Minha receita de amor

Vem cá, senta do meu lado. Fica à vontade, a casa é sua. Meu coração é largo, nele cabem muitos amores fraternais. Vai ver é por isso que eu sou paciente, e vou te falar tudo bem devagar. É que eu não funciono assim, com o amor espalhado pela cozinha, como se alguém tivesse deixado o liquidificador ligado sem a tampa. Meu amor romântico é só um. Tão concentrado que é quase concreto. E mais complicado de se fazer do que um bolo. Não é só colocar o fermento, que ele vai e cresce, coisa prática que nem um fluxograma. Não é tão simples, e essa parte que assusta, mas eu garanto que também não é impossível. Vai com calma, que você também vai precisar de uma pitada de paciência. Pra começar, digamos que a receita é adaptável. É, isso é uma coisa boa. Não tem muito tato? Dá pra compensar com umas desculpas bem dadas, com aquelas demonstrações que às vezes nem são gigantescas, mas que representam muito. Não precisa de um carro de som, que às vezes uma flor de papel significa mais do que a jóia escolhida por uma vendedora desconhecida. No mais, é o básico mesmo. Umas boas pitadas de coragem, cuidar pra não exagerar no desapego, não sufocar demais, bastante cuidado na hora de expor ao calor, não deixar na geladeira... Meu amor é assim. Às vezes muda, às vezes o apego é tanto que eu mesma não me aguento, às vezes falta e eu não sei nem o quê... É que, me desculpa, mas de amor mesmo eu não entendo. Se fosse fraternal, eu podia escrever um livro, mas amor, mesmo? Só receitinhas, dessas a olho, que de vez em quando dão super certo e eu aproveito tanto que acabam rapidinho, mas noutras vezes não dão e eu tenho que desistir. Mas digo uma coisa. Amor mesmo, desses românticos que a gente vê em filme, que andam pela praia de mãos dadas, ainda tá pra nascer quem vai me fazer viver um. Mas eu sou paciente, eu sei que o amor um dia vem, e enquanto isso eu vou tentando.

A vida toda

Tá, mas agora me fala a verdade. É sério que não tem nada errado com você? Eu não tô reclamando, longe de mim, mas você não tem mesmo uns trinta ex-amores na manga, que vão pular em cima de mim na primeira oportunidade? E atrás de você, tão pouca bagagem? Onde é que está sua bagagem, você aprendeu tão bem assim a guardar? É que eu não tô vendo uma muralha em volta do seu coração, e isso não é muito comum por aqui. Me explica, como funciona essa coisa de ser tão feliz, de sorrir o tempo todo, que eu quero também. Me explica que brilho é esse no seu olhar quando a gente conversa, e como é que você não precisa de esforço nenhum pra me embalar e jogar meus medos fora, um a um. E essa confiança, de onde vem? Esse passo calmo, essa tranquilidade, que há tanto eu desconhecia... E como é que você não veio correndo, invadindo meu espaço, se jogando janela adentro? Até parece que você sabe a hora de bater na porta e pedir educadamente só um lugarzinho pra sentar, na sala mesmo. Dá licença, obrigado. E eu fico tão sem chão quanto nas nuvens, porque ninguém nunca foi assim comigo. Meus amores sempre foram um tornado, e foi assim que eu conheci amor. Chegavam sem avisar, deixavam o sofá sem estofado e levavam até minha porta na saída, sem nem olhar pra trás. E depois cabia a mim trancar tudo às pressas! Mas você não, você veio com jeito, chegou de mansinho e me deu vontade de convidar pra entrar. E isso tanto me intriga quanto me agita. Entra, vem aqui! O que mais você pode fazer? Quer tomar uma xícara, ficar para o jantar?  Me conta de você, me diz por que é que - minha nossa - eu nunca conheci alguém assim antes. Tão diferente de todos os outros. O tipo de visita que a gente enrola pra deixar ir embora, e só agora eu entendo o valor de alguém assim. Então vou te pedir o óbvio, faz um esforço, fica mais uma noite, uma semana, ou a vida toda.

Coração anárquico

Mas se era assim que funcionava, como é que eu - justo eu - ia querer mudar alguma coisa? Como é que eu ia chegar com as minhas leis em um território onde tudo já funcionava tão bem sem poder algum se sobrepondo a outro? Porque a partir do momento em que eu colocasse as rédeas sobre nós, o tiro sairia pela culatra e em vez de conseguir a direção, acabaríamos perdendo o controle. Percebe a ironia? A partir do momento em que eu colocasse o rótulo que fosse em cima de "nós", automaticamente teríamos uma data de validade. É como se, enquanto nada fosse dito e vivêssemos naquele estado de acordo tácito, nada pudesse "nos" terminar. Enquanto não existíssemos de forma oficial, absolutamente nada poderia se voltar contra nós. Afinal, não há como acabar com um "nós" que, ao menos teoricamente, não existe. Por outro lado, a anarquia sempre funcionou muito bem sem oligarquia alguma. E nós, na plenitude de nossos corações anárquicos, nunca aceitaríamos lei alguma. Donos de nós mesmos. Mas ambivalentes. Loucos por um pedaço de pluralidade, mas mergulhados demais na própria individualidade. O que tínhamos de confusão e indecisão, igualmente havia em juventude e coragem. Queríamos ser pra sempre assim, eu lembro bem, mas nada dura pra sempre, e essa regra a vida aplica a todos. A solução era justo essa, e eu nunca vi. Devia ter burlado o sistema, ido contra os clichês, batido de frente com todas as ironias e resgatado o único bem que nunca foi meu, mesmo sempre tendo sido. Eu devia ter falado, então, para deixar assim, não sermos nada.

O amor não tem tempo


Espera! Fica aí. Não fala nada. Prometo que vou falar bem rápido, como quando se tira um band-aid, e não vai doer nada. É que toda essa atenção me sufoca. Me desculpa, mas é verdade. Olha, faz assim, escuta tudo, que eu juro que no fim você vai entender. Eu sei que é estranho, que eu fujo do padrão, mas assim assusta. Sei que eu sou complicada, mas confia em mim. O problema é eu não saber lidar com tanto carinho. Não cabe em mim, entende? Vivi tanto tempo tão rasa que qualquer carinho transborda, é demais. Parece que desacostumei a ter um lugar pra descansar a cabeça, alguém pra fazer um carinho de vez em quando. Desacostumei, só isso. Sei que a gente pode e vai dar super certo, mas não correndo desse jeito. Especialmente comigo, que mal sei lidar com as ligações, com as mensagens, com a preocupação, com o interesse. É como se uma parte minha ficasse se coçando pra sair correndo, enquanto a outra está louca pra ficar e ver até onde dá pra chegar. Afinal, o que você ia querer com alguém tão fora do padrão como eu? Alguém que nem sabe mais como amar, com o intrínseco pavor de cair em tentação. Vai ver só esqueci como é, como funciona esse tal de gostar. Então não vem com pressa, chega de mansinho, tô pedindo. Liga às vezes, finge que me esquece noutras, me mostra pouco a pouco como é que as coisas andam. Aparece de surpresa num dia, pra no outro dar aquela vontade de te ver de novo. Mas não corre, seja paciente. Deixa florescer devagar, e vai regando... Todo dia. Não atropela, por favor, que quem sabe amor não sabe tempo. Fica tranquilo, que meu amor não tem pressa. Espera!...

Pra não desistir de mim

É que eu cansei. E eu só vim comunicar que eu desisto. É isso mesmo. Depois de tanto tempo tentando, dando meu sangue pra conseguir aprovação no que quer que fosse, eu finalmente me dei conta de que o melhor é desistir. Então fica aqui meu desabafo. Desisto de ser a menina perfeita, de me entupir de maquiagem só pra esconder as olheiras depois de uma noite mal dormida. Desisto de medir minha alegria, sorrindo sem mostrar os dentes, e de não dar aquela gargalhada alta que eu queria só por não ser "coisa de menina que se preze". Desisto de escolher os vestidos sempre abaixo do joelho, ou os decotes da blusa sempre três dedos acima da linha do sutiã, porque independente do que eu escolha, vão falar algo a respeito. Desisto de passar a noite em claro tentando lidar com críticas pesadas, julgamentos injustos e de procurar formas de continuar provando meu valor. Desisto de tentar abraçar o mundo e esquecer de mim no processo. Desisto! Desisto de chorar por quem não me quer. Desisto de ter medo. Desisto da timidez. Desisto, também, de calcular minhas palavras, de não falar palavrão quando nada mais vai expressar o ódio no meu peito ou a puta vontade que eu tenho de dizer o quanto amo alguém. Mas também desisto de amores doentios. Desisto de ser quem eu não sou. Desisto de ser infeliz. Desisto de sofrer. Desisto, dessa vez, porque é o melhor a se fazer. Desisto dos erros, que é pra não desistir de mim.