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Satélites
Eu fico inconformada toda vez que olho pra trás na nossa história e relembro tudo o que você fez. Todas as vezes que você me afastou e me colocou de lado quando eu só queria um espacinho do seu dia, sem muita pretensão. Fico mesmo, porque agora você repensou, quer de volta. E eu não entendo o que mudou, que também te fez mudar. Agora você vem dizendo que quer juntar todas as pecinhas do meu coração, até porque antes de você, eu nunca tinha conhecido essa brincadeira de quebrar e perder uns pedaços por aí. Eu fico inconformada porque eu te amei do jeito mais puro que eu conhecia, o único jeito que eu sabia; eu amei você e sem nenhuma bagagem, num mundo em que alma nenhuma vem de peito aberto, sempre dando tudo pra não arriscar nada. Mas agora você vê, e todo o meu mundo que nunca teve valor algum, de repente é a sua maior preciosidade, um satélite brilhante nesse seu mundinho escuro. E acho que até sei de onde veio essa descoberta do século, claro, aí fora é uma selva. Precisou quebrar a cara, não foi? Só assim, conseguiu ver que você já tinha tudo o que precisava bem aqui, você mesmo disse, mas estava com sono demais pra lembrar no dia seguinte. E ver que a sua menina é que era a sua urgência, não a liquidez do mundo lá fora, que não preenche vazio nenhum. Ah, isso deve ter sido perturbador demais pra você, a ponto de colocar um cerco tão grande entre nós; mais do que medo de ser feliz, medo de se viciar nessa felicidade. Eu fico inconformada porque parece que todo o meu esforço, aquela constante marcha sobre meu próprio orgulho, foi em vão - e você se arrastando por cima do seu só agora, justo agora! Esse satélite não gira mais ao seu redor, cortei todos nossos nós, desfiz os laços, me libertei. Amém.
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