Conheço o teu jogo, sou vacinada contra a tua raça e, de quebra, não aceito papel de prêmio de consolação - aí é difícil, mulher com amor próprio? Hoje, danço a noite toda, sem precisar amar ninguém, sem precisar ligar no dia seguinte, porque também é escolha minha. Mas hoje minha coragem balança no mesmo ritmo que meus pés, uma bossa nova querendo ser samba, um chorinho que é quase um fado. Os ombros doem, as pernas quase cedem, mas a música não me deixa parar. Por teimosia ou sensatez, insisto em não recostar por mais um tempo.
Se quer saber, acho até que esse aperto no estômago não tem nada a ver com as abdominais de mais cedo ou com os copos entornados, mas mesmo assim me recuso a acreditar no que quer dizer de verdade. Meu riso ainda tá entalado na garganta, junto com o álcool que ainda não subiu, e ficar consciente demais me dá um estalo: não caio nessa de intenções nulas, ter sido tudo por acaso. Eu não via o fim, do começo, mas isso não quer dizer que ele já não estava nos planos, não é? Sem parar de dançar, ergo o copo, me enfio um pouco mais na multidão, os pés timidamente abrindo caminho à frente. Me diz, quanta coragem cabe numa desistência? E será que rola um samba dessa nossa existência?
A noite vai ser longa, mas meu copo está cheio.
