Quando o nome dele é paixão

Não, eu não te perdôo. Nem vem com essa carinha de charme que você sabe que contorna todas as encrencas em que você se mete, que eu não vou perdoar. Não aceito você vindo com esse sorriso digno de príncipe pra cima de mim, essa voz rouca que faz qualquer uma ter inveja até da moça da cafeteria que te escuta todo santo dia pedindo um expresso. Tá completamente errado! Não, ninguém mandou você ter toda essa beleza, por dentro e por fora, esse carinho insuportável que você sabe que atinge todos os meros mortais ao seu redor - e pior, expor ele em cada oportunidade. É sério, e essa cara de sono? Não tem vergonha de chegar e me desestruturar quase por completo? Também não tem perdão se você tá fazendo mais uma das suas maravilhosas boas ações e por isso não pode aparecer. É sério, assim não dá. Entendeu? Quem sabe se você de repente arrumar um defeitozinho aqui, ou uma coisinha ali, qualquer coisa que deixe você menos ai-meu-senhor-ele-é-perfeito, daí podemos negociar. Qualquer coisa que faça eu pelo menos ter um motivo real pra ficar um tiquinho brava com você. Antes disso? É esforço demais ter que simplesmente te olhar e me manter de pé ao mesmo tempo, e embora eu aguente o tranco, tenho certeza que as moças que caíram ali, atrás de você, nesse campo de batalha, concordam comigo. E quando você vem e ocupa a minha cabeça o dia todo? Maior falta de respeito! Não, não te perdôo por se impregnar em cada poro do meu corpo, inclusive tá pouco, pode continuar. Aproveita e gruda nos meus horários também. Viu, vê se aparece, que eu tô com saudade.

Declaração

A diferença é que essas palavras serão mais leves, embora carreguem o fardo que mais me pesa ultimamente. Vai ver é que eu aprendi a ligar aquele filtro, sabe, que você sempre dizia que desligava nas horas mais importantes. Ou vai ver foi a música, que me ensinou a dizer tudo o que eu penso sem arrancar um fio de cabelo do próximo, sem nem arranhar a superfície do descontrole, numa cadência sincera. E isso é bom, eu acho. A mudança é boa. Ruim é o igual, monótono, como aquele gif que fica em loop eterno, e por mais longo que seja, eu já sei o final. 
É que as vezes acontece isso com a minha vida. O filme que eu já vi passa e repassa na minha frente e eu me vejo de braços cruzados, esperando minha chance de dizer alguma coisa, esperando um espacinho em branco para colocar meu desabafo, mas ele nunca vem e eu sempre fico frustrada. Hoje, eu pauso esse vídeo e me jogo na frente do retroprojetor. Hoje eu que mando na minha história, e isso faz bem. Faz bem como você nunca imaginaria. E, agora em posse, eu declaro proibições. Os joguinhos acabaram, chega de rodeios e de jogos de persuasão, manipulação e também de andar em círculos. Chega de indecisão, dúvida, mistério e toda essa confusão! Pra lá com o desrespeito, falta de amor próprio. Acabou o medo também. O único medo que sobrou foi o de não tentar, lembra? Eu lembro bem. E como não podia faltar a parte irônica de mim, tenho que proibir a falta de algumas coisas boas. Esse é o fim da falta de carinho. Esse país chamado vida é meu, e nele só as minhas regras prevalecem. Eu não deixo mais ninguém mentir. Ninguém mais pode faltar com amor (aquele fraternal mesmo) aqui. Só que é preciso dialogar, é lei, e de agora em diante... Tá proibido não ser sincero. Dessa vez com calma eu dou o play, e a vida pode continuar.

Se ele quer ir...

Agora é diferente. Dessa vez eu não vou ficar me martirizando pelo que podia ter sido e pelo que não foi. Agora eu consigo enxergar a verdade que está bem ao meu lado, que eu não estava procurando alguém, ou alguma coisa quando quis me arriscar. Que eu só estive esse tempo todo em busca de mim mesma, da voz que sem querer eu vinha sufocando, em função de agradar a quem quer que fosse - menos eu. E que ele não tinha nada a ver com isso. Claro que em um pedaço ou outro do caminho eu me confundi, tropecei e troquei os pés pelas mãos, mas eu também aprendi a me levantar. E quem nos conhece melhor do que nós mesmos? E ele teve a chance, só que não quis. E se tem uma coisa que eu aprendi, enquanto tentava entender a mim mesma, é que não adianta travar uma batalha por quem não quer ficar. Sempre foi assim comigo e não é diferente com os outros. Se for pra lutar junto, eu sou a primeira a me dispor, definir estratégias e por o coração à prova mesmo, mas se a história for um tiquinho diferente, eu não vou. A batalha não é minha, não vou por o peito na linha de frente só por questão de coragem. Porque eu tenho, e sei disso, tô muito mais minha, mas não preciso ficar mostrando isso pra ninguém. E não adianta, já questionei Deus e toda entidade que há nesse mundo, por que é que é sempre assim, por que eu continuo só ganhando experiência, mas nunca consigo um momentinho de paz, um minuto de sossego, pra colocar as armas de lado e descansar. E o que tem de diferente agora? Tem eu, que dessa vez não vou me matar por um indeciso qualquer, que vou recostar em mim mesma, nas amigas que sempre estiveram aqui e não vou mais brigar por alguém que não quer ficar. E hoje sou senhora da minha razão. Se não aconteceu, é porque a outra parte não quis. Eu estava aqui, eu tentei, matei todos os "e se", tô de consciência e cara limpa. E o bonito que se cuide, que eu não sou de desistir, mas quando desisto, é pra valer. Quem precisa de sorte agora é ele.

Inocência

Mas se outra vez eu visse nós duas, sentadas naquele sofá velho da sua casa, segredaria a mim mesma que na verdade, nós é que não sabíamos de nada. Que a vida ainda ia ensinar muito, separando a nós duas, e que o melhor seria não lutar contra a correnteza, como se pudéssemos controlar algum - qualquer - fator dela. Aliás, melhor ainda, seria aprender desde cedo que é a vida quem (m)anda, mas a única parada é a morte. Esta, mais imprevisível ainda.

Mas a vida, essa enfadonha piada, dançava sozinha sobre o carpete, enquanto conversávamos sobre tudo o que tínhamos tanta certeza. Sobre planos que nunca saíram do lápis e daquele caderno - agora empoeirado - de oitava série. Falávamos!

Não sabíamos fazer amizade, não sabíamos ter amizade, não sabíamos sequer ser amizade. 

E nem disso sabíamos. 

Engarrafada

Três palavras aqui...
Mas não aquelas 

Outras duas por lá
Tampouco as outras

Palavras que eu não ouvi
Que eu não disse
Tantas no meio do caminho

Caí
Aos tropeços 
[algumas perdi

E todas emaranhadas
Encadeadas e afogadas

Como (em alto mar)
a esmo
náufragas cartas