Acho que eu ainda sou a única pessoa que consegue me arruinar de verdade. E embora isso possa ser algum tipo de covardia ou de autossabotagem, talvez também não seja lá uma coisa tão ruim, veja bem. Não falo como se fosse motivo de orgulho, como um talento ou um dom, mas não posso deixar que isso seja visto como penitência. Antes que alguém possa me atingir, eu consigo fazer pior - me fecho pro mundo e só eu sei o que acontece aqui dentro. E, olha, é também uma escolha e, de certa forma, algum poder. Infelizmente, nem tudo é tão simples. Não é porque eu posso escolher quem volta comigo pra casa - ou não volta, que eu também escolho quem entra no meu coração. Mas eu ainda sou a pessoa mais corajosa que eu tenho na minha vida, e eu sei da sorte que eu tenho. Ainda sou eu que pego na minha própria mão e me arrisco sorrindo: "vamos, vai mais um pouquinho que você consegue". E eu sempre consigo. "Corre mais um quilômetro, pedala mais um pouquinho, mas não fica aqui parada." E talvez eu não corra mais com a intenção de me encontrar por aí, sincero equívoco, mas pela intrínseca e simples necessidade de não me sentir presa. Talvez algum momento eu decida ficar. Talvez alguma hora eu me sinta à vontade ou confiante o suficiente pra descansar a cabeça e fechar os olhos, em vez de apertar mais forte os sapatos e o passo e esse monte de sentimento que mal cabe de uma vez no peito. Talvez alguma hora eu suma com os tênis de corrida e me encaixe num edredom numa tarde chuvosa, assistindo uma série que eu nem goste tanto assim, do lado de uma companhia que é absolutamente tudo que eu procurava - e não sabia. Serendipia, o sonho de todo mundo. Talvez um dia eu esteja pronta pra descobrir o que isso significa. Talvez eu já saiba. Já percebi que não existe resposta certa. Enquanto isso, eu vou mais um pouquinho, que algo me diz que um dia eu me encontro. E, quem sabe, um dia eu te encontro também.