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Verseau

A noite foi fria demais. Cê me desculpa, eu não sabia pra onde ir. As luzes já estavam apagadas, mas eu entrei mesmo assim, me enfiei no teu cobertor e lá fiquei, mesmo sozinha. Teu céu de estrelas não brilhava, mas eu aproveitei o silêncio e o cheiro reconfortante dos lençóis, e confesso que até me senti em casa. É nessas horas que a gente percebe, lá no fundo, que não foi feito pra ficar sozinho, pra ser só. 
Logo o céu lá fora se acenderia e eu precisaria ir embora; doeu perceber que eu não queria nadinha sair dali. Fui enfim, mas com uma vontade louca de ficar, com um desejo enorme de puxar as cortinas e me aconchegar na cama mais um pouco, de esperar tua volta e contar o que me havia do lado de cá. De ouvir teu riso de novo e uma ou outra história do outro lado do mundo, uns desabafos, umas confissões, uma vontade enorme de qualquer tempo com você. Mas num impulso de horror, num reflexo de irreciprocidade, eu corri tanto, mesmo sem chão nenhum, até rasgar as beiras de mim. Corri pra longe até que cheguei bem aqui, exatamente aqui de novo, contigo. Meu dilema continua, enfim. 
Eu não sei se você vale a pena, mas eu sei que eu valho, por mim. Sei também que a gente foge de fazer decisões e depois chama o resultado da nossa omissão de "destino", na maior cara de pau. Mas eu não vou mais ser omissa. Essa é a minha decisão. Eu vou decidir por mim. E por eu valer a pena, aqui eu me arrisco.

Do outro lado do mundo

Acho que no fundo você sabe. Eu não desistiria a toa, não desisti nem quando você disse com todas as letras que era encrenca e que ia me machucar. Não liguei e não porque sou blindada - longe disso, ainda mais pra quem chora em comerciais de carro, mas porque não consegui enxergar nas suas palavras aquilo que as suas ações diziam. Estava em disjunção, sabe? Então eu fiquei. Queria entender. Dei outras opções: não precisava ficar na cama, estava determinada a aceitar um lugar no sofá. Mas sentei na soleira e esperei a madrugada toda. Aguentei o frio que veio e engoli o medo com o resto de coragem que me sobrava. Eu te ouvia mexendo na fechadura algumas vezes, mas aquela porta não se abriu. E depois de algum tempo assim eu finalmente entendi que não veria teu interior tão cedo. Talvez o problema fosse eu, talvez o mau tempo, talvez até algo no teu passado. Mas no meio de tanta dúvida, decidi que não cabia mais nenhuma. Me agarrei à minha única certeza e voltei pra casa com as sobras do meu amor próprio, um souvenir do meu último recurso. Foi um caminho longo, segurando a respiração a cada passo, engolindo a derrota latente e ainda lutando para manter a cabeça erguida em meio à frustração de uma simples porta que nunca se abriu. Um sofá que nunca me deu abrigo. Por teimosia ou imaturidade, eu não soube a hora de dar as costas e precisei abortar a aproximação. Bobeira, eu sei. Mas por medo ou por desinteresse, quem perdeu foi você. O tudo que poderia ter sido, mas não foi. E agora, com o sol subindo do outro lado do mundo, eu enxergo isso.

Cada par de palavras

Mas não dá certo. Quase nunca dá certo, querer virar pro lado e dormir. Como se de repente eu pudesse esquecer o que acabou de acontecer. Como se desse pra deletar as marcas que você deixa em mim a cada par de palavras. Você nem sabe, mas eu fico pensando em todas essas coisas, as que você disse e as que eu deixei de dizer. Pensando que eu não vou cometer os mesmos erros que os outros me viram fazer, jogando todos os relacionamentos no buraco com gosto. Eu não vou falar de ex. Não vou te comparar - em voz alta, juro. Não vai ter espaço pra ironia nas nossas discussões; não, porque eu quando fico irritada, falo na cara, sem rodeios, sem dar voltinha, sem precisar dar aquela risadinha sarcástica de canto. É grosseria mesmo, intrínseca, mas é o que eu gosto de chamar de "amor rude". É a verdade sem seda. Mas talvez você nunca saiba disso tudo e talvez nem conheça esse lado meu, porque eu crio meus ensaios de discurso, mil e uma palavras, mas acabo me medindo tanto, achando que vou ocupar teu espaço, que não sobra mais que duas pra mim. Queria dizer que... Boa noite. Tudo bem. Acontece, né. E aí o espaço que eu te dou me deixa sem nada, me deixa apertada dentro de mim, sem ter pra onde correr, sem saída de como agir, me deixa presa, sufocada - coisa que eu nunca achei que fosse atribuir a você. E eu fico com essas palavrinhas em dobro, minúsculas pra tamanha necessidade de fala, de expressão. Sei que se eu quisesse falar todas elas de uma vez, ia assustar. E mulher nenhuma quer ser a descontrolada, a instável, a desestabilizada, seja lá o nome que for. Todas nós aprendemos da pior forma possível, perdendo incontáveis potenciais amores, que essa mania de ser tão peito-aberto, de dar a cara pra bater e se arriscar, não costuma ser a melhor opção. Eu não quero mais. Não quero mais colocar o coração à prova e voltar com ele estraçalhado, ensanguentado. Mas também não vai funcionar simplesmente apagar a luz e dormir, quando seu rosto ainda paira no meu olhar. Entende? Não quando cada par de palavras tuas me faz sonhar mais com os olhos abertos do que fechados. Mas um par de palavras nunca vai ser o suficiente. Então faz um favor, que eu tô pedindo uma última vez, não fica tão quieto, que isso não tá certo.

Você, vinho. O resto, água

Você é daquele tipo que me deixa a mil de questões e zero em respostas. E eu só queria te perguntar, talvez até sem gentileza nenhuma, com meu jeitinho ríspido do qual aliás você já nem deve lembrar, quem você pensa que é. Quem você acha que parece quando anda por aí de cabeça erguida, de mãos dadas com qualquer uma que for - porque não importa a coadjuvante -, como se você fosse vinho e eu água? E todo o resto, água. Diz, o que foi que passou pela sua cabeça quando você deu as costas pra todos que sempre estiveram aqui por você? Explica, porque eu nunca vou entender sozinha. Não, não entra na minha cabeça como é possível ser apagada tão rapidamente, num flash, sem avisos, nem adeus. Me diz como é fazer as malas e correr de madrugada, apagar as memórias instantaneamente, esquecer uma vida toda, que eu quero me assustar o suficiente pra nunca ter coragem de fazer o mesmo. Porque olha, você sabe, eu to acostumada com partidas, acenos tímidos, saudades intensas mesmo e consigo lidar muito bem, juro. Essa não é a questão. Só não faz sentido em uma partida caber tantos adeus. Não doeu esquecer de tudo, perder tantas lembranças? Não machuca olhar pra trás e pensar que aquele campo - concordo, nem sempre florido - nunca mais vai estar lá pra você, e que foi você quem destruiu a ponte de volta pra ele? Tem certeza que você não apagou pedaços importantes de você mesmo quando passou essa borracha tão grande no que ficou pra trás? Porque, e eu pensei sobre isso, não deve ter sido fácil. Não pode ter sido. Mas, pensando bem, nem explica, que não quero entrar nessa mesma noia que você. Deixa pra lá, eu não quero entender, vai que pega.

Quatro linhas ou nada

O problema é que, na minha cabeça, eu não devia ter que te falar isso. Entende? Eu não devia ter que ser a pessoa a colocar todas as cartas na mesa. Até porque quanto mais eu penso, menos certeza tenho se tô fazendo a coisa certa. Você chegou com uma confiança que eu nunca tinha visto de perto, me deixando tão livre que vai ver por isso eu me vi tão presa a você. E aí eu comecei a achar isso maluco, ainda mais pra mim, que nunca fui de sequer pensar na mesma pessoa por tanto tempo. Foi novidade, sabe? E deu medo, de quem sabe depois precisar e não poder. Então eu bolei mil planos pra me distrair e parar de pensar em você, precisava ver se sentia minha falta... Então você veio, todo dia. Você conseguiu; não me deixou te esquecer - não que eu por um segundo quisesse. E mais uma vez, lá fui eu ensaiar os sumiços, e me lembrar dos motivos. Por quê? Por que falar com você ficou pesado. É difícil querer - tanto, e não poder falar o quanto. O ser humano não tinha que ter inventado esse monte de leis sociais, mas inventou. E falar a verdade vai assustar, vai te fazer sair correndo. Por isso eu pego o celular e me permito digitar quatro linhas. Não gosto desse jogo, não gosto de ter que seguir essa brincadeira, mas pra quem é como eu, a vida se encarrega de ensinar que não é você quem faz as regras. E se você não aceita o que ela diz, cartão vermelho, aí já era, você é expulso. Então eu coloco na cabeça que a única saída é esquecer você, me afastar dessa confusão que meu coração, fraco, coitado, nunca tinha vivido antes. Tento lembrar quantas vezes você pareceu demonstrar o menor desinteresse. Repito mentalmente umas mil vezes essas palavras na frente do espelho até achar que aquela menina do reflexo se convenceu. Mas você sabe que o meu defeito é não conseguir enganar nem a mim mesma, mesmo com todos os ensaios do mundo. Que eu não aguento de saudade, que eu não entendo o que acontece comigo quando falo com você. Que eu queria que seus sinais tivessem sido mais claros - pra ter certeza se não to de novo fazendo besteira, dando tiro no escuro, tão a minha cara. Que eu queria essa sensação boa que você me dá, - meu Deus - todo santo dia. Que na verdade eu não consigo te esquecer, e a mais cruel verdade de todas, é que eu nem quero. Você sabe, não sabe? E mais uma vez, aquelas quatro linhas vão ficar só pra mim. Egoísmo que só se compara a você, me mandando a primeira mensagem do dia, sempre a primeira pessoa que eu penso quando acordo.

E só os loucos sabem

Eu sempre fui muito decidida, nunca deixei que ninguém me ditasse o que pensar, como agir, como ser. Mas aí veio você com aquele bom dia e todas as minhas esperanças de começar o dia sem pensar em você foram de novo por água abaixo. Mas também eu já to mais que mal acostumada, agora não tem mais jeito, já espero a mensagem todo santo dia. Quando ela não vem, acontece o que aconteceu hoje. E hoje eu já acordei com uma dor de cabeça insuportável, daquelas que eu nunca tenho, mas quando tenho me faz pedir misericórdia. E aí que lidar com duas dores já seria demais até pra mim. E eu te chamei. Um minuto até chegar sua resposta, sempre tranquila, como você. Me perguntei se você sabia o turbilhão que passava por mim naquele momento, as frequentes dúvidas sobre o que você sentia. Você, a pessoa mais X do mundo pra mim. O que é que eu fui fazer? Eu não tinha assunto - nunca tive - e não sabia o que dizer em seguida, mas você arriscou umas palavras. E de novo a menina decidida teve que assistir, no caso satisfeita, enquanto alguém corrigia a situação. Convivo com as dúvidas e, pra não perder a cabeça, escrevo. Não envio nada porque sei que assusta saber demais, mas mesmo assim escrevo. Uma vez eu vi por aí que o ruim da saudade é a pessoa nunca saber o espaço que ocupa no seu peito. Mas o contrário também é verdade, não é? Todos os espaços vazios entre nós não me dizem se um desses é meu. Dessa vez o silêncio, que eu adorava: meu maior sinal de liberdade, é meu maior inimigo, mais até do que eu, que vivia sabotando minha própria alegria. Então faz um favor, não fica quieto, não deixa esse silêncio engolir a gente. Porque eu nunca fiquei sem que me pedissem. E se eu toda hora penso em ir, ensaio um sumiço, arrisco desaparecer, não é necessariamente por vontade. Não é jogo. É medo de ficar sem ninguém pedir. Porque se eu fosse embora, desse chance a um novo alguém, o que você faria? Você também teria saudade?

A primeira

Ele sempre teve esse sorriso debochado, esse jeito de olhar como se te desvendasse por completo no primeiro instante - não pense que é só com você! Esse beijo de metanfetamina que desnorteia por completo também sempre esteve lá, mas aprender a lidar com ele é outra história. Eu poderia até ensinar, mas quando ele chegar de madrugada, com a desculpa mais eloquente do mundo e aquela cara de inocência, todos seus esforços irão por água abaixo. Eu sei que ele é complicado, não nego. A confiança que ele tem é outra coisa que destrói qualquer fortaleza que você pense que tenha, e esse temperamento que vem em ondas irregulares também, mas essa história não é sobre ele. É sobre mim. Me perdi entre tantos entretantos que quase não cheguei aqui. Eu confiava tanto em todo mundo, principalmente nele, que não sobrava quase nada pra mim. Ele chegou roubando tudo, mas aquele sorriso - lembra?, foi o suficiente pra me fazer entregar todos os meus pertences na mão dele como se por vontade própria. O coração, a confiança, eu toda. E quem é que vai discutir com alguém cega de amor? Principalmente comigo, sempre tão bocuda, mas que finalmente tava aprendendo a ceder. E justamente pra pessoa errada. A cada sorriso que eu perdia, ele se fortalecia. Não sei, tem gente que funciona assim, só somando o que há de bom dos outros em si mesmo, roubando amor alheio. E quem é que algum dia vai parar esse cara? Eu não fui a primeira, e você não vai ser a última.

Engarrafada

Três palavras aqui...
Mas não aquelas 

Outras duas por lá
Tampouco as outras

Palavras que eu não ouvi
Que eu não disse
Tantas no meio do caminho

Caí
Aos tropeços 
[algumas perdi

E todas emaranhadas
Encadeadas e afogadas

Como (em alto mar)
a esmo
náufragas cartas 

O amor não tem tempo


Espera! Fica aí. Não fala nada. Prometo que vou falar bem rápido, como quando se tira um band-aid, e não vai doer nada. É que toda essa atenção me sufoca. Me desculpa, mas é verdade. Olha, faz assim, escuta tudo, que eu juro que no fim você vai entender. Eu sei que é estranho, que eu fujo do padrão, mas assim assusta. Sei que eu sou complicada, mas confia em mim. O problema é eu não saber lidar com tanto carinho. Não cabe em mim, entende? Vivi tanto tempo tão rasa que qualquer carinho transborda, é demais. Parece que desacostumei a ter um lugar pra descansar a cabeça, alguém pra fazer um carinho de vez em quando. Desacostumei, só isso. Sei que a gente pode e vai dar super certo, mas não correndo desse jeito. Especialmente comigo, que mal sei lidar com as ligações, com as mensagens, com a preocupação, com o interesse. É como se uma parte minha ficasse se coçando pra sair correndo, enquanto a outra está louca pra ficar e ver até onde dá pra chegar. Afinal, o que você ia querer com alguém tão fora do padrão como eu? Alguém que nem sabe mais como amar, com o intrínseco pavor de cair em tentação. Vai ver só esqueci como é, como funciona esse tal de gostar. Então não vem com pressa, chega de mansinho, tô pedindo. Liga às vezes, finge que me esquece noutras, me mostra pouco a pouco como é que as coisas andam. Aparece de surpresa num dia, pra no outro dar aquela vontade de te ver de novo. Mas não corre, seja paciente. Deixa florescer devagar, e vai regando... Todo dia. Não atropela, por favor, que quem sabe amor não sabe tempo. Fica tranquilo, que meu amor não tem pressa. Espera!...

Sobre a autodestruição, o medo, e o gostar.

Essa vai ser minha última confissão, meu grito de socorro. O último aviso de chance de fogo antes que a artilharia seja pesada. Porque vai rolar fogo, e eu não vou olhar para trás quando tudo for pelos ares. Pode até passar pela sua cabeça por que é que eu estou pedindo ajuda, se eu mesma tô acendendo o isqueiro para destruir tudo de uma vez. Entendo a sua confusão.

Só quero que você me salve de mim mesma.

É muito complicado de dizer e eu sinceramente tento ter consciência de que você pode acabar entendendo menos ainda, mas eu preciso tentar. Se eu tô pedindo, é porque eu tenho noção disso. Mas o medo me vence toda vez. Se dizem que é pra aprender a conviver com o medo, eu aprendi bem demais. Deixei a sala de estar e meu quarto todinhos pra ele. E provavelmente a cozinha também, porque até a fome eu perdi. Faz algum sentido, não faz? Metaforicamente, pelo menos.

É quase como se eu estivesse com a faca na mão dizendo "Ei! Venha me impedir de fazer isso, seu idiota!". Eu sei o que estou fazendo, mas por que é tão importante que você note? É que gostar de você me lembra exatamente a sensação de quando eu perdia o controle do tratorzinho amarelo de brinquedo. O que aliás, eu descobri depois que é a mesma sensação de quando se pilota um veículo de verdade e se perde o controle sobre ele.

Então, é, gostar de alguém (você) me dá a mesma sensação de perder o controle de um veículo em alta velocidade. Porque a situação é quase a mesma, se for ver bem. Eu perdi o controle e não tenho nenhuma pista se você no mínimo liga de o carro bater e tudo ir pelos ares. É uma bomba relógio, você sabe, e isso (nós) poderia acabar a qualquer segundo. Mas eu continuo acelerando até sair da pista e, quem sabe, capotar. Porque alguma parte ínfima dentro de mim resiste bravamente, agarrada à crença de que isso pode valer a pena, de que nós vamos passar pela curva. Porque por algum motivo muito insano, eu só quero que você reaja.

Porque de alguma maneira muito maluca e que talvez só faça sentido em outra dimensão, o que eu mais quero é que seja você quem me olhe nos olhos e me faça parar. Que ponha as mãos sobre as minhas no volante e me diga pra respirar fundo, que vai ficar tudo bem.

Gente Grande

Pensei, mesmo sem nunca ter pensado muito sobre o assunto, que a maturidade viria natural e eventualmente, tão devagar que eu só poderia notar depois que já fosse outra. Não achei - e posso afirmar mesmo sem ter ponderado isso, porque sei que se me perguntassem, eu discordaria - que seria tão rápido a eu me ver mudar, passar a me trancar dentro de mim, lidar com meus próprios problemas, em vez de colocá-los em um pedestal e metralhá-los a todos que se aproximassem.
Fiquei assustada de ver que as mudanças chegaram tão quieta e rapidamente e logo fixaram moradia, me deixando completamente sem rumo, a calcular freneticamente todos os passos que eu dava - porque agora eu sabia como qualquer erro poderia ser fatal. Ou talvez fosse assim que a dramatização tivesse sido passada pra mim.
Corri de mim muitas vezes, entrando no que chamam de depressão - ou, pra mim, introspecção - porque em inúmeras chances, eu errei, e não conseguia ver onde e ser tão errada sempre me frustrou. Sentir a incapacidade sempre me debilitou demais. É engraçado, não é? Porque eu não era incapaz, só tinha medo do desconhecido.
O desconhecido nunca trouxe nada que alguém saberia descrever, e por razões óbvias, nem nunca deixou que as pessoas pisassem com firmeza no chão. De onde eu assistia, era como pisar em gelo fino, num lago recentemente congelado. Podia dar tudo perfeitamente certo ou irreparavelmente errado.
Só que eu não corri mais. Essa mudança louca, quando menos esperei, me fez enfrentar todos os meus medos antes mesmo que eu me desse conta e pisar com segurança naquele gelo fino, armada apenas de fé e da desculpa de que só queria ver no que ia dar.
Porque era assim que eu via os adultos fazerem.

Se você perguntasse como estão as coisas

Talvez tudo ficasse mais fácil se parassem de me perguntar sobre você, ou mais ainda, se começassem a controlar os olhares de pena quando veem que eu mesma não sei responder direito o que aconteceu. Não sei, mesmo, e às vezes acredito que nem você sabe. De um dia pro outro, o seu sorriso se desfez, o seu toque pareceu menos disposto e a sua risada, mais comedida. Suas respostas vinham espaçadas, como se realmente fosse preciso muito tempo para responder perguntas tão simples quanto as que eu fazia. Entendi, eventualmente, que você evitava falar sobre a parte complicada de nós, aquela que nenhum dos dois sabia como por em palavras, ou talvez algum de nós só não tivesse interesse em ter o trabalho de explicitar. Evitava assumir como não era confiável, ou relembrar de como desistiu de mim em tempo recorde. Evitava, e só. Foi de repente. Cortou todos os laços antes que eu me desse conta, virou as costas e correu. Veloz como um tiro. Partiu tão rápido que não tive tempo de colocar nossas fotos na sua mala. Porque se é para ir embora, no mínimo tivesse a decência de levar tudo, me deixar zerada, pronta pra outra. Foi triste ver como eu fiquei de olhos fechados por tanto tempo, tão iludida naquela tranquilidade querida, mas instável. E você sabia disso, mas preferiu o silêncio, que era melhor para você. Entendo, ninguém gosta de assumir os próprios defeitos. Mas gosto das fotos porque tenho certeza que elas não vão mudar, mesmo quando as pessoas nela, vão. Pode deixar que as fotos eu guardo.

Da transição ninguém fala

Passei a última semana confinada com meus pensamentos. Dentro da minha cabeça tudo pareceu entrar em conflito, como se estivesse acontecendo algo muito mais importante do que eu jamais previsse, e por mais que eu quisesse prestar atenção no que meus amigos falavam enquanto jantávamos ou nos filmes a que assisti, não adiantou muito o esforço. O motivo de tanta dispersão foi uma frase dita levianamente, numa dessas ruas que a gente pega por engano.

Comecei a pensar em todos os tipos de transições pelas quais passamos pela nossa vida, mas que não nos damos conta. O crescimento, já que só percebemos quando estamos com quase vinte anos, aí paramos, olhamos para trás e pensamos em como crescemos rápido. Lemos os livros de história, sobre como os fatos se dividem em 4000 a.C, 900 a.C, mas poucos se dão conta de que ninguém chegou, fincou uma bandeira e declarou o fim do período neolítico.

Fim de namoro, esquecer alguém, iniciar outro namoro. Uma nova amizade. Tantas coisas que são ditas como se fossem equações matemáticas, simples de resolver, mas que na verdade são um processo, cheio de pequenos detalhes que podem dar errado ou absurdamente certo a qualquer segundo.

Quantas e quantas vezes não lhe disseram para conhecer alguém novo, mas acabou que ninguém realmente te ensinou como passar pelo processo? Ninguém sentou de frente para você e resolveu te passar a receita, até porque ninguém aprendeu. Assim como processos de início de um emprego novo, escrever um livro, aprender uma atividade nova, conhecer uma nova banda. Entre descobrir a banda e se tornar fã, ninguém fala. Aquele processo de ir atrás, conhecer, errar e decorar.

O processo de transição é bem trabalhoso, e muitas vezes nem percebemos que estamos nele, porque, aliás, a chance é de estarmos o tempo todo em não um, mas vários processos de transição. Isso é evoluir, é mudar, mas nunca acontece tão rápido quanto achamos que é. Mas é o que dizem, o importante é mudar com destreza, não com velocidade.

Por que com você seria diferente?

Hoje, passando pela casa da minha mãe, notei que ela resolveu se livrar das tralhas. Ela vive reclamando de como minha vó guarda eletrodomésticos antigos, panelas antigas, móveis antigos e não se desfaz de nada, mas aí eu percebi que ela faz o mesmo. Não foi com espanto, não ainda, que olhei para a minha vida, pois sei que sou o oposto delas. Uau, mas do que eu estou falando? Se sou tão sã e oposta, por que com você seria diferente? Desde minha adolescência, nunca hesitei em me livrar de cadernos sem páginas em branco, esmaltes que estavam estragando, sapatos já menores que meu número, roupas velhas, porque é assim a vida, precisamos nos livrar de tudo que parou de nos fornecer benefícios e começou a ocupar espaço inútil. Foi assim que eu aprendi e pensei desde cedo. Temos que tirar o que não funciona mais pra dar lugar à coisas melhores ainda. Mas se eu sou tão diferente assim, por que eu ainda não consegui tirar você da minha vida?

Dias de ausência

Será que você se arrepende? Será que olha pra trás, lembra de mim, e ainda mais, se sente culpado pelas coisas que fez? Você veio, se esforçou pra conseguir um espaço na minha vida. Fez que fez até conseguir. E eu, que nem ligava pra nada, comecei a ir atrás, comecei a sentir falta. Foi como mágica pra desencantar da noite para o dia. Comecei a sentir um aperto aqui, no peito, culpa da sua ausência. Então, se era pra desistir, por que se esforçou tanto? Se matou pra me conseguir e no segundo que me viu ser sua, deu as costas. A pior parte é não ter sido só uma vez. E quando você voltar, o que eu vou fazer? Porque até agora, a única certeza que eu tenho é que você sempre volta. Mas eu tô cansada de ser seu porto seguro, seu colo quando você cansa de se iludir com essa vida boêmia. Você vem, bagunça tudo aqui e vai embora porque sente falta da sua vida louca e inconstante. Desde então, tenho uma rotina pros seus dias de ausência. Acordo acreditando por um minuto que te esqueci, e só por isso, já vejo que foi um engano. Num ciclo ininterrupto de dias, algum perfume, risada, uma peça de roupa ou mesmo uma lembrança insiste em voltar à tona e, sério, não importa quantas vezes eu tente apagá-las, tudo consegue me lembrar de você, de alguma forma. Mas olha só, enquanto eu gastava meu verbo, aqui, já se foi de novo. Então faz assim, vem logo dar um jeito nessa bagunça ou fica de uma vez por aí.

Acredite em nós

Desculpa por não saber o que dizer. A insegurança - ou algum sentimento que não sei definir- construiu muros em volta do meu coração, e apesar da imensa vontade de fazer dar certo, não sei o caminho para derrubá-los. Portanto, quando você diz palavras maravilhosas e eu respondo apenas com um sorriso, saiba que eu valorizo esse momento e, eu também tenho muito o que dizer, mas a paixão me confunde e eu não consigo expressar. Eu planejo um futuro para nós, mesmo lotada de dúvida e desvairamento, pretendo entregar-te todo o amor que nunca ninguém possuiu. Peço-te apenas paciência, a melhor parte está por vir. 

Dinamite

Queria entender de onde vem essa angústia irreparável que parece não ter  fim, que tira em um segundo todo o sentido que eu levo meses pra dar de volta à minha vida. Queria saber por que isso ainda tem tanto poder sobre mim, se eu mesma já jurei de pés juntos que não sentia mais nada, que aquela era a última vez. Pelo jeito não era. Quero, e preciso, entender por que você faz isso. Por que motivo me engana, me faz pensar que dessa vez vai dar tudo certo, mas no último segundo dá pra trás. Você fica brincando de escolher amores, mas comigo não é assim. Eu escolhi você, então se eu sou mesmo especial, me escolhe logo também. Mostra pra mim que eu também tenho valor pra você. Para de brincar e de me enrolar. Para de me confundir.  Tô confusa ao ponto de essas palavras ficarem presas na minha garganta e eu ser obrigada a escrever, se quiser me dar algum alívio. Tô procurando por um lugar pra descansar minha cabeça, sem precisar me preocupar com a hora de ir embora, então por que você não aproveita e descansa comigo? Para de correr porque você já sabe que só tá correndo em círculos, e sempre acaba voltando aqui, pra mim. Então, por que não fica de uma vez? Queria saber por que você faz tão bem, mas me deixa tão mal. Por que isso, por que aquilo. Por quê? 

Amanhã, quem sabe?

Talvez você esteja certo, mesmo. E talvez você não esteja tão errado de partir. Deu pra perceber que eu mudei, não foi? Foi depois que ele saiu da minha vida, que fiquei assim, então só pode ter sido culpa dele. E de todos os outros que vieram antes. Por que você simplesmente não aceita o fato que eu cresci e comecei a enxergar melhor as coisas? Pode dizer, perdi a inocência. Mas também já perdi tanta coisa, que perder a inocência até me foi um ganho. Sou tão cheia de dúvidas, que nem sei como você conseguiu ficar tanto tempo aqui. Viu só que loucura? E, sabe, sei que ninguém consegue viver sozinho, mas não é contraditório que seja melhor ficar só do que mal acompanhado? Foi isso o que aconteceu. Perdi minha autenticidade, meu poder de decisão. Cansei. Desisti de tudo, e, desculpe, até de você, que tanto esperou por mim. Hoje, não sei. Tanto faz. Sei lá. Amanhã, quem sabe?

E se?



Pensando bem, eu teria esperado o quanto fosse necessário, se ao menos você tivesse pedido. Mas tem algumas coisas na vida que nós nunca vamos entender, não é? Quer dizer, tentar entendê-las só nos traz mais confusão e nos deixa inconformados à toa, já que não vamos poder mudar nada, de qualquer jeito. Mas será que, se de repente, o amor nos tivesse encontrado antes... Estaríamos no mesmo lugar que estamos hoje? Ainda é cedo pra falar de tentar de novo, ou já é tarde demais pra pensar em um "nós"? Ainda temos tempo? O que você faria se eu dissesse aquelas palavras?

A verdadeira "eu"



Fico desconfiada, se tá tudo dando certo. É como se alguma coisa tivesse tão errada, e tão na minha cara, que esse fosse o motivo de eu não enxergar. É como estar o tempo todo com medo demais de me arriscar, enquanto estou louca pra que alguém me faça ter coragem de tentar. É como querer demais me apaixonar, mas querer tanto, que tenho medo. Medo disso acabar me escravizando. Medo do poder que o amor tem. É meio como se eu tivesse tentado, mas desistido um pouco cedo demais. Eu sei, é ambíguo demais. Nem todo mundo entende. Talvez eu seja intensa, talvez eu seja bipolar ou talvez eu esteja perdida, mesmo. Mas não se sinta na obrigação de me salvar, talvez eu não tenha mais salvação.