquila, como você. Me perguntei se você sabia o turbilhão que passava por mim naquele momento, as frequentes dúvidas sobre o que você sentia. Você, a pessoa mais X do mundo pra mim. O que é que eu fui fazer? Eu não tinha assunto - nunca tive - e não sabia o que dizer em seguida, mas você arriscou umas palavras. E de novo a menina decidida teve que assistir, no caso satisfeita, enquanto alguém corrigia a situação. Convivo com as dúvidas e, pra não perder a cabeça, escrevo. Não envio nada porque sei que assusta saber demais, mas mesmo assim escrevo. Uma vez eu vi por aí que o ruim da saudade é a pessoa nunca saber o espaço que ocupa no seu peito. Mas o contrário também é verdade, não é? Todos os espaços vazios entre nós não me dizem se um desses é meu. Dessa vez o silêncio, que eu adorava: meu maior sinal de liberdade, é meu maior inimigo, mais até do que eu, que vivia sabotando minha própria alegria. Então faz um favor, não fica quieto, não deixa esse silêncio engolir a gente. Porque eu nunca fiquei sem que me pedissem. E se eu toda hora penso em ir, ensaio um sumiço, arrisco desaparecer, não é necessariamente por vontade. Não é jogo. É medo de ficar sem ninguém pedir. Porque se eu fosse embora, desse chance a um novo alguém, o que você faria? Você também teria saudade?

A primeira

Ele sempre teve esse sorriso debochado, esse jeito de olhar como se te desvendasse por completo no primeiro instante - não pense que é só com você! Esse beijo de metanfetamina que desnorteia por completo também sempre esteve lá, mas aprender a lidar com ele é outra história. Eu poderia até ensinar, mas quando ele chegar de madrugada, com a desculpa mais eloquente do mundo e aquela cara de inocência, todos seus esforços irão por água abaixo. Eu sei que ele é complicado, não nego. A confiança que ele tem é outra coisa que destrói qualquer fortaleza que você pense que tenha, e esse temperamento que vem em ondas irregulares também, mas essa história não é sobre ele. É sobre mim. Me perdi entre tantos entretantos que quase não cheguei aqui. Eu confiava tanto em todo mundo, principalmente nele, que não sobrava quase nada pra mim. Ele chegou roubando tudo, mas aquele sorriso - lembra?, foi o suficiente pra me fazer entregar todos os meus pertences na mão dele como se por vontade própria. O coração, a confiança, eu toda. E quem é que vai discutir com alguém cega de amor? Principalmente comigo, sempre tão bocuda, mas que finalmente tava aprendendo a ceder. E justamente pra pessoa errada. A cada sorriso que eu perdia, ele se fortalecia. Não sei, tem gente que funciona assim, só somando o que há de bom dos outros em si mesmo, roubando amor alheio. E quem é que algum dia vai parar esse cara? Eu não fui a primeira, e você não vai ser a última.

O momento em que acabamos

Pensando bem, foi naquele momento que a gente acabou. Não quando nós brigamos, ou quando você veio se desculpar e eu mal quis ouvir, de cabeça quente, sentindo o sangue bombeando a ponto de arranhar minhas veias. Embora naquele dia eu tivesse tentado a todo custo te tirar da minha cabeça, da minha vida e até dos meus contatos, ainda não foi naquele dia. Embora eu tivesse jurado pra Deus e o mundo a partir daquele dia que não lembrava mais nem do seu nome, ainda não foi naquele momento que o "nós" realmente deixou de existir, não pra mim. Também não foi naquele desastroso último beijo às escondidas, ou nas mensagens de texto minguadas, muito menos nos olhares que se tornaram cada vez mais escassos. Eles pinicam a alma até hoje só de lembrar, mas também não foram a última gota. Não, o fim do amor é quando o amor não dói mais. E o seu nem cócegas me faz. E hoje, que engraçado, me peguei pensando em você. Não com saudade dessa vez, nem aquela vontade de pegar o celular e te mandar uma mensagem, perguntando como estão as coisas. Dessa vez, a lembrança veio de mansinho, quase acariciando a memória, sem sacudir nem abalar as estruturas como costumava acontecer. Eu repassava aquela nossa última conversa, depois que você soube de todos meus inúteis esforços pra te esquecer, que eu nunca consegui esconder nem de mim mesma; depois de toda a bagunça que nós construímos e descontruímos. E foi aquela última conversa o fim, mas eu ainda não conseguia ver. Aquele exato segundo em que, quando eu perguntei como estavam as coisas e você respondeu um monissílabo, sem a menor recíproca, foi quando eu vi que não doía mais. Que a sede de contar todas as coisas da minha vida não era mais saciada por você. E pode até ter sido difícil admitir no início, mas passou. E a lembrança tá aí, de prova, atestando em amarelo neon que dessa vez não tem mensagem ou foto sua que cause aquela agulhada no peito, ou um saltinho a mais no coração, e não necessariamente isso significa algo ruim. Não faz mais perder o sono. As borboletas migraram pra outro jardim. Porque não vale nem o rancor, nem a pena. Mas foi amor, sim. Foi amor legítimo e por bastante tempo, mas acabou.

Quando o nome dele é paixão

Não, eu não te perdôo. Nem vem com essa carinha de charme que você sabe que contorna todas as encrencas em que você se mete, que eu não vou perdoar. Não aceito você vindo com esse sorriso digno de príncipe pra cima de mim, essa voz rouca que faz qualquer uma ter inveja até da moça da cafeteria que te escuta todo santo dia pedindo um expresso. Tá completamente errado! Não, ninguém mandou você ter toda essa beleza, por dentro e por fora, esse carinho insuportável que você sabe que atinge todos os meros mortais ao seu redor - e pior, expor ele em cada oportunidade. É sério, e essa cara de sono? Não tem vergonha de chegar e me desestruturar quase por completo? Também não tem perdão se você tá fazendo mais uma das suas maravilhosas boas ações e por isso não pode aparecer. É sério, assim não dá. Entendeu? Quem sabe se você de repente arrumar um defeitozinho aqui, ou uma coisinha ali, qualquer coisa que deixe você menos ai-meu-senhor-ele-é-perfeito, daí podemos negociar. Qualquer coisa que faça eu pelo menos ter um motivo real pra ficar um tiquinho brava com você. Antes disso? É esforço demais ter que simplesmente te olhar e me manter de pé ao mesmo tempo, e embora eu aguente o tranco, tenho certeza que as moças que caíram ali, atrás de você, nesse campo de batalha, concordam comigo. E quando você vem e ocupa a minha cabeça o dia todo? Maior falta de respeito! Não, não te perdôo por se impregnar em cada poro do meu corpo, inclusive tá pouco, pode continuar. Aproveita e gruda nos meus horários também. Viu, vê se aparece, que eu tô com saudade.

Declaração

A diferença é que essas palavras serão mais leves, embora carreguem o fardo que mais me pesa ultimamente. Vai ver é que eu aprendi a ligar aquele filtro, sabe, que você sempre dizia que desligava nas horas mais importantes. Ou vai ver foi a música, que me ensinou a dizer tudo o que eu penso sem arrancar um fio de cabelo do próximo, sem nem arranhar a superfície do descontrole, numa cadência sincera. E isso é bom, eu acho. A mudança é boa. Ruim é o igual, monótono, como aquele gif que fica em loop eterno, e por mais longo que seja, eu já sei o final. 
É que as vezes acontece isso com a minha vida. O filme que eu já vi passa e repassa na minha frente e eu me vejo de braços cruzados, esperando minha chance de dizer alguma coisa, esperando um espacinho em branco para colocar meu desabafo, mas ele nunca vem e eu sempre fico frustrada. Hoje, eu pauso esse vídeo e me jogo na frente do retroprojetor. Hoje eu que mando na minha história, e isso faz bem. Faz bem como você nunca imaginaria. E, agora em posse, eu declaro proibições. Os joguinhos acabaram, chega de rodeios e de jogos de persuasão, manipulação e também de andar em círculos. Chega de indecisão, dúvida, mistério e toda essa confusão! Pra lá com o desrespeito, falta de amor próprio. Acabou o medo também. O único medo que sobrou foi o de não tentar, lembra? Eu lembro bem. E como não podia faltar a parte irônica de mim, tenho que proibir a falta de algumas coisas boas. Esse é o fim da falta de carinho. Esse país chamado vida é meu, e nele só as minhas regras prevalecem. Eu não deixo mais ninguém mentir. Ninguém mais pode faltar com amor (aquele fraternal mesmo) aqui. Só que é preciso dialogar, é lei, e de agora em diante... Tá proibido não ser sincero. Dessa vez com calma eu dou o play, e a vida pode continuar.

Se ele quer ir...

Agora é diferente. Dessa vez eu não vou ficar me martirizando pelo que podia ter sido e pelo que não foi. Agora eu consigo enxergar a verdade que está bem ao meu lado, que eu não estava procurando alguém, ou alguma coisa quando quis me arriscar. Que eu só estive esse tempo todo em busca de mim mesma, da voz que sem querer eu vinha sufocando, em função de agradar a quem quer que fosse - menos eu. E que ele não tinha nada a ver com isso. Claro que em um pedaço ou outro do caminho eu me confundi, tropecei e troquei os pés pelas mãos, mas eu também aprendi a me levantar. E quem nos conhece melhor do que nós mesmos? E ele teve a chance, só que não quis. E se tem uma coisa que eu aprendi, enquanto tentava entender a mim mesma, é que não adianta travar uma batalha por quem não quer ficar. Sempre foi assim comigo e não é diferente com os outros. Se for pra lutar junto, eu sou a primeira a me dispor, definir estratégias e por o coração à prova mesmo, mas se a história for um tiquinho diferente, eu não vou. A batalha não é minha, não vou por o peito na linha de frente só por questão de coragem. Porque eu tenho, e sei disso, tô muito mais minha, mas não preciso ficar mostrando isso pra ninguém. E não adianta, já questionei Deus e toda entidade que há nesse mundo, por que é que é sempre assim, por que eu continuo só ganhando experiência, mas nunca consigo um momentinho de paz, um minuto de sossego, pra colocar as armas de lado e descansar. E o que tem de diferente agora? Tem eu, que dessa vez não vou me matar por um indeciso qualquer, que vou recostar em mim mesma, nas amigas que sempre estiveram aqui e não vou mais brigar por alguém que não quer ficar. E hoje sou senhora da minha razão. Se não aconteceu, é porque a outra parte não quis. Eu estava aqui, eu tentei, matei todos os "e se", tô de consciência e cara limpa. E o bonito que se cuide, que eu não sou de desistir, mas quando desisto, é pra valer. Quem precisa de sorte agora é ele.

Inocência

Mas se outra vez eu visse nós duas, sentadas naquele sofá velho da sua casa, segredaria a mim mesma que na verdade, nós é que não sabíamos de nada. Que a vida ainda ia ensinar muito, separando a nós duas, e que o melhor seria não lutar contra a correnteza, como se pudéssemos controlar algum - qualquer - fator dela. Aliás, melhor ainda, seria aprender desde cedo que é a vida quem (m)anda, mas a única parada é a morte. Esta, mais imprevisível ainda.

Mas a vida, essa enfadonha piada, dançava sozinha sobre o carpete, enquanto conversávamos sobre tudo o que tínhamos tanta certeza. Sobre planos que nunca saíram do lápis e daquele caderno - agora empoeirado - de oitava série. Falávamos!

Não sabíamos fazer amizade, não sabíamos ter amizade, não sabíamos sequer ser amizade. 

E nem disso sabíamos. 

Engarrafada

Três palavras aqui...
Mas não aquelas 

Outras duas por lá
Tampouco as outras

Palavras que eu não ouvi
Que eu não disse
Tantas no meio do caminho

Caí
Aos tropeços 
[algumas perdi

E todas emaranhadas
Encadeadas e afogadas

Como (em alto mar)
a esmo
náufragas cartas 

Minha receita de amor

Vem cá, senta do meu lado. Fica à vontade, a casa é sua. Meu coração é largo, nele cabem muitos amores fraternais. Vai ver é por isso que eu sou paciente, e vou te falar tudo bem devagar. É que eu não funciono assim, com o amor espalhado pela cozinha, como se alguém tivesse deixado o liquidificador ligado sem a tampa. Meu amor romântico é só um. Tão concentrado que é quase concreto. E mais complicado de se fazer do que um bolo. Não é só colocar o fermento, que ele vai e cresce, coisa prática que nem um fluxograma. Não é tão simples, e essa parte que assusta, mas eu garanto que também não é impossível. Vai com calma, que você também vai precisar de uma pitada de paciência. Pra começar, digamos que a receita é adaptável. É, isso é uma coisa boa. Não tem muito tato? Dá pra compensar com umas desculpas bem dadas, com aquelas demonstrações que às vezes nem são gigantescas, mas que representam muito. Não precisa de um carro de som, que às vezes uma flor de papel significa mais do que a jóia escolhida por uma vendedora desconhecida. No mais, é o básico mesmo. Umas boas pitadas de coragem, cuidar pra não exagerar no desapego, não sufocar demais, bastante cuidado na hora de expor ao calor, não deixar na geladeira... Meu amor é assim. Às vezes muda, às vezes o apego é tanto que eu mesma não me aguento, às vezes falta e eu não sei nem o quê... É que, me desculpa, mas de amor mesmo eu não entendo. Se fosse fraternal, eu podia escrever um livro, mas amor, mesmo? Só receitinhas, dessas a olho, que de vez em quando dão super certo e eu aproveito tanto que acabam rapidinho, mas noutras vezes não dão e eu tenho que desistir. Mas digo uma coisa. Amor mesmo, desses românticos que a gente vê em filme, que andam pela praia de mãos dadas, ainda tá pra nascer quem vai me fazer viver um. Mas eu sou paciente, eu sei que o amor um dia vem, e enquanto isso eu vou tentando.

A vida toda

Tá, mas agora me fala a verdade. É sério que não tem nada errado com você? Eu não tô reclamando, longe de mim, mas você não tem mesmo uns trinta ex-amores na manga, que vão pular em cima de mim na primeira oportunidade? E atrás de você, tão pouca bagagem? Onde é que está sua bagagem, você aprendeu tão bem assim a guardar? É que eu não tô vendo uma muralha em volta do seu coração, e isso não é muito comum por aqui. Me explica, como funciona essa coisa de ser tão feliz, de sorrir o tempo todo, que eu quero também. Me explica que brilho é esse no seu olhar quando a gente conversa, e como é que você não precisa de esforço nenhum pra me embalar e jogar meus medos fora, um a um. E essa confiança, de onde vem? Esse passo calmo, essa tranquilidade, que há tanto eu desconhecia... E como é que você não veio correndo, invadindo meu espaço, se jogando janela adentro? Até parece que você sabe a hora de bater na porta e pedir educadamente só um lugarzinho pra sentar, na sala mesmo. Dá licença, obrigado. E eu fico tão sem chão quanto nas nuvens, porque ninguém nunca foi assim comigo. Meus amores sempre foram um tornado, e foi assim que eu conheci amor. Chegavam sem avisar, deixavam o sofá sem estofado e levavam até minha porta na saída, sem nem olhar pra trás. E depois cabia a mim trancar tudo às pressas! Mas você não, você veio com jeito, chegou de mansinho e me deu vontade de convidar pra entrar. E isso tanto me intriga quanto me agita. Entra, vem aqui! O que mais você pode fazer? Quer tomar uma xícara, ficar para o jantar?  Me conta de você, me diz por que é que - minha nossa - eu nunca conheci alguém assim antes. Tão diferente de todos os outros. O tipo de visita que a gente enrola pra deixar ir embora, e só agora eu entendo o valor de alguém assim. Então vou te pedir o óbvio, faz um esforço, fica mais uma noite, uma semana, ou a vida toda.

Coração anárquico

Mas se era assim que funcionava, como é que eu - justo eu - ia querer mudar alguma coisa? Como é que eu ia chegar com as minhas leis em um território onde tudo já funcionava tão bem sem poder algum se sobrepondo a outro? Porque a partir do momento em que eu colocasse as rédeas sobre nós, o tiro sairia pela culatra e em vez de conseguir a direção, acabaríamos perdendo o controle. Percebe a ironia? A partir do momento em que eu colocasse o rótulo que fosse em cima de "nós", automaticamente teríamos uma data de validade. É como se, enquanto nada fosse dito e vivêssemos naquele estado de acordo tácito, nada pudesse "nos" terminar. Enquanto não existíssemos de forma oficial, absolutamente nada poderia se voltar contra nós. Afinal, não há como acabar com um "nós" que, ao menos teoricamente, não existe. Por outro lado, a anarquia sempre funcionou muito bem sem oligarquia alguma. E nós, na plenitude de nossos corações anárquicos, nunca aceitaríamos lei alguma. Donos de nós mesmos. Mas ambivalentes. Loucos por um pedaço de pluralidade, mas mergulhados demais na própria individualidade. O que tínhamos de confusão e indecisão, igualmente havia em juventude e coragem. Queríamos ser pra sempre assim, eu lembro bem, mas nada dura pra sempre, e essa regra a vida aplica a todos. A solução era justo essa, e eu nunca vi. Devia ter burlado o sistema, ido contra os clichês, batido de frente com todas as ironias e resgatado o único bem que nunca foi meu, mesmo sempre tendo sido. Eu devia ter falado, então, para deixar assim, não sermos nada.

O amor não tem tempo


Espera! Fica aí. Não fala nada. Prometo que vou falar bem rápido, como quando se tira um band-aid, e não vai doer nada. É que toda essa atenção me sufoca. Me desculpa, mas é verdade. Olha, faz assim, escuta tudo, que eu juro que no fim você vai entender. Eu sei que é estranho, que eu fujo do padrão, mas assim assusta. Sei que eu sou complicada, mas confia em mim. O problema é eu não saber lidar com tanto carinho. Não cabe em mim, entende? Vivi tanto tempo tão rasa que qualquer carinho transborda, é demais. Parece que desacostumei a ter um lugar pra descansar a cabeça, alguém pra fazer um carinho de vez em quando. Desacostumei, só isso. Sei que a gente pode e vai dar super certo, mas não correndo desse jeito. Especialmente comigo, que mal sei lidar com as ligações, com as mensagens, com a preocupação, com o interesse. É como se uma parte minha ficasse se coçando pra sair correndo, enquanto a outra está louca pra ficar e ver até onde dá pra chegar. Afinal, o que você ia querer com alguém tão fora do padrão como eu? Alguém que nem sabe mais como amar, com o intrínseco pavor de cair em tentação. Vai ver só esqueci como é, como funciona esse tal de gostar. Então não vem com pressa, chega de mansinho, tô pedindo. Liga às vezes, finge que me esquece noutras, me mostra pouco a pouco como é que as coisas andam. Aparece de surpresa num dia, pra no outro dar aquela vontade de te ver de novo. Mas não corre, seja paciente. Deixa florescer devagar, e vai regando... Todo dia. Não atropela, por favor, que quem sabe amor não sabe tempo. Fica tranquilo, que meu amor não tem pressa. Espera!...

Pra não desistir de mim

É que eu cansei. E eu só vim comunicar que eu desisto. É isso mesmo. Depois de tanto tempo tentando, dando meu sangue pra conseguir aprovação no que quer que fosse, eu finalmente me dei conta de que o melhor é desistir. Então fica aqui meu desabafo. Desisto de ser a menina perfeita, de me entupir de maquiagem só pra esconder as olheiras depois de uma noite mal dormida. Desisto de medir minha alegria, sorrindo sem mostrar os dentes, e de não dar aquela gargalhada alta que eu queria só por não ser "coisa de menina que se preze". Desisto de escolher os vestidos sempre abaixo do joelho, ou os decotes da blusa sempre três dedos acima da linha do sutiã, porque independente do que eu escolha, vão falar algo a respeito. Desisto de passar a noite em claro tentando lidar com críticas pesadas, julgamentos injustos e de procurar formas de continuar provando meu valor. Desisto de tentar abraçar o mundo e esquecer de mim no processo. Desisto! Desisto de chorar por quem não me quer. Desisto de ter medo. Desisto da timidez. Desisto, também, de calcular minhas palavras, de não falar palavrão quando nada mais vai expressar o ódio no meu peito ou a puta vontade que eu tenho de dizer o quanto amo alguém. Mas também desisto de amores doentios. Desisto de ser quem eu não sou. Desisto de ser infeliz. Desisto de sofrer. Desisto, dessa vez, porque é o melhor a se fazer. Desisto dos erros, que é pra não desistir de mim. 

Eu amor, ele abissal

Mas é claro que eu percebi. Notei de primeira quando os olhos dele foram perdendo o brilho, as pálpebras antes tão arqueadas, agora preguiçosamente endereçadas a mim, os cílios alongados sempre tão serenos, tornaram-se inquietos.

É lógico que eu notei, desde o primeiro detalhe eu soube que algo estava errado. Desde a primeira nuance de mudança, eu soube. E não foi só o trejeito que mudou, que nisso ele ainda é o mesmo. Os detalhes foram tão sutis que só alguém tão próximo assim poderia notar, só alguém já pronto pra se jogar do precipício, sem medo da queda. E - detesto a falta de modéstia - esse alguém era eu.

Ele não ligava mais, e não é só de telefone que eu tô falando. Mas o que eu podia fazer? Se nem o meu amor bastava, o que eu podia oferecer pra fazer ele ficar? Ele foi assim, de repente. Num dia estava aqui, no outro fumaça. Leve demais pra ser preso por compromisso forte como o que o amor requer. Eu vi quando ele saiu na calada da noite, sem nem olhar pra trás pra não ter de admitir que debaixo daquela coragem tranquila se escondia um menino.

Quando eu comecei a ler os sinais dele, achei que tinha um dom. Achei que podia entender como ele funcionava, que tinha alguma vantagem com isso, mas aí entendi tão bem que suas ações fizeram sentido. Fez sentido ele ter abusado do vinho da última vez, não ter medido as palavras comigo, nem dissipado aquele furacão nos seus olhos. E eu estava lá, no olho do furacão, pronta pra ser tragada, mas ele estava muito adiante, tão preso dentro daqueles olhos tempestuosos, preso dentro daquelas íris negras como uma criança paralisada de medo do escuro.

E foi um baque assim, mesmo.

De repente não ligou, não apareceu, não mandou SMS e nem sinal de vida. Recusou todas as tentativas de contato até eu finalmente enxergar que a tempestade que eu via naquele olhar não era reflexo do que tinha em mim, aquele abismo era dele. Mas eu podia ajudar. Eu queria ajudar. Ele não. Eu estava pronta pra mergulhar naquele abismo sombrio. Tinha a corda, a lanterna, tinha os pés de pato e o oxigênio, mas ele recuou. E como se salva quem não quer ser salvo?

Então eu entendi, tão bem que não me senti nem mesmo no direito de desatar aquelas amarras, muito menos de dar o salto em direção ao escuro. No fundo ele precisava de mim, sim, até mais do que eu dele. Só que aquele mar dos olhos dele, turvo e abissal, ameaçador e sedutoramente letal... Se não dava pé nem pra ele, como eu ia dar conta de nós dois? Já vi essa cena antes. E eu queria ajudar, não leve a mal, eu só temia afundar também.

O medo que me sobrou

De primeiro arrisquei batidas novas, experimentei mais no gosto musical e no modo de vestir, mas no espelho vi que ainda tinha muitos medos, pré conceitos e ilusões que eu vestia como verdade. Mas o medo de mudanças estava estirado sob meus pés.

Comecei a me despir da arrogância, pra ver se assim meu eu cabeça-dura aprendia coisas novas e a visão à minha frente se tornou mais clara. Percebi, não tão surpresa, que havia sem querer colocado os óculos da humildade diante das vistas.

A partir de então, como peças de dominó caindo ordenadamente, assim foram meus medos. Vi enquanto o medo da felicidade ia embora, e pude constatar com alívio que esse era um que eu jamais voltaria a vestir. Temores que eu nem sabia que possuía, escondidos nos bolsos dos casacos e até nas meias. Até medo de amor, ora furtivo entre os fios de cabelo, eu tinha.

Só parei quando uma única peça cobria meu corpo, tão fina quanto uma tatuagem. Tão delicada e ao mesmo tempo tão imponente que precisei olhar diretamente. Passando os dedos, sua textura era tão macia quanto áspera. Aquilo era mesmo parte de mim? Estava ali o tempo todo, só esperando ser descoberto? Observei, maravilhada, e percebi com súbita confiança que se fosse para ter algum medo, que fosse esse, se é que de alguma forma poderia ser classificado assim.

E eu dei as costas para o espelho, confiante, atônita e frenética, pronta para exibir meu solitário medo mundo afora e barganhar todas as proezas que conseguisse com o coitado. Pois o único medo que sobrou foi o de não tentar.

Calidoscópio da vida

Então eu comecei a olhar pra dentro de mim. Procurei as qualidades que sempre quis ter e que - com surpresa - notei que havia conseguido adquirir. E um mundo completamente novo se abriu diante dos meus olhos a partir desse instante. Porque eu percebi eu era a única ligação entre o querer e o ter.

Sempre me disseram que talento é só uma parte do caminho para o sucesso, que o restante depende do seu esforço. Mas ainda, talvez a frase não esteja tão exatamente assim. É que o sucesso é que depende do esforço. O talento é uma parcela mínima, o tira-teima, na melhor das ocasiões. 

Não que eu soubesse disso antes.

E então eu entendi que a beleza, sendo tão subjetiva, não é necessariamente o rosto bonito, as coxas finas, ou os dedos longos e delicados. Ela pode - olha só - ser o que os olhos nem podem ver. A sutileza no jeito de agir, o carinho disperso na voz, o cansaço depois de um dia bastante produtivo, fechar os olhos antes de dormir. A beleza pode ser o que te traz felicidade. O que te faz fechar os olhos e desejar estar de novo naquele momento. 

Pode ser a capacidade de cantar, desenhar, ou a capacidade de lidar com as pessoas e ajudá-las. Pode ser simplesmente a determinação de seguir seus sonhos. De sorrir diante das atribulações da vida. A criatividade diante de problemas substanciais. O respeito diante dos mais velhos, ou a curiosidade ante a coisas que ainda não conhecemos. 

É belo, mas a gente não sabe. Eu não sabia.

A beleza é um calidoscópio que cada ser humano tem diante dos olhos. Cada qual vê um minúsculo pedaço por vez, e a imagem formada é sempre única, especial à sua maneira. Tem milhões de facetas, e bem-aventurados os que têm ciência disso, não interpondo sua própria visão pessoal à dos outros. Porque no fim é tudo uma questão de ótica, de enxergá-la por ângulo A ou B,  bem como dentro ou fora de si.

Uma vez me disseram que substantivos abstratos se diferenciavam dos concretos por não terem existência própria, e precisarem de alguém para existir. A beleza existe porque tem alguém para vê-la ou defini-la, o amor existe porque tem alguém para senti-lo, e a felicidade? É fruto disso tudo. Mas essa é só uma faceta, o milésimo do milésimo do que eu enxergo no meu calidoscópio da vida. 

Foi aí que eu decidi ver a beleza. Senti-la nas veias, atribuindo a cada momento a mágica que é simplesmente estar vivo, sentindo o coração bater. Porque estar vivo é bonito, amar (tanto a si próprio quanto ao próximo), sentir-se feliz, é bonito. A beleza de simplesmente ter o poder de sentir o mundo à nossa volta - através dos sentidos ou da alma - é subestimada. Mas agora eu vejo como isso é belo.

E como é belo.

Amizade tarja preta

Disse que nada era bom pra mim, melhor era eu abrir o olho
E eu devia mesmo ter prestado atenção
Mas eu continuei arriscando, mesmo com tudo sinalizando
Que algo estava errado e que era melhor eu olhar meu chão

Impediu que eu errasse, mas também que acertasse
Tantas e tantas vezes, apontando defeitos que nem deviam estar em questão
Mas o importante era a mensagem. Algo fora do lugar
E eu devia ter prestado o mínimo de atenção

Que o afeto era um repeteco
Artifício infrutífero
E que o certo era sair de perto

Mas depois se aproximava
Simples e sombria
                      [essa amiga minha
E trazia esse balanço
Entre a esperança e o desencanto

O remédio que tomado era - em si - minha queda
Meu veneno de bela embalagem
Diariamente, pouco a pouco
Levava-me toda a sanidade

Eu pedi como o moço
De fé e pé junto
— Bão balalão,
Senhor capitão,
Tirai este peso
Do meu coração.
E eu devia mesmo ter notado
Que o peso, o veneno e todo o resto
Minha amiga, meu desafeto
era você

Eu nem tinha imaginado

Memoir

Sempre que a primeira letra parece me fugir à memória, cá estou, pronta para mergulhar de novo na recordação. Não aceito esquecer, não me permito deixar escapar essas poucas, boas lembranças que tenho. 

Das quais você nem sabe.

E sabe meu nome ainda? Lembra de mim? Da cor dos meus olhos ou do meu cabelo? Não sei. Mas eu não esqueço. É uma lembrança doce, suave. De um tempo em que tudo era mais simples, até eu e você. Que seu sorriso se erguia até os olhos, e até as brigas tinham um quê de inocência. Recosto no sofá e fecho os olhos, e num instante, eu tenho todos os detalhes de volta, como se essas cenas nunca tivessem parado de se repetir. Como se seu nome ainda fosse presente na minha vida como naquele tempo, e não sutis reminiscências, escondidas em uma foto ou outra aqui e ali. E de repente, percebo furiosa, que eu nunca esqueço. E a memória é só minha.

Em agradecimento a 2013 - o que eu chamei de pior ano -

Antes que eu seja vista como alguém que "não fez mais do que obrigação ao agradecer", já esclareço aqui que 2013 foi um ano difícil pra mim. A menina que eu achei que fosse uma das minhas melhores amigas provou o contrário em grande estilo. Abri os olhos pra muita coisa. Caí. Muito. Não consegui desviar de nenhum bombardeio que a vida provocou - mas sobrevivi a todos. Acreditei fielmente que tudo daria certo no fim, mesmo com tudo desabando a cada passinho mínimo que eu dava. Acreditei nas pessoas erradas, nos caras errados. Mas por outro lado, descobri meus limites, minhas tolerâncias (e intolerâncias), matei vários monstros de "e se", outros eu aprendi a conviver, me aproximei de várias pessoas certas. Não conquistei nada sem uma boa luta, e algumas lutas ainda nem estão perto do fim. Mas, como diz meu adorado ídolo Jeremy McKinnon, "É nos tempos mais difíceis que nós crescemos mais".

Às vezes eu queria poder reclamar do meu ano de 2013, mas eu olho pra trás e penso que a vida poderia ter sido infinitamente pior, se quisesse. Podia ter tirado minhas melhores amigas, podia nem ter me tirado de situações que, honestamente, eu não saberia sair sozinha. Podia ter me impedido de conhecer algumas pessoas maravilhosas, e também podia nunca ter me mostrado o quanto outras pessoas não eram boas pra mim, como eu pensava.

A vida foi gentil comigo, mais do que eu pude ver. Ela provavelmente ensinou tudo o que estava na agenda pra que eu aprendesse no ano (com alguns 17 dias de atraso?), e tentou me ensinar da forma mais macia possível. O que eu quero dizer é: foi difícil, pareceu impossível em alguns pontos, mas eu também tive meus privilégios. Tive muito apoio, chances especiais que compensaram e que raramente são percebidas quando estamos vivendo-as.

Porque a gente não vê como a vida pode ser cruel, quando estamos nela. Sempre vemos como ela poderia ter sido "mais boazinha", nos esquecendo de ver como cada milimétrica possibilidade poderia ter tomado outro caminho e tido um fim horroroso, como cada pequena chance poderia ter sido pior - e não foi! - ou como aquela sorte de conhecer uma amiga especial, poderia não ter estado conosco.

Nós esquecemos que, sim, tem como piorar. E raramente - como agora - vemos que ela foi gentil, e que, mesmo não te enviando um post-it com o conhecimento já inscrito nele, fez da maneira mais difícil de se aprender (a prática), um aprendizado tão menos doloroso quanto foi possível. Afinal, já dizia John Locke "Todo conhecimento provém da experiência" e algumas doem.

Então talvez o que eu esteja sentindo seja gratidão. E às vezes eu só gostaria que outras pessoas pudessem ter essa mesma visão sobre as coisas que aprenderam durante o ano, e serem gratos por aprender. Não apenas porque "dava para ser pior", mas porque a vida foi gentil. E se a gente não aprecia nem os bons atos que são dirigidos a nós, como esperamos que apreciem os nossos para os outros? 

Mesmo atrasado, feliz 2014. Que nossas esperanças estejam renovadas nesse ano.