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Akai Ito

Olha só, eu to exausta. Esse pôr do sol me lembra você e eu finalmente tenho um lugar pra descansar a cabeça. Ainda que me doa que esse lugar não seja teu colo, de quando em quando, eu sei que sou eu pra ti, e você pra mim, e isso me basta. E pensar que eu tive tanto medo de esquecer, das memórias me escaparem, do cheiro me faltar; teve tudo lá, o tempo todo. Até mais do que o saudável, se possível. As memórias mais vívidas que uma pintura neon, como se estivessem acontecendo de novo, diante dos meus olhos. Às vezes parece que encontro desfechos diferentes, mas volto sempre ao mesmo lugar. O início é sempre você. E tem algum tempo, tem sido assim, e eu fui deixando sem pensar demais. Provavelmente porque eu também não queria enxergar. Mas eu olho pra quem tá no meu colo, e eu penso no começo, sem conseguir ver de novo o primeiro dia. O primeiro dia mudou, e eu nem vi. Está tudo bem. Ainda está. Mas agora eu me questiono, é sobre o fim.

Falta

Me diz, quantos beijos pr'eu me enganar direitinho que não me falta mais teu gosto? Teu passo, teu riso, teu eu?
Quantos olhares pra me distrair da falta do teu? E quantos mais pra acreditar que eu já te esqueci, completamente, por um segundo que seja? Eu penso nisso o dia todo. Quanto tempo até eu perceber que eu sempre fui assim, um terra meio ar, e você um ar meio água? - um equilíbrio tão bonito quanto o mar tocando a areia - e o céu ali no fundo, pra gente contemplar. E quanto mais eu penso, menos eu sei; mais eu vejo como a gente foge à regra. E como me encanta fugir à regra com você. Eu tendo a gostar um pouco demais de liberdade, e você, verseau, tem uma queda pelo romance. Quanto tempo pra gente perceber que tá tudo bem assim? Astrologia nenhuma regra a gente, por mais que tente. Quando é amor verdadeiro que tá em jogo, todas as regras mudam - melhor, não há nenhuma regra. Quanto tempo falta? Cê me desculpa, eu sou ansiosa.
E, vem cá, quantos dias pra gente se ver de novo?

Faísca

Meu santo é forte, minha fé um pilar
Mas é tão cruel imaginar que é só isso que me há
Que eu dei adeus de cabeça erguida
sem saber que fim ia se dar,
sabendo o diabo pelo qual me ia passar
mas amor também é renúncia
não se perde o que não se pertence
É que afinal, acreditar é o primeiro passo para realizar

Talvez me seja a teimosia
mas se essa é a melhor coisa que há na vida
por que então a gente não deveria?
E por que não teimar com a própria teimosia e fazer arriscar? Fazer por onde - dá suas voltas
se desenrola, até que não haja mais nós
apenas laços
envolvendo nós

Faz por onde! Seja paciente
Talvez não no meu tempo, mas o tempo dirá.

Porque se há uma chance, uma pequena chance
de você ser - e eu também - num mesmo momento
então eu estarei lá, estarei aqui
A faísca reacenderá

Fogo de amor é inextinto, cê sabe
que enquanto num coração ainda se vive, ainda há, ali, morada
e se faz até sem merecer
lar sempre vai ser o coração do outro

A gente sabe o caminho de casa
a luz de casa é estrela-guia e as portas esperam destrancadas
o fogo resiste mesmo à noite
sempre aceso, teu retorno

E a vida toda não se perde, a lareira jamais se apagará
Uma faísca é tudo que é preciso
Talvez não no meu tempo, mas o tempo virá
E um dia, será.

Até que eu encontre, uma última vez, você

Meu mal é acreditar demais. 
Acredito muito em destino, mas também acredito em timing, aquelas chances dadas no momento certo, nas oportunidades que aparecem com um propósito, e não por pura sorte. 

Nunca gostei dessa mania de culpar os outros pelos nossos erros, ou de abraçar os erros dos outros e tentar consertá-los. É preciso muita maturidade pra aceitar o peso das nossas ações, mais ainda pra entender as ações dos outros, as intenções, as consequências. E respeitá-los por isso.

Como quando ouvi aquela vez que a vida ainda nos juntaria pra valer, que eu só precisava ter paciência. De início, a ideia é tentadora, acreditar que só é preciso esperar e então, magicamente as coisas aconteceriam. Voltaríamos e todo o tempo perdido serviria apenas para se arrepender de não termos passado-o juntos. A voz era convidativa, mas eventualmente caí na real. Tá tudo errado. Ninguém entendeu nada.

Eu poderia começar falando como cada pessoa tem seu tempo, e como é possivel, sim, ser a pessoa certa na hora errada — aparecer num momento em que a pessoa está instável, ou emocionalmente indisponível. Tudo isso pra ver se, quem sabe, a gente não tira da cabeça essa ideia romântica e até idealista de que, se for pessoa certa, ela vai obrigatoriamente encontrar um jeito de estar com você, de batalhar todos os seus demônios, seus problemas pessoais e aparecer na tua porta com um buquê de flores numa noite aleatória no meio da semana. Porque você é especial, e ela é a pessoa certa. Oras!

Então nós precisamos entender o que acontece do outro lado da história, de quem fala coisas como "nós ainda vamos nos encontrar" e "a vida dá voltas, espero que a gente ainda se encontre". Não significa que a sua viagem para o Caribe com as amigas precise ser desmarcada, ou que você deva esperar três anos em casa até que ele caia na real, ou então que ela vai acordar algum dia e se sentir diferente e voltar quando você estiver em um intercâmbio na Áustria. É exatamente o oposto. 

Antes que todo o conto de fadas possa acontecer, pode ser que os dois precisem crescer. A vida age de maneiras estranhas, e enquanto ela precisa se conhecer, ele precisa conhecer o mundo, mudar, melhorar. Óbvio que há casais que simplesmente clicam desde os 14 anos e se casam sem nunca terem conhecido nada diferente disso, e milagrosamente não têm dúvidas quanto ao parceiro escolhido na adolescência - mas eles são a exceção. Mas e o resto do mundo? As pessoas tem dúvidas, mudam de ideia, de humor conforme as estações. O resto do mundo somos eu e você, e por mais que viver junto também seja incrível, quem pode ser culpado por querer dar seus próprios passos, errar sozinho um pouco? Se nós não podemos mudar o outro, o que sobra é mudar a nós mesmos, ou morrer na mesmice. Por que não aproveitar essa chance, se amar, descobrir seus gostos e hobbies, se apaixonar por qualquer coisa que não seja alguém, se arriscar na vida, e aprender a gratidão?

Já ouvi uma vez que o que a vida quer da gente é coragem. É preciso coragem para acreditar que às vezes, você pode ser a pessoa certa no momento errado, e que a vida pode te levar a reencontrar o amor da sua vida na sua viagem à trabalho no nordeste ou nas férias de verão em Ibiza. O mundo dá voltas, e o tempo todo a gente (se) encontra e desencontra. É preciso coragem pra ter fé que o que tiver de ser, será; pra ter esperança, pra acreditar que vai dar pé, e mergulhar na vida. E quem sabe, depois dos desencontros, haja um último encontro, certeiro, quase um arco-íris no finalzinho do horizonte. Que haja, então!

Até que eu encontre, uma última vez, você, vou querer viver, não vou largar mão das minhas experiências, meus sonhos, de mim. E que sorte seria, depois das andanças, do topo das minhas conquistas, te encontrar. Talvez seja pela última vez, você.

Palavras perdidas

Foi numa dessas epifanias de pura gratidão com a vida e com meu aprendizado nela que eu voltei a pensar em você. Não que por algum santo dia eu tenha parado, mas dessa vez foi diferente. Eu tenho ensaiado mil e uma maneiras de te dizer o que eu sinto e que ficou engasgado, e hoje mesmo fui perceber que, independente do quanto eu goste de você - ou da ideia de quem você se tornou pra mim, o que eu mais preciso agora é que você saiba disso. Só isso. O meu aniversário tá virando a esquina e eu não suportaria fechar um ciclo pensando que tanto do que podia ter sido dito, não foi. Eu não suportaria deixar pra trás tantas verdades que, por mais que eu odeie admitir, talvez nem mudem nada pra você, mas que pra mim, estão sendo um método de tortura escolhida a dedo por um assassino de sangue frio. Desce, vem aqui fora, me escuta cinco minutos. Eu não vou trazer as mil músicas que pensei em mandar, nem vou te culpar pelo que passou, porque sei que nós dois tivemos culpa nessa. Vim só, sem precisar mais de nada. Sem artifícios mundanos, só as palavras mais honestas que pude encontrar. Vim me desculpar pela minha parte nessa bagunça, mas também avisar que estou trabalhando nisso; estou crescendo e corrigindo meus erros, entre essa nossa distância. Acho até que eu era perfeita pra você, mas o problema foi que quando você não viu isso, eu também não vi. Eu sempre fui tão honesta em tudo, até nos sentimentos, a ponto de ser quase transparente. Quando fui amor, fui por completo. Mas quando eu vi você, acabei te mostrando meu lado mais amargo, ingrato e seco. Que irônico, né? Uma parte minha viu aquele brilho especial em você, mas a outra teve um medo insano de te perder. Pensei que fosse o jeito certo de lidar contigo, mas agora eu enxergo como estava errada. Você nao precisa de alguém frio, você precisa de amor. E nem vim arriscar outra chance, decidi deixar isso com o destino, com Deus, com qualquer força lá fora, mais forte que eu, que se compadeça da minha situação. Tô com as roupas de corrida não para provar minha paixão por esportes - finalmente, algo além de você -, mas porque de alguma forma os meus pés sempre correm até você. A vida parece sempre me levar pro seu lugar. Eu vim vestida, mas as minhas palavras não podiam estar mais nuas, tão puras. Você é a minha lembrança mais vívida de uma paixão, e a que mais deixou dúvidas e espaços em branco. E hoje, escuta que simples, mesmo que as palavras não sejam as mais certas, eu só queria preenchê-los.

Monocromia

O mais engraçado é que, por um bom tempo, até, eu achei que gostasse dessa vidinha inconstante, montanha-russa invertida, cheia de novidades e nada que continuasse no lugar. Achei, do mesmo jeito que você passa a vida toda acreditando que odeia comer melão, mas quando experimenta, não consegue entender como é que por tanto tempo você viveu sem isso. Demorei tanto pra entender qual era o problema; por que é que, se eu gostava tanto daquelas noites cheias de drinks e amizades coloridas, elas me deixavam monocromática no fim. Acho que no fundo eu temia era que alguém como você aparecesse e me mostrasse que a minha vidinha sem sal podia ter muito mais sabor, mais cor e, ironicamente, mais vida. E o medo maior era que, depois de descobrir tudo de tão maravilhoso que existe por aí, o dono dessa mudança decidisse ir embora. E então, o que eu faria? Entende? Ninguém gosta de admitir isso, como se alguém fosse o culpado pela alegria ou pela tristeza de outra pessoa, mas acontece, sim. Da mesma forma que eu já pude fazer alguém feliz, vários me fizeram feliz - por umas noites, porque nunca deixei durar mais do que isso. Entende a proporção das coisas agora? Achei que eu gostasse da minha vida como estava, achei até que fosse sentir falta quando você apareceu, mas como é possível sentir falta de um passado tão raso, monocromático, depois de conhecer essa explosão de cores? E se me lembro bem, você até gostou de uma pausa na tua vida tão hiper. A gente combina e se equilibra sem nenhum esforço, e hoje eu agradeço por você ver isso, e mais ainda por toda a tua paciência com meu jeito meio torto de gostar; por me mostrar - além de tudo - o quanto ter alguém, ainda nos dias de hoje, é algo especial. 

Pra desmontar tudo

Foi no meu inferno astral que eu te conheci. Naquele momento quando as coisas ruins acontecem com a gente, sabe. E eu ainda achei que você fosse diferente, botei a cara pra bater que você era a calmaria em meio à tempestade. E, pra você ver, te achei tão inofensivo à primeira vista, que deixei entrar, fazer morada, botar teus alicerces enferrujados no lugar dos meus - de pura prata. Pra depois desmontar tudo, assim, meio de qualquer jeito, e se mandar. Eu ainda lembro de você, queria que soubesse disso. Às vezes com raiva, outras nem tanto, às vezes com saudade, outras nem um pouco. Você foi o primeiro a me ensinar tanta coisa, entre o amor e a indiferença. Porque a única coisa que você - apesar de todas as coisas - não foi capaz de me ensinar, foi a odiar alguém como você. Foi no meu inferno astral que eu te conheci, mas pra mim você era a exceção. Aquela época cheia de má sorte e superstição ficou pra trás, junto com você, com as tuas promessas, com as tuas lembranças. Eu olho pras peças desse jogo que eu mesma ajudei a criar as regras, achando que mandava em alguma coisa. Mas olho só mais essa vez, uma última vez pra trás, e fico até feliz de ter me enganado naquele primeiro segundo, porque quando eu olho pra dentro e penso comigo, contente e até orgulhosa, eu sei que não chegaria aqui de nenhuma outra forma. E mesmo assim - mesmo depois de tanta bagunça e tantos enganos - eu agradeço a Deus por cada engano nessa vida nos trazer sabedoria. Hoje eu me despeço de você com alegria, meu bem, porque sei que só passamos por algo ruim quando há algo muito melhor nos esperando em seguida. 

É bom mudar por alguém?

Esse é mais um daqueles questionamentos que me fazem ficar acordada a noite toda, se eu não me esforçar pra mudar de assunto e desligar o cérebro.
Nessa vida, pessoas e pessoas vão tentar te fazer mudar, e nem sempre é pra melhor. Afinal, o que é ser melhor? O cabelo, que bem que podia ser mais curto ou mais claro? Ou então o corpo, por que é que você ainda não tentou emagrecer? Faz tão bem... Mas acho que as mudanças mais intensas, que mais requerem energia, são as internas. Seu jeito de agir, seus gestos, seu romantismo, a atenção que você dá a certos assuntos e que não dá a outros, é tudo parte sua, isso compõe você. E então vem mais uma vez essas pessoas que chegam com uma checklist gigantesca, e muitas vezes, a gente não bate todos os requisitos. Mas a culpa não é nossa. Eu não admito que a culpa seja minha por não bater com a lista de alguém, ou por não caber numa agenda apertadíssima. Cansei de gente que chega de carro cheio e me culpa por não me fazer caber no porta-malas.
Mas também tem aqueles tão diferentes da gente, mas de alguma forma tão agradáveis, que a gente se vê querendo mudar. Tirando um pedacinho aqui e ali, pra acrescentar uma atitude diferente, um pensamento novo. Querendo ser melhor pra quem sabe estar no mesmo nível que (a gente vê) essa pessoa, pra quem sabe ser chamada pra sentar no co-piloto. E a gente, ou talvez só eu mesma, quando repara, já virou um quebra-cabeças remontado do avesso, algumas pecinhas até parecendo irreconhecíveis. E nesse jogo de mudar, se encaixar e desmontar, embora às vezes não dê certo e seja preciso voltar à estaca zero, noutras vezes - o que assusta muito mais - a gente percebe que funciona bem melhor assim. E que o avesso pode muito bem ser o lado certo.

Aquele que eu deixei

Queria que ele soubesse os verdadeiros motivos por que eu fui embora. Quer dizer, não é como se eu não pudesse contar, mandar uma mensagem, aparecer num café pra falar um dia desses. Mas entre pensar em dizer e realmente fazer isso, muita coisa aconteceu. Como por exemplo, eu ter percebido o quanto eu gostaria e até teria ficado, se ao menos ele fosse diferente. Mas seria muita injustiça e até maldade pedir uma coisa dessas. Seria pedir demais, eu sei. Além do mais, defendo a ideia que ninguém deve mudar apenas pra agradar outra pessoa, apenas pra se encaixar na lista de alguém. Todos merecem ser aceitos exatamente pelo que são. Eu, por exemplo, me sentiria profundamente ofendida se me pedissem para mudar desde meu cabelo até o jeito de agir, portanto seria hipocrisia demais pedir isso de alguém, não? Então eu decidi não contar. Porque quando você não gosta de uma pessoa como um todo, mas como adjetivos individuais, algumas coisicas que ela faz aqui e ali, talvez você não goste dessa pessoa tanto assim. E por mais difícil que seja admitir, eu posso não ter gostado dele de verdade, nem um pouco, nem naquela faísca inicial - que, pensando bem, não ocorreu. E o mais triste é eu ter demorado tanto tempo assim pra perceber. Então fica meu apelo pro universo, ou qualquer força mais forte que eu que esteja aí fora, me ouvindo, que eu gostaria que ele soubesse que eu sinto muito por ter desaparecido do jeito que o fiz, e que eu sinto muito duas vezes, mas ter ficado mais um pouco teria acabado comigo. Mas que, do fundo do meu coração?, espero que ele continue o mesmo.

O momento em que acabamos

Pensando bem, foi naquele momento que a gente acabou. Não quando nós brigamos, ou quando você veio se desculpar e eu mal quis ouvir, de cabeça quente, sentindo o sangue bombeando a ponto de arranhar minhas veias. Embora naquele dia eu tivesse tentado a todo custo te tirar da minha cabeça, da minha vida e até dos meus contatos, ainda não foi naquele dia. Embora eu tivesse jurado pra Deus e o mundo a partir daquele dia que não lembrava mais nem do seu nome, ainda não foi naquele momento que o "nós" realmente deixou de existir, não pra mim. Também não foi naquele desastroso último beijo às escondidas, ou nas mensagens de texto minguadas, muito menos nos olhares que se tornaram cada vez mais escassos. Eles pinicam a alma até hoje só de lembrar, mas também não foram a última gota. Não, o fim do amor é quando o amor não dói mais. E o seu nem cócegas me faz. E hoje, que engraçado, me peguei pensando em você. Não com saudade dessa vez, nem aquela vontade de pegar o celular e te mandar uma mensagem, perguntando como estão as coisas. Dessa vez, a lembrança veio de mansinho, quase acariciando a memória, sem sacudir nem abalar as estruturas como costumava acontecer. Eu repassava aquela nossa última conversa, depois que você soube de todos meus inúteis esforços pra te esquecer, que eu nunca consegui esconder nem de mim mesma; depois de toda a bagunça que nós construímos e descontruímos. E foi aquela última conversa o fim, mas eu ainda não conseguia ver. Aquele exato segundo em que, quando eu perguntei como estavam as coisas e você respondeu um monissílabo, sem a menor recíproca, foi quando eu vi que não doía mais. Que a sede de contar todas as coisas da minha vida não era mais saciada por você. E pode até ter sido difícil admitir no início, mas passou. E a lembrança tá aí, de prova, atestando em amarelo neon que dessa vez não tem mensagem ou foto sua que cause aquela agulhada no peito, ou um saltinho a mais no coração, e não necessariamente isso significa algo ruim. Não faz mais perder o sono. As borboletas migraram pra outro jardim. Porque não vale nem o rancor, nem a pena. Mas foi amor, sim. Foi amor legítimo e por bastante tempo, mas acabou.

Declaração

A diferença é que essas palavras serão mais leves, embora carreguem o fardo que mais me pesa ultimamente. Vai ver é que eu aprendi a ligar aquele filtro, sabe, que você sempre dizia que desligava nas horas mais importantes. Ou vai ver foi a música, que me ensinou a dizer tudo o que eu penso sem arrancar um fio de cabelo do próximo, sem nem arranhar a superfície do descontrole, numa cadência sincera. E isso é bom, eu acho. A mudança é boa. Ruim é o igual, monótono, como aquele gif que fica em loop eterno, e por mais longo que seja, eu já sei o final. 
É que as vezes acontece isso com a minha vida. O filme que eu já vi passa e repassa na minha frente e eu me vejo de braços cruzados, esperando minha chance de dizer alguma coisa, esperando um espacinho em branco para colocar meu desabafo, mas ele nunca vem e eu sempre fico frustrada. Hoje, eu pauso esse vídeo e me jogo na frente do retroprojetor. Hoje eu que mando na minha história, e isso faz bem. Faz bem como você nunca imaginaria. E, agora em posse, eu declaro proibições. Os joguinhos acabaram, chega de rodeios e de jogos de persuasão, manipulação e também de andar em círculos. Chega de indecisão, dúvida, mistério e toda essa confusão! Pra lá com o desrespeito, falta de amor próprio. Acabou o medo também. O único medo que sobrou foi o de não tentar, lembra? Eu lembro bem. E como não podia faltar a parte irônica de mim, tenho que proibir a falta de algumas coisas boas. Esse é o fim da falta de carinho. Esse país chamado vida é meu, e nele só as minhas regras prevalecem. Eu não deixo mais ninguém mentir. Ninguém mais pode faltar com amor (aquele fraternal mesmo) aqui. Só que é preciso dialogar, é lei, e de agora em diante... Tá proibido não ser sincero. Dessa vez com calma eu dou o play, e a vida pode continuar.

Minha receita de amor

Vem cá, senta do meu lado. Fica à vontade, a casa é sua. Meu coração é largo, nele cabem muitos amores fraternais. Vai ver é por isso que eu sou paciente, e vou te falar tudo bem devagar. É que eu não funciono assim, com o amor espalhado pela cozinha, como se alguém tivesse deixado o liquidificador ligado sem a tampa. Meu amor romântico é só um. Tão concentrado que é quase concreto. E mais complicado de se fazer do que um bolo. Não é só colocar o fermento, que ele vai e cresce, coisa prática que nem um fluxograma. Não é tão simples, e essa parte que assusta, mas eu garanto que também não é impossível. Vai com calma, que você também vai precisar de uma pitada de paciência. Pra começar, digamos que a receita é adaptável. É, isso é uma coisa boa. Não tem muito tato? Dá pra compensar com umas desculpas bem dadas, com aquelas demonstrações que às vezes nem são gigantescas, mas que representam muito. Não precisa de um carro de som, que às vezes uma flor de papel significa mais do que a jóia escolhida por uma vendedora desconhecida. No mais, é o básico mesmo. Umas boas pitadas de coragem, cuidar pra não exagerar no desapego, não sufocar demais, bastante cuidado na hora de expor ao calor, não deixar na geladeira... Meu amor é assim. Às vezes muda, às vezes o apego é tanto que eu mesma não me aguento, às vezes falta e eu não sei nem o quê... É que, me desculpa, mas de amor mesmo eu não entendo. Se fosse fraternal, eu podia escrever um livro, mas amor, mesmo? Só receitinhas, dessas a olho, que de vez em quando dão super certo e eu aproveito tanto que acabam rapidinho, mas noutras vezes não dão e eu tenho que desistir. Mas digo uma coisa. Amor mesmo, desses românticos que a gente vê em filme, que andam pela praia de mãos dadas, ainda tá pra nascer quem vai me fazer viver um. Mas eu sou paciente, eu sei que o amor um dia vem, e enquanto isso eu vou tentando.

A vida toda

Tá, mas agora me fala a verdade. É sério que não tem nada errado com você? Eu não tô reclamando, longe de mim, mas você não tem mesmo uns trinta ex-amores na manga, que vão pular em cima de mim na primeira oportunidade? E atrás de você, tão pouca bagagem? Onde é que está sua bagagem, você aprendeu tão bem assim a guardar? É que eu não tô vendo uma muralha em volta do seu coração, e isso não é muito comum por aqui. Me explica, como funciona essa coisa de ser tão feliz, de sorrir o tempo todo, que eu quero também. Me explica que brilho é esse no seu olhar quando a gente conversa, e como é que você não precisa de esforço nenhum pra me embalar e jogar meus medos fora, um a um. E essa confiança, de onde vem? Esse passo calmo, essa tranquilidade, que há tanto eu desconhecia... E como é que você não veio correndo, invadindo meu espaço, se jogando janela adentro? Até parece que você sabe a hora de bater na porta e pedir educadamente só um lugarzinho pra sentar, na sala mesmo. Dá licença, obrigado. E eu fico tão sem chão quanto nas nuvens, porque ninguém nunca foi assim comigo. Meus amores sempre foram um tornado, e foi assim que eu conheci amor. Chegavam sem avisar, deixavam o sofá sem estofado e levavam até minha porta na saída, sem nem olhar pra trás. E depois cabia a mim trancar tudo às pressas! Mas você não, você veio com jeito, chegou de mansinho e me deu vontade de convidar pra entrar. E isso tanto me intriga quanto me agita. Entra, vem aqui! O que mais você pode fazer? Quer tomar uma xícara, ficar para o jantar?  Me conta de você, me diz por que é que - minha nossa - eu nunca conheci alguém assim antes. Tão diferente de todos os outros. O tipo de visita que a gente enrola pra deixar ir embora, e só agora eu entendo o valor de alguém assim. Então vou te pedir o óbvio, faz um esforço, fica mais uma noite, uma semana, ou a vida toda.

Da transição ninguém fala

Passei a última semana confinada com meus pensamentos. Dentro da minha cabeça tudo pareceu entrar em conflito, como se estivesse acontecendo algo muito mais importante do que eu jamais previsse, e por mais que eu quisesse prestar atenção no que meus amigos falavam enquanto jantávamos ou nos filmes a que assisti, não adiantou muito o esforço. O motivo de tanta dispersão foi uma frase dita levianamente, numa dessas ruas que a gente pega por engano.

Comecei a pensar em todos os tipos de transições pelas quais passamos pela nossa vida, mas que não nos damos conta. O crescimento, já que só percebemos quando estamos com quase vinte anos, aí paramos, olhamos para trás e pensamos em como crescemos rápido. Lemos os livros de história, sobre como os fatos se dividem em 4000 a.C, 900 a.C, mas poucos se dão conta de que ninguém chegou, fincou uma bandeira e declarou o fim do período neolítico.

Fim de namoro, esquecer alguém, iniciar outro namoro. Uma nova amizade. Tantas coisas que são ditas como se fossem equações matemáticas, simples de resolver, mas que na verdade são um processo, cheio de pequenos detalhes que podem dar errado ou absurdamente certo a qualquer segundo.

Quantas e quantas vezes não lhe disseram para conhecer alguém novo, mas acabou que ninguém realmente te ensinou como passar pelo processo? Ninguém sentou de frente para você e resolveu te passar a receita, até porque ninguém aprendeu. Assim como processos de início de um emprego novo, escrever um livro, aprender uma atividade nova, conhecer uma nova banda. Entre descobrir a banda e se tornar fã, ninguém fala. Aquele processo de ir atrás, conhecer, errar e decorar.

O processo de transição é bem trabalhoso, e muitas vezes nem percebemos que estamos nele, porque, aliás, a chance é de estarmos o tempo todo em não um, mas vários processos de transição. Isso é evoluir, é mudar, mas nunca acontece tão rápido quanto achamos que é. Mas é o que dizem, o importante é mudar com destreza, não com velocidade.

Acredite em nós

Desculpa por não saber o que dizer. A insegurança - ou algum sentimento que não sei definir- construiu muros em volta do meu coração, e apesar da imensa vontade de fazer dar certo, não sei o caminho para derrubá-los. Portanto, quando você diz palavras maravilhosas e eu respondo apenas com um sorriso, saiba que eu valorizo esse momento e, eu também tenho muito o que dizer, mas a paixão me confunde e eu não consigo expressar. Eu planejo um futuro para nós, mesmo lotada de dúvida e desvairamento, pretendo entregar-te todo o amor que nunca ninguém possuiu. Peço-te apenas paciência, a melhor parte está por vir. 

Sobre um amor

"A verdade é que eu te amo. Que eu penso em você com a mesma frequência que o meu coração bate. E que a única coisa que eu desejo nesse momento, é você aqui comigo. Mas o destino não cooperou com a gente e acabou fazendo você encontrar outra pessoa e se apaixonar por ela. E cada vez o meu coração dói mais, porque eu percebo que essa pessoa não te merece. Mas eu não posso fazer nada, porque a escolha é sua... E sei lá, quem sabe um dia você perceba que eu estive aqui o tempo todo, bem na sua frente. Nos seus momentos tristes e felizes. Fazendo chuva, ou fazendo sol. Com um sorriso no rosto toda vez que te via, mesmo que estivesse chorando por dentro. E finalmente... Quando esse dia chegar, eu vou fazer valer a pena esse tempo que você teve que esperar por alguém que te entendesse e te amasse de verdade.  E eu te prometo que mesmo que não dure muito, ou que o destino interfira novamente, eu vou sempre precisar de você e sempre te amar. E se um dia um você precisar de ar, eu paro de respirar. Porque, sério.. Eu morreria por você. Eu te amo. Eu te amo tanto que isso está me matando." 
Foi isso o que ele leu, justamente a parte do meu diário que falava sobre ele. Como se todas as outras também não falassem. "Você disse que ia fazer valer a pena", ele me cobrou, tendo em mãos o papel que não me deixaria mentir que fui eu que escrevi tudo aquilo. Respondi imediatamente, o coração saltando pela boca "Mas também disse que o destino poderia interferir mais uma vez" e a última coisa de que me lembro foi dele rebatendo "E quem é esse?" com aquele ar cínico que só ele tem e me beijando em seguida.

Deixar rolar

Às vezes, e digo por experiência própria, o seu melhor não chega a ser bom o suficiente. Se esforçar às vezes, não garante que você alcance o "sim". Não, quando esse "sim" depende de outra pessoa pra acontecer. Acho incrível como é muito mais fácil aceitar um "não" e sair de cabeça baixa de uma seleção de emprego, do que tolerar uma rejeição amorosa. Só que, no caso de um amor, a vida vai provando que não adianta lutar com unhas e dentes por quem não quer ficar. Às vezes, faz bem desistir. Não digo que cansei do amor, até porque acho mágico como as pessoas conseguem se foder, mas ainda assim criar coragem pra amar de novo. Mas, por ora, chega. Não vou procurar amor. Não vou ouvir as vozes na minha cabeça. Não vou ouvir o meu coração. Vou, como me indicaram por muito tempo, e pela primeira vez na vida, "deixar rolar". Se me apaixonei e deu certo, ótimo. Se não deu, é esperar a próxima chance. É isso, chega de complicar o que devia ser simples.



Não mereço, mas preciso.


Eu costumava achar que me contentava com pouco. Mas não. Pensava que era feliz com metade das coisas que fariam a maioria das outras pessoas felizes. Mas errei. A metade só me faz meio feliz. E por que eu não ia querer ser feliz por completo?
Se quiser me amar, vai ter que ser por inteiro. Se quiser ir, não vai poder voltar quando bem entender. Mas, se quiser ficar, prefiro que fique pra sempre. Não é questão de extremos, ou de exageros. Eu posso até não merecer, mas eu preciso das coisas por completo. De sonhos, planos, amores, abraços, beijos e carinhos por completo. Qual a graça de viver pela metade? E de fazer um plano e não cumpri-lo? Não, não quero perder a melhor parte do processo, quero ser feliz por inteiro. Repito, não por merecer, mas por precisar.

Mas a vida é incerta, mesmo.

Dá vontade de largar tudo? Dá. E de desistir? Jogar tudo pro alto e nunca mais olhar pra trás? Dá, sim! Mas nem por isso a gente desiste. Porque no fundo sabemos que o melhor está a apenas um dia ou um segundo à frente. Porque não é desistir que vai nos levar lá, onde quer que o "lá" esteja. Ou com quem quer que seja. Porque, aliás, a desistência acaba com a melhor parte do processo, que é a recompensa. No fundo, sabemos que não desistimos porque lutamos demais por aquilo e é justo que, no mínimo, alcancemos nosso objetivo. Talvez seja por isso que insistimos tanto numa mesma pessoa, num mesmo caminho e nas mesmas ações. Coisas que acabam mais machucando do que nos fazendo bem por um bom tempo. E se no fim valer a pena? Ninguém sabe. Às vezes só o tempo vai poder mostrar. E pra que perder essa chance de ser feliz? Pra que jogar tudo pro alto? Não tem sentido! A vida é assim. E não dá pra desistir. Não dá.

Amanhã, quem sabe?

Talvez você esteja certo, mesmo. E talvez você não esteja tão errado de partir. Deu pra perceber que eu mudei, não foi? Foi depois que ele saiu da minha vida, que fiquei assim, então só pode ter sido culpa dele. E de todos os outros que vieram antes. Por que você simplesmente não aceita o fato que eu cresci e comecei a enxergar melhor as coisas? Pode dizer, perdi a inocência. Mas também já perdi tanta coisa, que perder a inocência até me foi um ganho. Sou tão cheia de dúvidas, que nem sei como você conseguiu ficar tanto tempo aqui. Viu só que loucura? E, sabe, sei que ninguém consegue viver sozinho, mas não é contraditório que seja melhor ficar só do que mal acompanhado? Foi isso o que aconteceu. Perdi minha autenticidade, meu poder de decisão. Cansei. Desisti de tudo, e, desculpe, até de você, que tanto esperou por mim. Hoje, não sei. Tanto faz. Sei lá. Amanhã, quem sabe?