Eu, acima de tudo

Eu encontrei a saída
Eu
Mulher guerreira

Escapei da sua teia
saí correndo numa distração sua

Saí correndo quando você olhava
Me desvencilhei e corri
Eu não olhei pra trás
Fui eu quem cortou as amarras

Foram esses pés que me levaram pra salvação
pra chão seguro
nadei longe do mar aberto

Eu escapei do relacionamento
das correntes
de você, dele
foi ela, fomos nós - nós todas!
Eu.

A força veio de mim, a coragem da Maria, inspiração da Juliana
e a Ana que me disse: vai, amiga, e se cair eu tô aqui.
Mas no fundo, quem correu fui eu.
Fui eu, só eu e ninguém mais. 

Louco mundo

Tem sido difícil pregar o olho
A vida uma guerra lá fora 
E confusa, cá dentro
E o coração correndo no caminho 
Que a razão jamais considerou seguir

Nós temos demônios na bancada
Que se dizia evangélica
Nós temos lobos sanguinários
Passando por inocentes cordeiros
Non agnus dei est

Faço uma reza ou duas e espero no sofá
Que algum alguém se revolte
Pras coisas poderem melhorar
Mas eu queria mesmo era ir lá fora 
Se eu tivesse a coragem
Coraticum - se o coração me comandasse
E eu descartasse a razão

É grande a dúvida, por que eu vim? 
Que faço nesse mundo de loucos
se não me vejo um louco aqui?

Por que não posso mudar os erros
[que não são meus?
Por que essas mãos não têm a força
e a voz não tem a importância
pra mudar algo por aqui?
Por que esses pés às ruas não vão?

Espero um anjo me salvar 
mas eles estavam enganados
Fomos todos nós deixados
E meu desespero perde as bordas
Me toma, inteiro
- Preciso escrever como homem pra ser lida - 
A bancada estava errada 
Os anjos já desistiram de nós 
A própria sorte já não está
À própria sorte já estamos

E eu me vejo tão deslocado
Vem tiros, de todo lado, estão todos endiabrados
E eu, coitado, crendo o oposto do que é ensinado
Sigo uma lei que não existe mais
Porque toda lei foi revogada
- Eu mesma, também fui -
E meus direitos, outrora rasos, evaporaram

Miocarcídio

Podia o natal chegar logo
também essa dor passar logo
e a catarse ter efeito duma vez

Podia mesmo a guerra acabar
tanto lá fora quanto dentro cá
Podia a saudade enfim passar

Podia a comida nunca acabar
e a fome não mais nos assustar
Pra uma revolução, do fim, começar:

Esse ódio humano - sem pé, nem cabeça
encontrar seu lugar, bem longe
da vida, cemitério das dores

Hoje me encanto com qualquer luz que vejo
de tanta escuridão que já me viu

A ganância sem fim, certeira morte
Se junta c'o arrogante, ao cair da noite
Seu fiel guerreiro hierofante

E luta infinitamente
luta mesmo, bravamente
luta quase sem fim, contra o amor que há em mim

Queria poder ver a febre partir
A cobiça a galope, caindo fora daqui
Podia a maldade se proibir, todinha, de existir

Como pode por u'homicídio alguém de casa sair?

É tanta coisa nesse mundo
que eu queria poder mudar
a pincel e aquarela
que outra maneira que há?

Mas esse é o mundo da avareza
O mundo próprio da riqueza
Mundo esse de aparências e troféus
que se vende à caneta e papel

Só querer não é poder
querer poder, ainda menos
A gente muda e muda o mundo
Mas o mundo muda e a gente fica mudo

A real

Se eu mandasse uma última mensagem de texto pra você, ela provavelmente não poderia ser SMS. Sabe, SMSs são mensagens curtas, sucintas, e a minha ia precisar ser repartida em várias partes. É tanto que você ia se sentir em um SAC de uma empresa ruim e trapaceira. Como você. Você ia preferir o processo no tribunal e a falência, a lembrar de todas as faltas cometidas; falta grave, bruta, incisiva, calculada. Você provavelmente já sabe tudo o que eu diria, mas ainda assim eu consigo imaginar o choque na sua expressão, por ter vencido o meu orgulho uma vez que fosse. Eu escreveria uma carta, mas eu nem tenho coragem de gastar tanto tempo pensando em você, intoxicando a cabeça de novo. Então tá aqui a SMS, confere seu celular depois. A sua marca é permanente, já percebi, e ainda to aprendendo a perdoar a ingenuidade de nós dois; a sua, por acreditar que eu estaria sempre na palma da sua mão, e a minha, por acreditar em você.

À peine

Você não era o mar, a terra, nem a âncora me mantendo no chão.
Não, você - se isso - era o ar, rarefeito, quase nada.
Raspando a sola dos meus pés, mal enchendo meus pulmões.
Mal sendo o suficiente pra me levar de volta pra casa.
Mal sendo metade de tudo aquilo que eu um dia jurei ser.

Satélites

Eu fico inconformada toda vez que olho pra trás na nossa história e relembro tudo o que você fez. Todas as vezes que você me afastou e me colocou de lado quando eu só queria um espacinho do seu dia, sem muita pretensão. Fico mesmo, porque agora você repensou, quer de volta. E eu não entendo o que mudou, que também te fez mudar. Agora você vem dizendo que quer juntar todas as pecinhas do meu coração, até porque antes de você, eu nunca tinha conhecido essa brincadeira de quebrar e perder uns pedaços por aí. Eu fico inconformada porque eu te amei do jeito mais puro que eu conhecia, o único jeito que eu sabia; eu amei você e sem nenhuma bagagem, num mundo em que alma nenhuma vem de peito aberto, sempre dando tudo pra não arriscar nada. Mas agora você vê, e todo o meu mundo que nunca teve valor algum, de repente é a sua maior preciosidade, um satélite brilhante nesse seu mundinho escuro. E acho que até sei de onde veio essa descoberta do século, claro, aí fora é uma selva. Precisou quebrar a cara, não foi? Só assim, conseguiu ver que você já tinha tudo o que precisava bem aqui, você mesmo disse, mas estava com sono demais pra lembrar no dia seguinte. E ver que a sua menina é que era a sua urgência, não a liquidez do mundo lá fora, que não preenche vazio nenhum. Ah, isso deve ter sido perturbador demais pra você, a ponto de colocar um cerco tão grande entre nós; mais do que medo de ser feliz, medo de se viciar nessa felicidade. Eu fico inconformada porque parece que todo o meu esforço, aquela constante marcha sobre meu próprio orgulho, foi em vão - e você se arrastando por cima do seu só agora, justo agora! Esse satélite não gira mais ao seu redor, cortei todos nossos nós, desfiz os laços, me libertei. Amém.

Verdadeiro, verdadeiramente

Quero descanso
sem descaso com 
a alegria dum amor verdadeiro
eu caso

Que seja honesto
e seja recíproco 
e grande em escalas 
                     larguras alturas

Doce sabor 
rico em sabores 
             cores formatos substratos
que haja recato 
e também seja grato
sem fardo 
nenhum
de pudor

Verdadeiro amor 

Aluado

Eu te dei chance mesmo naquele turbilhão que o mundo ao nosso redor estava, todinho corrompido. Insisti que ia dar pé e mergulhei em você. Confiei em você quando ninguém sequer achava que inspirava confiança. Inocência, você diria. Mas sempre fui assim, inteira. Tudo que faço é muito, é intenso, e isso te assustou, não foi? Nunca fui de muitas palavras, por não saber usá-las com você, mas sempre conseguia um olhar, um abraço. E bastava, era incrível como tão pouco me bastava. Eu era um resumo e você uma sinopse e eu nunca vi isso. Penso às vezes naquilo que a gente foi e no que quase foi também. Tantos 'talvez' que eu quase não consigo montar uma linha do tempo precisa... Preciso olhar algumas vezes pra nossa história pra lembrar quem partiu, e qual coração se partiu. Você foi uma maré tão forte que ainda me pego pensando em como sobrevivi às ondas, as marolas de carinhos e à maré baixa, a distância mais fria que já conheci. Distante como aquelas ondas ali, no horizonte, a água se retraindo pra atacar com fúria e repentinamente, um tsunami devastador e impiedoso. Mas teu jeito era manso, lembra? Dia sim, dia não, como o mar, de lua. Mas a maré baixa é convidativa, e a gente sempre acha que dá conta. É, insisti que ia dar pé, mas quase me afoguei em você.

Incansável

Mas não era o que eu queria dizer. Quer dizer, eu nem sabia se devia! Joguei fora centenas de folhas, amassadas, lotando a lixeira até o topo. Nenhuma palavra dizia o que eu precisava. Eu via o tempo correndo contra a minha vontade, sem permissão, e eu empunhando a caneta em vão. Queria tanto uma prosa, palavras bem explicadas, nada que desse espaço pra uma segunda interpretação, mas a minha cabeça só montava esquemas intricados de poemas, declarações inusitadas. Queria qualquer coisa prática, direta e nada bagunçada, mas olhando assim por cima, só encontrava metáforas. Precisava ir a fundo, mas como cavar dentro de mim? Como fazer isso no tão pouco tempo que tivemos olhando um para o outro? Aquele expresso não ia durar mais do que cinco minutos e as folhas amassadas se amontoavam na minha cabeça. Enxerguei seus olhos como dois faróis me examinando uma última vez, clareando aquilo que eu lá no fundo me esqueci de como expressar. Você saiu da cafeteria, mas não da memória. Eu não tinha coragem de sujar minhas unhas por qualquer um além de mim, cavar uma terra de ninguém em busca de algo que talvez nem estivessse lá. Entende? E se todo esse romance só estivesse borbulhando na superfície, sem nada que pudesse sustentá-lo? Eu já havia aprendido a interpretar os finais felizes de acordo com a necessidade dos envolvidos. E foi aí que eu entendi. Dessa vez, eu é que não ia ficar por perto esperando ou criando desfecho, ou então - pior ainda, o contrário - criando pontes de isopor em cima de puro magma. A minha vida não cabia dentro da sua e você não se encaixava mais na minha, percebi. Só pra variar, eu decidi parar de me debater como criança em busca de resposta, procurando pistas pra enigma sem solução. O café, na mesa, esfriou. Eu me levantei logo depois. Você foi embora, mas eu também não fiquei pra contar a história. E não foi perda, nem livramento, não dessa vez. Pra nenhum dos dois. Mas, sinceramente, foi o final mais bonito dentre todos, meu preferido. Embora o café e a conversa tivessem esfriado, ainda tínhamos calor. E meu coração, incansável coração, continua aquecido.

Teu mundo

entre um frio de tremer os ossos
e um calor de ferver a pele
in-con-tro-lo-patível
de encontro à alma da gente

comme tout dans la vie
volta a bruma, volta o frio
come stai, amore mio?
sobra a sombra, sem o riso

o que digo, só suplico
não é assim, a voz explica
diz, há coisas sobre a vida
que são pouco mais que findas

incontrolopatível
este encontro incompatível
me encontro em seu abismo

abdico desse mundo
e mais digo, aqui não fico
nem mais um segundo

frenteverso

meu pescoço, teu punho
minha mão e tua nuca

a faca de dois gumes
que me corta
também a ti machuca

Insólita


meu medo é sólido
mas a coragem é líquida, derretida
e eu, amor insólito
em despedidas, perita

te relembro dezembro
não sou acessório de homem nenhum
e se não a minha voz
minha ausência se torna o lugar-comum

vamos falar da angústia
que eu vejo por tantas lentes 
paradoxais, confusas, infernais
fazer o certo com métodos errados, mas só uma vez mais

e quem sabe eu entenda a dor
pra procurar uma cura por aí 
eu podia ficar, poderia ir - e que diferença faz?
o fim é sempre algia e muda jamais

Quem não quer sou eu

Sabe de uma coisa? Eu não quero a sua amizade, nunca quis. E foi de repente que eu percebi isso, tão de repente quanto decidi te contar. É que eu não quero ser obrigada a estar ao seu lado quando você conhecer a sua namorada, e aí observar enquanto ela aprende tudo sobre você, detalhe por detalhe, coisa que aliás vai demorar anos. E por mais que eu nem pense muito nisso, também não quero estar no canto dos padrinhos no seu casamento. Não quero dividir com você anos e anos de uma amizade sólida e equilibrada, porque equilíbrio é questão de ponto de vista, e eu não entendo como pode ser possível querer amizade com você. Só amizade, entende? A vida já nos dá tantas rasteiras, mudanças de plano de última hora, a gente não devia ficar dando chance para que a gente de repente se torne mais uma dessas fatalidades, uma dessas chances gigantescas jogadas pela janela no último momento, ou que estiveram lá o tempo todo e nunca foram vistas. É que, será que você entende?, eu não quero ser essa chance na estante, e jamais poderia ser. Não quero ficar pegando pó, esperando alguma ação, vendo a vida passar numa dinâmica diferente de tudo aquilo que poderia ser - mas que não é. Eu que já sou tão perita em despedida sei muito bem onde essa bagunça toda pode levar, e não vou querer ficar por perto pra ver fim nenhum. Desculpa, não vou ficar por perto, não. Não quero estar ao seu lado pra conhecer sua namorada, porque - e só agora eu percebi isso - eu prefiro ser ela.

Poema de vírgulas

meu amor por você
joguei no rio tietê
e pedi a iemanjá
pra, por favor, considerar
mas que eu não tinha nada
nada melhor pra ofertar

e em troca eu pedi
que a sorte por favor mudasse
porque ai-meu-deus
esse impasse
fazia tudo menos bem
especialmente essa saudade

que então os ventos se apiedassem
e me trouxessem novidade
sem boleto nem vintém
que eu não queria mais ser parte
dessa arte que é teu harém

mais sorte encontrei
que jogando em loteria,
que me arriscando em Roma
na Fontana di Trevi,
ou andando grátis de carona
e tudo isso sem você, hein

se iemanjá me ouviu
se foi perda ou livramento
ah, isso só o tempo
só com o tempo
e até lá, confesso
agridoce desalento

Segunda vez

Traz a noite crua de novo
iluminada em pontos brancos
Aquela brisa sempre escura
as folhas mortas far fa lhan do

Então traz a alegria de novo
não deixa minguar meu sorriso
Ou vem correr contra o vento
ou tira esse amor do meu peito

Traz de volta tuas memórias
volta correndo essa noite
Queria que soubesses
eu vou te dar essa chance

Lembrança no farol

Fica um pouco mais
um pouco mais fácil
mais fácil cada dia 
cada dia, um pouco passa

de manhã tudo atrasa
a semana se arrasta
mês, então, nem se fala
e o semestre, enfim, passa

A distância é uma hora
mas os dias, uma vida
milhares de milhas
enroscadas pelo ar

Criando esquecimento
a partir da lembrança
in memoriam clara
afluente da esperança

Oito mil nós
de nós pelo mar
Zero ponto sete
souvenir que me há

Quantos mil metros
até sumir do retrovisor?
Quantos mil anos
até o encontro redentor?

Sem uma esperança
eu grito 
em dor;
Por misericórdia
um rito
de amor

Logo um dia vai passar
a memória incessante
quase e sempre, redundante
coração-garrafa-ao-mar

Sem misericórdia
um rito 
que for;
em pura esperança
eu grito 
sem dor

Palavras perdidas

Foi numa dessas epifanias de pura gratidão com a vida e com meu aprendizado nela que eu voltei a pensar em você. Não que por algum santo dia eu tenha parado, mas dessa vez foi diferente. Eu tenho ensaiado mil e uma maneiras de te dizer o que eu sinto e que ficou engasgado, e hoje mesmo fui perceber que, independente do quanto eu goste de você - ou da ideia de quem você se tornou pra mim, o que eu mais preciso agora é que você saiba disso. Só isso. O meu aniversário tá virando a esquina e eu não suportaria fechar um ciclo pensando que tanto do que podia ter sido dito, não foi. Eu não suportaria deixar pra trás tantas verdades que, por mais que eu odeie admitir, talvez nem mudem nada pra você, mas que pra mim, estão sendo um método de tortura escolhida a dedo por um assassino de sangue frio. Desce, vem aqui fora, me escuta cinco minutos. Eu não vou trazer as mil músicas que pensei em mandar, nem vou te culpar pelo que passou, porque sei que nós dois tivemos culpa nessa. Vim só, sem precisar mais de nada. Sem artifícios mundanos, só as palavras mais honestas que pude encontrar. Vim me desculpar pela minha parte nessa bagunça, mas também avisar que estou trabalhando nisso; estou crescendo e corrigindo meus erros, entre essa nossa distância. Acho até que eu era perfeita pra você, mas o problema foi que quando você não viu isso, eu também não vi. Eu sempre fui tão honesta em tudo, até nos sentimentos, a ponto de ser quase transparente. Quando fui amor, fui por completo. Mas quando eu vi você, acabei te mostrando meu lado mais amargo, ingrato e seco. Que irônico, né? Uma parte minha viu aquele brilho especial em você, mas a outra teve um medo insano de te perder. Pensei que fosse o jeito certo de lidar contigo, mas agora eu enxergo como estava errada. Você nao precisa de alguém frio, você precisa de amor. E nem vim arriscar outra chance, decidi deixar isso com o destino, com Deus, com qualquer força lá fora, mais forte que eu, que se compadeça da minha situação. Tô com as roupas de corrida não para provar minha paixão por esportes - finalmente, algo além de você -, mas porque de alguma forma os meus pés sempre correm até você. A vida parece sempre me levar pro seu lugar. Eu vim vestida, mas as minhas palavras não podiam estar mais nuas, tão puras. Você é a minha lembrança mais vívida de uma paixão, e a que mais deixou dúvidas e espaços em branco. E hoje, escuta que simples, mesmo que as palavras não sejam as mais certas, eu só queria preenchê-los.

Saudade

A saudade
Só dá de
Manhã
Quando o café fica pronto
E uma caneca, vazia

A saudade (ah, saudade)
Só dá de
Tarde
Quando o sol aquece a sala
E o sofá, sozinho aguarda

A saudade, tadinha
Só dá de
Noitinha
Quando a luz da vizinha
Mostra sua nova companhia

Faísca, fogo, amor

Parece que é pela milésima vez que eu to falando que não deu, que não era esse o cara. Minha amiga torce o nariz e pergunta em que ponto eu desisti dessa vez, como se fosse um jogo que vez ou outra eu tenho mais  ou menos progresso no tabuleiro. Mas a verdade é que eu insisti por tanto tempo e contra tantos contratempos, chegar a algum lugar, que fatiguei o coração. To exausta de espremer os sentimentos pra ver se sai um pouquinho de paixão. Nada. E aí eu levanto a bandeira branca, porque pra mim até existe paixão sem amor, mas amor sem paixão? Sem nem um tico de paixão? Sei não. Parece tão bobo, quase um capricho adolescente, mas sem ela eu não consigo continuar em qualquer relacionamento de longo prazo, sem achar que eu to gastando o meu tempo e o do sujeito com um sentimento mascarado de algo a mais do que ele é, mas que nunca vai evoluir. Eu tento, tento e tento até ver que alcancei a escala máxima daquele sentimento. É isso. A dor maior é ficar riscando o coração atrás de uma faísca que nunca vai existir; um brilho que jamais vai dar o toque final na relação, que pensando bem, nesses termos, nem devia existir. Então eu desisto, não hesito. Prefiro começar do zero, me arriscar de novo. Coragem, imprudência, seja o que for. Parece besteira, mas no fundo, eu sei que sem faísca, não tem fogo. E todo mundo sabe o que dizem sobre o amor. 

Do outro lado do mundo

Acho que no fundo você sabe. Eu não desistiria a toa, não desisti nem quando você disse com todas as letras que era encrenca e que ia me machucar. Não liguei e não porque sou blindada - longe disso, ainda mais pra quem chora em comerciais de carro, mas porque não consegui enxergar nas suas palavras aquilo que as suas ações diziam. Estava em disjunção, sabe? Então eu fiquei. Queria entender. Dei outras opções: não precisava ficar na cama, estava determinada a aceitar um lugar no sofá. Mas sentei na soleira e esperei a madrugada toda. Aguentei o frio que veio e engoli o medo com o resto de coragem que me sobrava. Eu te ouvia mexendo na fechadura algumas vezes, mas aquela porta não se abriu. E depois de algum tempo assim eu finalmente entendi que não veria teu interior tão cedo. Talvez o problema fosse eu, talvez o mau tempo, talvez até algo no teu passado. Mas no meio de tanta dúvida, decidi que não cabia mais nenhuma. Me agarrei à minha única certeza e voltei pra casa com as sobras do meu amor próprio, um souvenir do meu último recurso. Foi um caminho longo, segurando a respiração a cada passo, engolindo a derrota latente e ainda lutando para manter a cabeça erguida em meio à frustração de uma simples porta que nunca se abriu. Um sofá que nunca me deu abrigo. Por teimosia ou imaturidade, eu não soube a hora de dar as costas e precisei abortar a aproximação. Bobeira, eu sei. Mas por medo ou por desinteresse, quem perdeu foi você. O tudo que poderia ter sido, mas não foi. E agora, com o sol subindo do outro lado do mundo, eu enxergo isso.

Nós

Talvez você conheça outra
Na fila do banco
Tomando sorvete
Na mesa da frente
Trabalhando com você

Ou quem sabe aquela 
Outra bela, conhecida
Não finalmente percebe
A sua existência
E joga charme
E te chama
E te ganha
Por uma noite
Ou uma semana

Quem sabe o que pode ser
Ou a probabilidade do amor florescer
Não eu
Durante as dores do que é pra valer
O meu amor é o que você não vê
Nunca eu

E eu ainda aqui
Ainda temo chamá-lo por seu nome
E você aí
O que é que há com a verdade em teus olhos
Você nem aí
Se atirando em outras vidas sem nem ver
Sem me ver
E eu aqui...

Sete chaves

Parece que foi com cadeado
que eu tranquei
E a chave, não faço ideia 
onde joguei

E o coração fica assim
a sete chaves impedido 
de ser coisa mais simples
Ironia do destino

E assim eu fico também
mas nunca é por muito além
daquilo que costume
com qualquer alguém

Trancafiar o sentimento
me era quase um passatempo
Eu não sabia que a paz
era o oposto desse invento

Vê, precisei cavar em mim
combater minha paz marfim
e revirar o mundo do avesso
pra aprender o que é o apreço

É diferente das nuvens 
que eu apontava no ar
É nuvem negra, pronta pra chuva
e ao mesmo tempo um luar

Esse amor é um tesouro
que eu acabei de encontrar
As sete chaves que me faltam
ainda não sei em quem buscar

Não volta, não

Você fez o que era melhor pra você. Pode ter sido a pressão que eu não soube medir, a expectativa criada sem que eu me desse conta, a febre por algo tão novo e especial, tudo que nem você e nem eu tínhamos experiência ou paciência o suficiente pra aprender a lidar. E foi menos de um passo pra virar essa bagunça. Pensei por muito tempo ainda se você sabia o deserto que tinha ficado por aqui quando você foi embora. Porque você, diferente de todo o esperado, não deixou nada pelas metades quando partiu. Achei que fosse sobrar um sorriso aqui e ali, um desespero ao achar que te vejo em tudo que é canto, mas não. Nada. E o desespero foi três vezes maior. Você foi embora e deixou uma terra arrasada, e eu me vi obrigada a reconstruir meu mundo do pó. Precisei ficar só pra precisar só de mim. Mas veja bem, foi você tirar meu teto que eu reparei que o céu tinha estrelas, dei a cara a tapa e aprendi uma vida nova, em outros moldes, outros sistemas, outras fontes de alegria, e, olha só de novo, nenhuma delas nem ao menos lembrava você. Parabéns por não deixar reminiscências, por dar no pé tão sutilmente, a ponto de eu mesma me interrogar se algum dia você esteve por aqui. Pelo bem, pelo mal, foi assim que eu consegui começar do zero, refazer um mundo todo dentro de mim. Você reapareceu depois, maltrapilho e fatigado das andanças por aí, mas agora eu já reconstruí meu castelo de sapê, à beira-mar do jeito que eu sempre quis, e nem me preocupei em fazer quarto pra você. Que surpresa. Não te fiz quarto, e nem faço mais sala pra você. Eu descobri que a vida é muito mais do que aquele espacinho no quartinho do fundo do teu coração, que eu ainda achava o máximo. Agora você olha pra mim e sente falta, pede desculpa, aparece duas vezes por semana pra refazer a tua imagem, mas a pessoa que você deixou já não mora mais aqui. E o mais incrível é que a culpa é todinha sua. Não é irônico? O motivo de tanta mudança nem faz mais falta aqui. Você fez o que foi melhor pra você, mas agora faz o que é melhor pra mim. Não volta, não.

Na minha vez

Queria sacudir seus ombros até que ela entendesse, até que em seus olhos eu visse aquela resposta que eu não consegui ter, anos atrás. Quis tanto, que de alguma forma mágica, tudo que eu sabia até ali, se transportasse pra ela. Osmose, quem sabe? Tinha esperança de ser uma melhor professora, de contar como é que as coisas aconteceriam, como tudo seguiria no mais provável rumo, pra ela evitá-lo. Quis tanto saber exteriorizar tudo o que eu pensava. Tentei a murros e pontapés. Murro em ponta de faca e pontapé em muralhas espinhosas. É sério, eu insisti, mas era uma corda bamba com um aro de fogo em volta - tão fácil queimar junto. Queria que tivessem feito o mesmo por mim, então fiz o que gostaria que tivessem feito, em igual intensidade. Mas lembro também que não teria deixado interferirem tanto na minha vida, quando o que eu sentia era tão certo - como podia algo tão certo ser tão errado, afinal? E alguns anos depois eu entendi, que às vezes a gente se engana, e tudo bem com isso. A questão é que podia, sim, parecer certo e ser totalmente errado, e então com essa certeza, todas as outras viraram de ponta cabeça no meu mundo. Viu a confusão? Eu lutando pra ajudar uma amiga, quando eu mesma não teria aceitado ajuda, algum tempo atrás. E por mais hipócrita que possa parecer, além de tudo que eu já disse; eu queria, sim, que tivessem tentado com o mesmo afinco, queria que tivessem tido o mesmo zelo comigo, na minha vez de me apaixonar pelo cara errado.

Um alguém qualquer

Esses dias me perguntei, por que é que eu não te apaguei. As fotos, os textos, os presentes, o livros, tá tudo aqui ainda. E eu não tive a resposta na hora, e talvez nem agora ela esteja assim tão clara. Como é que se apaga alguns anos da memória, assim, tão rápido, me diz? Foi amizade boa, em alguns momentos, e então saiu de controle. Você e eu. Os trilhos ficaram mais apertados. Pra mim, mais você do que eu. Mas quem sabe no seu mundinho caótico as coisas não foram diferentes, não é? Ainda assim, entendo seu questionamento. E essa parte eu também não consigo entender; se é passado, por que ainda não devolvi tudo, apaguei a luz e fechei a porta. É que, fazendo isso, acho que eu finalmente estaria lacrando anos do meu passado. Seis, pra você ter certeza que é contigo, amiga. E parece que apagar isso, tantas horas que passamos juntas, e que eu confiei em você, apagaria um pedaço meu também. Então acho que é essa sua resposta. É por isso que um pedaço seu continua aqui, e vai continuar até eu decidir que um pedaço do meu passado já não é mais importante. Até que eu decida que um pedaço meu é tão desimportante a ponto de poder ser apagado sem rancor. E quem sabe quando eu vou decidir isso? E quem é alguém pra decidir que a própria memória não é importante pra lidar com o presente, com novas possíveis amizades? Não eu. Eu não vou tomar essa responsabilidade. E sabe de uma coisa, eu quero é paz. Vou guardar as lembranças, sim, mas não significa que vou revivê-las pra sempre. Não significa que eu sinta falta, jamais imagine isso. Acho mais que elas estão lá como uma maneira de me lembrar, pra me frear da próxima vez que confiar em um alguém qualquer.

Conta pra ela

Conta pra ela
que você se apaixonou
E que não foi por ela

Conta pra ela
que você seguiu em frente
E não foi junto dela

Vive a vida que te der na telha
Vive, sem neura

Mas

Conta pra ela
que acabou.