Você, vinho. O resto, água
Você é daquele tipo que me deixa a mil de questões e zero em respostas. E eu só queria te perguntar, talvez até sem gentileza nenhuma, com meu jeitinho ríspido do qual aliás você já nem deve lembrar, quem você pensa que é. Quem você acha que parece quando anda por aí de cabeça erguida, de mãos dadas com qualquer uma que for - porque não importa a coadjuvante -, como se você fosse vinho e eu água? E todo o resto, água. Diz, o que foi que passou pela sua cabeça quando você deu as costas pra todos que sempre estiveram aqui por você? Explica, porque eu nunca vou entender sozinha. Não, não entra na minha cabeça como é possível ser apagada tão rapidamente, num flash, sem avisos, nem adeus. Me diz como é fazer as malas e correr de madrugada, apagar as memórias instantaneamente, esquecer uma vida toda, que eu quero me assustar o suficiente pra nunca ter coragem de fazer o mesmo. Porque olha, você sabe, eu to acostumada com partidas, acenos tímidos, saudades intensas mesmo e consigo lidar muito bem, juro. Essa não é a questão. Só não faz sentido em uma partida caber tantos adeus. Não doeu esquecer de tudo, perder tantas lembranças? Não machuca olhar pra trás e pensar que aquele campo - concordo, nem sempre florido - nunca mais vai estar lá pra você, e que foi você quem destruiu a ponte de volta pra ele? Tem certeza que você não apagou pedaços importantes de você mesmo quando passou essa borracha tão grande no que ficou pra trás? Porque, e eu pensei sobre isso, não deve ter sido fácil. Não pode ter sido. Mas, pensando bem, nem explica, que não quero entrar nessa mesma noia que você. Deixa pra lá, eu não quero entender, vai que pega.
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