A primeira segunda vez

Sempre parece a primeira vez.

O próximo amor vai parecer o primeiro. Vai me fazer questionar todos os que já (se) foram, se foram.
A poesia que eu ler amanhã vai parecer a primeira a realmente me expressar.
O gelato depois do inverno vai parecer o primeiro, depois que quase esqueci o gosto.
O chocolate quente depois do verão, no meio do outono. 
Até um reencontro de duas almas perdidas que precisavam se encontrar antes.
A sensação de orgulho ao conquistar um objetivo estabelecido há tanto tempo.
A falta de ar depois de correr mais do que estava acostumada.
Mesmo qualquer doença me parece a primeira, e eu vejo o fim a cada vez.
A alegria de ver a árvore de natal montada, ainda que eu siga o mesmo ritual todos os anos. 
O vento frio inexplicavelmente gélido na estação de ski, mesmo depois de dois dias de aula.
Até aquele álbum antigo que eu conheço todas as palavras, na vitrola, trazendo tudo novo de novo.
O abraço na minha melhor amiga depois de tanto tempo sem se ver.
Acordar e levantar da cama cedinho de manhã...

Sempre parece a primeira vez. Porque, se pensar bem, meio que é. 

Carta pra mim I

Acho que eu ainda sou a única pessoa que consegue me arruinar de verdade. E embora isso possa ser algum tipo de covardia ou de autossabotagem, talvez também não seja lá uma coisa tão ruim, veja bem. Não falo como se fosse motivo de orgulho, como um talento ou um dom, mas não posso deixar que isso seja visto como penitência. Antes que alguém possa me atingir, eu consigo fazer pior - me fecho pro mundo e só eu sei o que acontece aqui dentro. E, olha, é também uma escolha e, de certa forma, algum poder. Infelizmente, nem tudo é tão simples. Não é porque eu posso escolher quem volta comigo pra casa - ou não volta, que eu também escolho quem entra no meu coração. Mas eu ainda sou a pessoa mais corajosa que eu tenho na minha vida, e eu sei da sorte que eu tenho. Ainda sou eu que pego na minha própria mão e me arrisco sorrindo: "vamos, vai mais um pouquinho que você consegue". E eu sempre consigo. "Corre mais um quilômetro, pedala mais um pouquinho, mas não fica aqui parada." E talvez eu não corra mais com a intenção de me encontrar por aí, sincero equívoco, mas pela intrínseca e simples necessidade de não me sentir presa. Talvez algum momento eu decida ficar. Talvez alguma hora eu me sinta à vontade ou confiante o suficiente pra descansar a cabeça e fechar os olhos, em vez de apertar mais forte os sapatos e o passo e esse monte de sentimento que mal cabe de uma vez no peito. Talvez alguma hora eu suma com os tênis de corrida e me encaixe num edredom numa tarde chuvosa, assistindo uma série que eu nem goste tanto assim, do lado de uma companhia que é absolutamente tudo que eu procurava - e não sabia. Serendipia, o sonho de todo mundo. Talvez um dia eu esteja pronta pra descobrir o que isso significa. Talvez eu já saiba. Já percebi que não existe resposta certa. Enquanto isso, eu vou mais um pouquinho, que algo me diz que um dia eu me encontro. E, quem sabe, um dia eu te encontro também.

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Ela fechou a porta às pressas, como se as lágrimas não pudessem ter a gentileza de esperar alguns segundos até darem as caras. Sabia que havia acabado, mas insistia em retroceder cada momento. Eu sei porque eu já fiz o mesmo, já velejei esse mar salgado como a gota. Ela vai lembrar que o príncipe não veio de cavalo branco, mas num carro. E na verdade era azul como uma bela manhã de primavera. Ele brincou com a bolsa dela, com seus drinks coloridos, com ela mesma... Mas essa parte a própria paixão dá um jeito de ignorar, defesa automática. Ele não deixou ela em casa à meia noite e o sol já havia raiado há muito tempo - mas também, aquela história já tava bem batida. Agora a única coisa que restara de batida, era seu coração. Ela quase podia ver a esperança se debatendo no chão, agonizando por uma chance de algo que já nasceu destinado ao fim. Mas a vida real tem a sua própria magia, que foge àquela superficial dos contos de fadas: a vida real é palpável e interativa como sonho algum jamais poderia ser. E ela era verdadeira assim, como a vida em si, sensata, real. Recostou-se e repensou, deixando as lágrimas de lado por alguns minutos. Antes de acusar perda para algum dos lados, deu-se conta de que isso não importava. Às vezes há perda dos dois lados e, às vezes... Às vezes é só a vida agindo, em seu eterno curso de sempre saber o que fazer.