Pra desmontar tudo

Foi no meu inferno astral que eu te conheci. Naquele momento quando as coisas ruins acontecem com a gente, sabe. E eu ainda achei que você fosse diferente, botei a cara pra bater que você era a calmaria em meio à tempestade. E, pra você ver, te achei tão inofensivo à primeira vista, que deixei entrar, fazer morada, botar teus alicerces enferrujados no lugar dos meus - de pura prata. Pra depois desmontar tudo, assim, meio de qualquer jeito, e se mandar. Eu ainda lembro de você, queria que soubesse disso. Às vezes com raiva, outras nem tanto, às vezes com saudade, outras nem um pouco. Você foi o primeiro a me ensinar tanta coisa, entre o amor e a indiferença. Porque a única coisa que você - apesar de todas as coisas - não foi capaz de me ensinar, foi a odiar alguém como você. Foi no meu inferno astral que eu te conheci, mas pra mim você era a exceção. Aquela época cheia de má sorte e superstição ficou pra trás, junto com você, com as tuas promessas, com as tuas lembranças. Eu olho pras peças desse jogo que eu mesma ajudei a criar as regras, achando que mandava em alguma coisa. Mas olho só mais essa vez, uma última vez pra trás, e fico até feliz de ter me enganado naquele primeiro segundo, porque quando eu olho pra dentro e penso comigo, contente e até orgulhosa, eu sei que não chegaria aqui de nenhuma outra forma. E mesmo assim - mesmo depois de tanta bagunça e tantos enganos - eu agradeço a Deus por cada engano nessa vida nos trazer sabedoria. Hoje eu me despeço de você com alegria, meu bem, porque sei que só passamos por algo ruim quando há algo muito melhor nos esperando em seguida. 

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