Incansável

Mas não era o que eu queria dizer. Quer dizer, eu nem sabia se devia! Joguei fora centenas de folhas, amassadas, lotando a lixeira até o topo. Nenhuma palavra dizia o que eu precisava. Eu via o tempo correndo contra a minha vontade, sem permissão, e eu empunhando a caneta em vão. Queria tanto uma prosa, palavras bem explicadas, nada que desse espaço pra uma segunda interpretação, mas a minha cabeça só montava esquemas intricados de poemas, declarações inusitadas. Queria qualquer coisa prática, direta e nada bagunçada, mas olhando assim por cima, só encontrava metáforas. Precisava ir a fundo, mas como cavar dentro de mim? Como fazer isso no tão pouco tempo que tivemos olhando um para o outro? Aquele expresso não ia durar mais do que cinco minutos e as folhas amassadas se amontoavam na minha cabeça. Enxerguei seus olhos como dois faróis me examinando uma última vez, clareando aquilo que eu lá no fundo me esqueci de como expressar. Você saiu da cafeteria, mas não da memória. Eu não tinha coragem de sujar minhas unhas por qualquer um além de mim, cavar uma terra de ninguém em busca de algo que talvez nem estivessse lá. Entende? E se todo esse romance só estivesse borbulhando na superfície, sem nada que pudesse sustentá-lo? Eu já havia aprendido a interpretar os finais felizes de acordo com a necessidade dos envolvidos. E foi aí que eu entendi. Dessa vez, eu é que não ia ficar por perto esperando ou criando desfecho, ou então - pior ainda, o contrário - criando pontes de isopor em cima de puro magma. A minha vida não cabia dentro da sua e você não se encaixava mais na minha, percebi. Só pra variar, eu decidi parar de me debater como criança em busca de resposta, procurando pistas pra enigma sem solução. O café, na mesa, esfriou. Eu me levantei logo depois. Você foi embora, mas eu também não fiquei pra contar a história. E não foi perda, nem livramento, não dessa vez. Pra nenhum dos dois. Mas, sinceramente, foi o final mais bonito dentre todos, meu preferido. Embora o café e a conversa tivessem esfriado, ainda tínhamos calor. E meu coração, incansável coração, continua aquecido.

Teu mundo

entre um frio de tremer os ossos
e um calor de ferver a pele
in-con-tro-lo-patível
de encontro à alma da gente

comme tout dans la vie
volta a bruma, volta o frio
come stai, amore mio?
sobra a sombra, sem o riso

o que digo, só suplico
não é assim, a voz explica
diz, há coisas sobre a vida
que são pouco mais que findas

incontrolopatível
este encontro incompatível
me encontro em seu abismo

abdico desse mundo
e mais digo, aqui não fico
nem mais um segundo