Meu jardim

Em qualquer canto suspiro um canto
Minha fé só não é maior que os arranha-céus
Rebentando nuvens como o amor rasga o peito
Cercam-me rasa aqui, sem mergulhar em ti
Eu não posso contra a coragem
Não quero lutar essa vontade
Em qualquer canto murmuro um canto
Com quanto canto se faz um canteiro?
É um espelho o amor verdadeiro
Se ainda te canto, é que um canto em meu canteiro ainda tens

Até que eu encontre, uma última vez, você

Meu mal é acreditar demais. 
Acredito muito em destino, mas também acredito em timing, aquelas chances dadas no momento certo, nas oportunidades que aparecem com um propósito, e não por pura sorte. 

Nunca gostei dessa mania de culpar os outros pelos nossos erros, ou de abraçar os erros dos outros e tentar consertá-los. É preciso muita maturidade pra aceitar o peso das nossas ações, mais ainda pra entender as ações dos outros, as intenções, as consequências. E respeitá-los por isso.

Como quando ouvi aquela vez que a vida ainda nos juntaria pra valer, que eu só precisava ter paciência. De início, a ideia é tentadora, acreditar que só é preciso esperar e então, magicamente as coisas aconteceriam. Voltaríamos e todo o tempo perdido serviria apenas para se arrepender de não termos passado-o juntos. A voz era convidativa, mas eventualmente caí na real. Tá tudo errado. Ninguém entendeu nada.

Eu poderia começar falando como cada pessoa tem seu tempo, e como é possivel, sim, ser a pessoa certa na hora errada — aparecer num momento em que a pessoa está instável, ou emocionalmente indisponível. Tudo isso pra ver se, quem sabe, a gente não tira da cabeça essa ideia romântica e até idealista de que, se for pessoa certa, ela vai obrigatoriamente encontrar um jeito de estar com você, de batalhar todos os seus demônios, seus problemas pessoais e aparecer na tua porta com um buquê de flores numa noite aleatória no meio da semana. Porque você é especial, e ela é a pessoa certa. Oras!

Então nós precisamos entender o que acontece do outro lado da história, de quem fala coisas como "nós ainda vamos nos encontrar" e "a vida dá voltas, espero que a gente ainda se encontre". Não significa que a sua viagem para o Caribe com as amigas precise ser desmarcada, ou que você deva esperar três anos em casa até que ele caia na real, ou então que ela vai acordar algum dia e se sentir diferente e voltar quando você estiver em um intercâmbio na Áustria. É exatamente o oposto. 

Antes que todo o conto de fadas possa acontecer, pode ser que os dois precisem crescer. A vida age de maneiras estranhas, e enquanto ela precisa se conhecer, ele precisa conhecer o mundo, mudar, melhorar. Óbvio que há casais que simplesmente clicam desde os 14 anos e se casam sem nunca terem conhecido nada diferente disso, e milagrosamente não têm dúvidas quanto ao parceiro escolhido na adolescência - mas eles são a exceção. Mas e o resto do mundo? As pessoas tem dúvidas, mudam de ideia, de humor conforme as estações. O resto do mundo somos eu e você, e por mais que viver junto também seja incrível, quem pode ser culpado por querer dar seus próprios passos, errar sozinho um pouco? Se nós não podemos mudar o outro, o que sobra é mudar a nós mesmos, ou morrer na mesmice. Por que não aproveitar essa chance, se amar, descobrir seus gostos e hobbies, se apaixonar por qualquer coisa que não seja alguém, se arriscar na vida, e aprender a gratidão?

Já ouvi uma vez que o que a vida quer da gente é coragem. É preciso coragem para acreditar que às vezes, você pode ser a pessoa certa no momento errado, e que a vida pode te levar a reencontrar o amor da sua vida na sua viagem à trabalho no nordeste ou nas férias de verão em Ibiza. O mundo dá voltas, e o tempo todo a gente (se) encontra e desencontra. É preciso coragem pra ter fé que o que tiver de ser, será; pra ter esperança, pra acreditar que vai dar pé, e mergulhar na vida. E quem sabe, depois dos desencontros, haja um último encontro, certeiro, quase um arco-íris no finalzinho do horizonte. Que haja, então!

Até que eu encontre, uma última vez, você, vou querer viver, não vou largar mão das minhas experiências, meus sonhos, de mim. E que sorte seria, depois das andanças, do topo das minhas conquistas, te encontrar. Talvez seja pela última vez, você.