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Ela fechou a porta às pressas, como se as lágrimas não pudessem ter a gentileza de esperar alguns segundos até darem as caras. Sabia que havia acabado, mas insistia em retroceder cada momento. Eu sei porque eu já fiz o mesmo, já velejei esse mar salgado como a gota. Ela vai lembrar que o príncipe não veio de cavalo branco, mas num carro. E na verdade era azul como uma bela manhã de primavera. Ele brincou com a bolsa dela, com seus drinks coloridos, com ela mesma... Mas essa parte a própria paixão dá um jeito de ignorar, defesa automática. Ele não deixou ela em casa à meia noite e o sol já havia raiado há muito tempo - mas também, aquela história já tava bem batida. Agora a única coisa que restara de batida, era seu coração. Ela quase podia ver a esperança se debatendo no chão, agonizando por uma chance de algo que já nasceu destinado ao fim. Mas a vida real tem a sua própria magia, que foge àquela superficial dos contos de fadas: a vida real é palpável e interativa como sonho algum jamais poderia ser. E ela era verdadeira assim, como a vida em si, sensata, real. Recostou-se e repensou, deixando as lágrimas de lado por alguns minutos. Antes de acusar perda para algum dos lados, deu-se conta de que isso não importava. Às vezes há perda dos dois lados e, às vezes... Às vezes é só a vida agindo, em seu eterno curso de sempre saber o que fazer. 

Grandir

Tem coisa mais bonita que gente bem resolvida? É tão atraente aquela pessoa que sabe o que quer, e o que não quer, e não se trai em nome do que a sociedade acha certo ou não, não acha? Por que é que a gente fica fingindo estar tão bem, quando não tá?
Tem coisa que dá mais orgulho do que gente que não fica bancando a madura, forçando uma distância com quem terminou fisicamente, sendo que o coração ainda não aceitou? Porque não adianta nada fingir que não viu na rua, se quando tá sozinha não sai das redes sociais do indivíduo e nem para de checar o visualizado por último do celular. Acho que, às vezes, o que falta na gente, é admitir que falta certa maturidade - o que, ironicamente, nos tornaria bem maduros - e lidar com nossos problemas da forma mais básica do mundo, encarando-os.
Porque a gente sabe, e todo mundo percebe, essa forçação de barra - esse esforço todo pra parecer que tá bem, só acaba tendo o efeito oposto. De que adianta fingir que tá tudo bem, e continuar stalkeando, seguindo nas redes sociais por um, dois anos depois que terminou? Seguir nos bares que costumavam ir, procurar encontrar em todos os lugares - e quando encontrar, fingir demência. Término saudável pra quem? Deixa o coração se curar, por favor. Deixa a dor bater, e deixa ela passar. Porque vai passar. 
Bom mesmo é quem tem a coragem de sofrer de uma vez, a audácia de chegar e conversar, bater um papo reto, mas resolver superar de uma vez - ser a si mesmo, do que fingir que está bem, fingir ser alguém sem coração em relação a uma pessoa que ocupou um espaço na sua vida por anos. Pessoas assim enxergam que é melhor a mágoa de uns meses bem sofridos, na cara e na coragem, do que continuar sofrendo sem apoio, sozinho - pois, por algum motivo muito sem fundamento, hoje em dia vulgarmente chamado de orgulho, ninguém pode saber.
Será que realmente a gente só vive pra performar nessa vida e enganar os outros? Então, tanto faz o nosso interior, nossa cabeça, nossa saúde? Eu gosto é de quem se entende. De quem se balanceia, se enxerga e se ama. Sofre, mas de cabeça erguida. Tem coisa mais gostosa que alguém bem resolvido, que é chão firme pra gente botar os pés? Que sabe onde dói e em vez de fingir uma paz inumana e irrealizável, admite as fraquezas e busca uma resolução? 
Dá até um arrepio pensar em gente que pega e corre direto pra direção da cura, porque sabe que a solução é correr com elas até gastá-las, em vez de ignorar. Gente bem resolvida é uma coisa linda de se ver. Mas isso não quer dizer que gente bem resolvida não sofre. É preciso ser justa. Gente bem resolvida, madura, dessas que dá gosto e não se encontra em qualquer lugar, também sofre, sente dor e passa perrengue. Ninguém disse que é fácil e a gente nem sempre sabe muito bem pra onde ir, mas só pela coragem de encarar viver e de resolver os problemas, a gente já cresce. Já vale a corrida.

Danse et danse

Você dizia que eu era a única e eu acreditava te ter, um mundinho particular que comportava só nós dois. Agora as noites são cheias de luzes, o copo está sempre cheio, mesmo que de alguma breja barata, e eu danço a noite toda.

Conheço o teu jogo, sou vacinada contra a tua raça e, de quebra, não aceito papel de prêmio de consolação - aí é difícil, mulher com amor próprio? Hoje, danço a noite toda, sem precisar amar ninguém, sem precisar ligar no dia seguinte, porque também é escolha minha. Mas hoje minha coragem balança no mesmo ritmo que meus pés, uma bossa nova querendo ser samba, um chorinho que é quase um fado. Os ombros doem, as pernas quase cedem, mas a música não me deixa parar. Por teimosia ou sensatez, insisto em não recostar por mais um tempo.

Se quer saber, acho até que esse aperto no estômago não tem nada a ver com as abdominais de mais cedo ou com os copos entornados, mas mesmo assim me recuso a acreditar no que quer dizer de verdade. Meu riso ainda tá entalado na garganta, junto com o álcool que ainda não subiu, e ficar consciente demais me dá um estalo: não caio nessa de intenções nulas, ter sido tudo por acaso. Eu não via o fim, do começo, mas isso não quer dizer que ele já não estava nos planos, não é? Sem parar de dançar, ergo o copo, me enfio um pouco mais na multidão, os pés timidamente abrindo caminho à frente. Me diz, quanta coragem cabe numa desistência? E será que rola um samba dessa nossa existência?

A noite vai ser longa, mas meu copo está cheio.

Eu, acima de tudo

Eu encontrei a saída
Eu
Mulher guerreira

Escapei da sua teia
saí correndo numa distração sua

Saí correndo quando você olhava
Me desvencilhei e corri
Eu não olhei pra trás
Fui eu quem cortou as amarras

Foram esses pés que me levaram pra salvação
pra chão seguro
nadei longe do mar aberto

Eu escapei do relacionamento
das correntes
de você, dele
foi ela, fomos nós - nós todas!
Eu.

A força veio de mim, a coragem da Maria, inspiração da Juliana
e a Ana que me disse: vai, amiga, e se cair eu tô aqui.
Mas no fundo, quem correu fui eu.
Fui eu, só eu e ninguém mais. 

Faísca, fogo, amor

Parece que é pela milésima vez que eu to falando que não deu, que não era esse o cara. Minha amiga torce o nariz e pergunta em que ponto eu desisti dessa vez, como se fosse um jogo que vez ou outra eu tenho mais  ou menos progresso no tabuleiro. Mas a verdade é que eu insisti por tanto tempo e contra tantos contratempos, chegar a algum lugar, que fatiguei o coração. To exausta de espremer os sentimentos pra ver se sai um pouquinho de paixão. Nada. E aí eu levanto a bandeira branca, porque pra mim até existe paixão sem amor, mas amor sem paixão? Sem nem um tico de paixão? Sei não. Parece tão bobo, quase um capricho adolescente, mas sem ela eu não consigo continuar em qualquer relacionamento de longo prazo, sem achar que eu to gastando o meu tempo e o do sujeito com um sentimento mascarado de algo a mais do que ele é, mas que nunca vai evoluir. Eu tento, tento e tento até ver que alcancei a escala máxima daquele sentimento. É isso. A dor maior é ficar riscando o coração atrás de uma faísca que nunca vai existir; um brilho que jamais vai dar o toque final na relação, que pensando bem, nesses termos, nem devia existir. Então eu desisto, não hesito. Prefiro começar do zero, me arriscar de novo. Coragem, imprudência, seja o que for. Parece besteira, mas no fundo, eu sei que sem faísca, não tem fogo. E todo mundo sabe o que dizem sobre o amor. 

Do outro lado do mundo

Acho que no fundo você sabe. Eu não desistiria a toa, não desisti nem quando você disse com todas as letras que era encrenca e que ia me machucar. Não liguei e não porque sou blindada - longe disso, ainda mais pra quem chora em comerciais de carro, mas porque não consegui enxergar nas suas palavras aquilo que as suas ações diziam. Estava em disjunção, sabe? Então eu fiquei. Queria entender. Dei outras opções: não precisava ficar na cama, estava determinada a aceitar um lugar no sofá. Mas sentei na soleira e esperei a madrugada toda. Aguentei o frio que veio e engoli o medo com o resto de coragem que me sobrava. Eu te ouvia mexendo na fechadura algumas vezes, mas aquela porta não se abriu. E depois de algum tempo assim eu finalmente entendi que não veria teu interior tão cedo. Talvez o problema fosse eu, talvez o mau tempo, talvez até algo no teu passado. Mas no meio de tanta dúvida, decidi que não cabia mais nenhuma. Me agarrei à minha única certeza e voltei pra casa com as sobras do meu amor próprio, um souvenir do meu último recurso. Foi um caminho longo, segurando a respiração a cada passo, engolindo a derrota latente e ainda lutando para manter a cabeça erguida em meio à frustração de uma simples porta que nunca se abriu. Um sofá que nunca me deu abrigo. Por teimosia ou imaturidade, eu não soube a hora de dar as costas e precisei abortar a aproximação. Bobeira, eu sei. Mas por medo ou por desinteresse, quem perdeu foi você. O tudo que poderia ter sido, mas não foi. E agora, com o sol subindo do outro lado do mundo, eu enxergo isso.

Não volta, não

Você fez o que era melhor pra você. Pode ter sido a pressão que eu não soube medir, a expectativa criada sem que eu me desse conta, a febre por algo tão novo e especial, tudo que nem você e nem eu tínhamos experiência ou paciência o suficiente pra aprender a lidar. E foi menos de um passo pra virar essa bagunça. Pensei por muito tempo ainda se você sabia o deserto que tinha ficado por aqui quando você foi embora. Porque você, diferente de todo o esperado, não deixou nada pelas metades quando partiu. Achei que fosse sobrar um sorriso aqui e ali, um desespero ao achar que te vejo em tudo que é canto, mas não. Nada. E o desespero foi três vezes maior. Você foi embora e deixou uma terra arrasada, e eu me vi obrigada a reconstruir meu mundo do pó. Precisei ficar só pra precisar só de mim. Mas veja bem, foi você tirar meu teto que eu reparei que o céu tinha estrelas, dei a cara a tapa e aprendi uma vida nova, em outros moldes, outros sistemas, outras fontes de alegria, e, olha só de novo, nenhuma delas nem ao menos lembrava você. Parabéns por não deixar reminiscências, por dar no pé tão sutilmente, a ponto de eu mesma me interrogar se algum dia você esteve por aqui. Pelo bem, pelo mal, foi assim que eu consegui começar do zero, refazer um mundo todo dentro de mim. Você reapareceu depois, maltrapilho e fatigado das andanças por aí, mas agora eu já reconstruí meu castelo de sapê, à beira-mar do jeito que eu sempre quis, e nem me preocupei em fazer quarto pra você. Que surpresa. Não te fiz quarto, e nem faço mais sala pra você. Eu descobri que a vida é muito mais do que aquele espacinho no quartinho do fundo do teu coração, que eu ainda achava o máximo. Agora você olha pra mim e sente falta, pede desculpa, aparece duas vezes por semana pra refazer a tua imagem, mas a pessoa que você deixou já não mora mais aqui. E o mais incrível é que a culpa é todinha sua. Não é irônico? O motivo de tanta mudança nem faz mais falta aqui. Você fez o que foi melhor pra você, mas agora faz o que é melhor pra mim. Não volta, não.

Na minha vez

Queria sacudir seus ombros até que ela entendesse, até que em seus olhos eu visse aquela resposta que eu não consegui ter, anos atrás. Quis tanto, que de alguma forma mágica, tudo que eu sabia até ali, se transportasse pra ela. Osmose, quem sabe? Tinha esperança de ser uma melhor professora, de contar como é que as coisas aconteceriam, como tudo seguiria no mais provável rumo, pra ela evitá-lo. Quis tanto saber exteriorizar tudo o que eu pensava. Tentei a murros e pontapés. Murro em ponta de faca e pontapé em muralhas espinhosas. É sério, eu insisti, mas era uma corda bamba com um aro de fogo em volta - tão fácil queimar junto. Queria que tivessem feito o mesmo por mim, então fiz o que gostaria que tivessem feito, em igual intensidade. Mas lembro também que não teria deixado interferirem tanto na minha vida, quando o que eu sentia era tão certo - como podia algo tão certo ser tão errado, afinal? E alguns anos depois eu entendi, que às vezes a gente se engana, e tudo bem com isso. A questão é que podia, sim, parecer certo e ser totalmente errado, e então com essa certeza, todas as outras viraram de ponta cabeça no meu mundo. Viu a confusão? Eu lutando pra ajudar uma amiga, quando eu mesma não teria aceitado ajuda, algum tempo atrás. E por mais hipócrita que possa parecer, além de tudo que eu já disse; eu queria, sim, que tivessem tentado com o mesmo afinco, queria que tivessem tido o mesmo zelo comigo, na minha vez de me apaixonar pelo cara errado.

Um alguém qualquer

Esses dias me perguntei, por que é que eu não te apaguei. As fotos, os textos, os presentes, o livros, tá tudo aqui ainda. E eu não tive a resposta na hora, e talvez nem agora ela esteja assim tão clara. Como é que se apaga alguns anos da memória, assim, tão rápido, me diz? Foi amizade boa, em alguns momentos, e então saiu de controle. Você e eu. Os trilhos ficaram mais apertados. Pra mim, mais você do que eu. Mas quem sabe no seu mundinho caótico as coisas não foram diferentes, não é? Ainda assim, entendo seu questionamento. E essa parte eu também não consigo entender; se é passado, por que ainda não devolvi tudo, apaguei a luz e fechei a porta. É que, fazendo isso, acho que eu finalmente estaria lacrando anos do meu passado. Seis, pra você ter certeza que é contigo, amiga. E parece que apagar isso, tantas horas que passamos juntas, e que eu confiei em você, apagaria um pedaço meu também. Então acho que é essa sua resposta. É por isso que um pedaço seu continua aqui, e vai continuar até eu decidir que um pedaço do meu passado já não é mais importante. Até que eu decida que um pedaço meu é tão desimportante a ponto de poder ser apagado sem rancor. E quem sabe quando eu vou decidir isso? E quem é alguém pra decidir que a própria memória não é importante pra lidar com o presente, com novas possíveis amizades? Não eu. Eu não vou tomar essa responsabilidade. E sabe de uma coisa, eu quero é paz. Vou guardar as lembranças, sim, mas não significa que vou revivê-las pra sempre. Não significa que eu sinta falta, jamais imagine isso. Acho mais que elas estão lá como uma maneira de me lembrar, pra me frear da próxima vez que confiar em um alguém qualquer.

Pra desmontar tudo

Foi no meu inferno astral que eu te conheci. Naquele momento quando as coisas ruins acontecem com a gente, sabe. E eu ainda achei que você fosse diferente, botei a cara pra bater que você era a calmaria em meio à tempestade. E, pra você ver, te achei tão inofensivo à primeira vista, que deixei entrar, fazer morada, botar teus alicerces enferrujados no lugar dos meus - de pura prata. Pra depois desmontar tudo, assim, meio de qualquer jeito, e se mandar. Eu ainda lembro de você, queria que soubesse disso. Às vezes com raiva, outras nem tanto, às vezes com saudade, outras nem um pouco. Você foi o primeiro a me ensinar tanta coisa, entre o amor e a indiferença. Porque a única coisa que você - apesar de todas as coisas - não foi capaz de me ensinar, foi a odiar alguém como você. Foi no meu inferno astral que eu te conheci, mas pra mim você era a exceção. Aquela época cheia de má sorte e superstição ficou pra trás, junto com você, com as tuas promessas, com as tuas lembranças. Eu olho pras peças desse jogo que eu mesma ajudei a criar as regras, achando que mandava em alguma coisa. Mas olho só mais essa vez, uma última vez pra trás, e fico até feliz de ter me enganado naquele primeiro segundo, porque quando eu olho pra dentro e penso comigo, contente e até orgulhosa, eu sei que não chegaria aqui de nenhuma outra forma. E mesmo assim - mesmo depois de tanta bagunça e tantos enganos - eu agradeço a Deus por cada engano nessa vida nos trazer sabedoria. Hoje eu me despeço de você com alegria, meu bem, porque sei que só passamos por algo ruim quando há algo muito melhor nos esperando em seguida. 

Eu não volto mais

O problema é que você nunca viu, eu nunca precisei de você. E eu sei que você também nunca precisou de mim, eu sei disso, sei de toda a nossa individualidade, e respeito muito. Acho até bom. Mas você sabe o quanto me deixava louca te ver agindo assim, como se eu fosse o pingente do seu colar, detalhezinho que os outros só admiram, mas que você ministra. Não sou acessório de homem nenhum, e se não foi a minha voz, talvez agora a minha ausência te mostre isso. Espero que você saiba lidar com a próxima que te aparecer, desejo que aprenda a largar todo esse preconceito que te impede de tratar alguém de igual pra igual, e peço aos céus que - caso contrário - você seja feliz por si só, que mulher nenhuma aguenta o que eu aguentei nem por uma semana. E tudo o que tinha de você em mim, queria te falar que aquilo sempre fui eu, nunca deixei ninguém me mudar; infelizmente, da mesma forma que você. Mudança vem de dentro, e eu te peço desculpas se em algum segundo eu fugi da minha própria moral e tentei encostar o dedo na tua essência. Agora eu vejo que não devia ter nem feito o esforço. Mas descanso em saber que tentei, que quis te mostrar o que me era tão errado, que dei chance, que fui atrás, sim, à exaustão. Talvez você não veja nem hoje, nem amanhã, mas um dia você vai entender, que eu tentei; e é coragem, dizer o que todo mundo pensa e não consegue falar, o que todo mundo quer dizer e não diz. Mas agora é questão de sanidade, deixar esse peso de nós dois pra lá, dar as costas, voltar minha atenção pra mim mesma. Chega de tentar meus toques indelicados, à beira da explosão, pra ver se você percebe teus murros em ponta de faca. E pensando bem, eu é que os dava, tentando ajudar, à minha maneira tão torta. Erramos, os dois, não foi? Dizem que os finais são assim, nunca só um errou, e eu aceito a minha parcela. Aceito, me desculpo, e também te perdôo, mas acabou. E agora, eu não volto mais. 

Dia das bruxas

As crianças brincam de se esconder.  Escondem-se por trás de máscaras, fantasias, personagens, depois vão pedir doces. Tornam-se alguém completamente diferente do dia para a noite é apenas uma questão de horas para que a mudança aconteça. Mas depois que conseguem o que querem, como bons soldados retornando da guerra - e vitoriosos, voltam para casa desfazer-se de seus disfarces.

Os adolescentes seguem quase o mesmo ritual. Eles tem o brilho perverso que as crianças ainda desconhecem e por esse ou qualquer outro motivo, fazem a noite durar mais. Voltam quando o dia 31 acabou há pelo menos seis horas, mas eventualmente guardam suas fantasias novamente no armário. Os adolescentes conhecem as mentiras da noite como ninguém, e sabem burlá-la até o amanhecer.

E de alguma forma, naquele dia de travessuras, lembrei de você. Vi nós dois mascarados, às ruas, inocentes - bom, ao menos um de nós. A noite estava embaçada no ponto em que decidimos voltar e deixar as garrafas de jäger pra trás. Eu vi quando o sol subiu e novembro anunciou a promessa de renovação, deixando os disfarces, as enganações e as brincadeiras infantis no passado. E, pra mim, juro, eu olho praquele ano e tudo que eu vejo é que nosso dia das bruxas foi incrível, se possível, o auge de nós dois. E aí eu percebi, olhando pras cinzas que sobraram, pros restos de folhas secas já escassas, que aquele dia acabou. O dia das bruxas vem uma vez no ano. Mas para você... todo dia é dia das bruxas.

Não espera

Queria te falar o que aconteceu desde que você foi embora. Quer dizer, se você foi sem sequer olhar pra trás, é óbvio que essas linhas nem te importam mais, mas acho que no fundo todos nós precisamos de um fnal - seja assim, gritado na rua, na frente dos vizinhos; seja por meio de uma mensagem insensível no celular; ou então numa carta, com o único intuito de colocar essas palavras pra fora e depois ser esquecida num canto qualquer. Como essa.

Demorei, e demorei muito, mas acho que finalmente consegui entender que você se foi. Mas e aí, vai deixar eu também ir embora assim? Vai mesmo deixar a gente ter esse fim? Vai mesmo esperar que eu descubra um outro amor - talvez até mais bonito que você, mais atencioso e educado, pra então se dar conta da nossa perda e me pedir pra voltar? Não renuncia a nós dois ainda, não.

Olha, quer saber? Se o teu problema é o orgulho, não espera. Não me deixa ir embora agora. Mas não me busca amanhã no serviço, não aparece à meia noite da quinta-feira que vem pedindo desculpas. Não faz que nem os outros, não deixa pra se arrepender amanhã. Tá entendendo? Não me deixa pra depois. Eu sei que você já foi, mas não me deixa ir também, não assim. Não espera um dia, uma semana ou um mês pra admitir a importância que eu já tinha visto em você, de cara, naquela faísca inicial. Naquele primeiro oi. Se o teu problema é medo de não me encontrar de braços abertos, então não espera pra admitir que errou. Não espera eu te esquecer. Não espera pra fazer uma reviravolta maluca, digna de um filme de comédia romântica, só depois do fim. E, principalmente, não espera pra me impedir de ir. Não me deixa ir embora agora.

Não espera pra se arrepender, ou então nem me espera.

É preciso lutar por um amor?

No meio daquela sessão desabafo entre as amigas, foi inevitável chegar nessa questão. Porque, entre nós, quando o caso é se devemos insistir num cara ou não, não há supremo tribunal que chegue a um veredicto. É que, sendo amor, precisa mesmo de tanta luta?

Mas não precisei pensar muito pra perceber que essa nunca foi uma das minhas preocupações. Meus amores sempre pediram uma dose de luta e eu sempre usei a gosto. Contra minhas próprias crenças, minhas manias, meus amigos, minha possessividade descontrolada, as piriguetes da balada, Deus e o mundo, mas não contra ele.

Afinal, lutar por um amor? Claro que sim, quantas vezes fosse preciso. Insisto que lute. Mas, simples assim, não brigaria por alguém que não quer ficar. Não insistiria em recriar um momento que acabou para o outro, porque eu também odiaria que fizessem o mesmo comigo. Foi um prazer enquanto durou, mas se ele consegue ir embora sem nem olhar pra trás, que assim seja. É que, acima de tudo, por mais que doa perder um amor, pior ainda é perder o amor próprio. Relutante, dou minha benção. Que vá em paz, amém.

Você, vinho. O resto, água

Você é daquele tipo que me deixa a mil de questões e zero em respostas. E eu só queria te perguntar, talvez até sem gentileza nenhuma, com meu jeitinho ríspido do qual aliás você já nem deve lembrar, quem você pensa que é. Quem você acha que parece quando anda por aí de cabeça erguida, de mãos dadas com qualquer uma que for - porque não importa a coadjuvante -, como se você fosse vinho e eu água? E todo o resto, água. Diz, o que foi que passou pela sua cabeça quando você deu as costas pra todos que sempre estiveram aqui por você? Explica, porque eu nunca vou entender sozinha. Não, não entra na minha cabeça como é possível ser apagada tão rapidamente, num flash, sem avisos, nem adeus. Me diz como é fazer as malas e correr de madrugada, apagar as memórias instantaneamente, esquecer uma vida toda, que eu quero me assustar o suficiente pra nunca ter coragem de fazer o mesmo. Porque olha, você sabe, eu to acostumada com partidas, acenos tímidos, saudades intensas mesmo e consigo lidar muito bem, juro. Essa não é a questão. Só não faz sentido em uma partida caber tantos adeus. Não doeu esquecer de tudo, perder tantas lembranças? Não machuca olhar pra trás e pensar que aquele campo - concordo, nem sempre florido - nunca mais vai estar lá pra você, e que foi você quem destruiu a ponte de volta pra ele? Tem certeza que você não apagou pedaços importantes de você mesmo quando passou essa borracha tão grande no que ficou pra trás? Porque, e eu pensei sobre isso, não deve ter sido fácil. Não pode ter sido. Mas, pensando bem, nem explica, que não quero entrar nessa mesma noia que você. Deixa pra lá, eu não quero entender, vai que pega.

Aquele que eu deixei

Queria que ele soubesse os verdadeiros motivos por que eu fui embora. Quer dizer, não é como se eu não pudesse contar, mandar uma mensagem, aparecer num café pra falar um dia desses. Mas entre pensar em dizer e realmente fazer isso, muita coisa aconteceu. Como por exemplo, eu ter percebido o quanto eu gostaria e até teria ficado, se ao menos ele fosse diferente. Mas seria muita injustiça e até maldade pedir uma coisa dessas. Seria pedir demais, eu sei. Além do mais, defendo a ideia que ninguém deve mudar apenas pra agradar outra pessoa, apenas pra se encaixar na lista de alguém. Todos merecem ser aceitos exatamente pelo que são. Eu, por exemplo, me sentiria profundamente ofendida se me pedissem para mudar desde meu cabelo até o jeito de agir, portanto seria hipocrisia demais pedir isso de alguém, não? Então eu decidi não contar. Porque quando você não gosta de uma pessoa como um todo, mas como adjetivos individuais, algumas coisicas que ela faz aqui e ali, talvez você não goste dessa pessoa tanto assim. E por mais difícil que seja admitir, eu posso não ter gostado dele de verdade, nem um pouco, nem naquela faísca inicial - que, pensando bem, não ocorreu. E o mais triste é eu ter demorado tanto tempo assim pra perceber. Então fica meu apelo pro universo, ou qualquer força mais forte que eu que esteja aí fora, me ouvindo, que eu gostaria que ele soubesse que eu sinto muito por ter desaparecido do jeito que o fiz, e que eu sinto muito duas vezes, mas ter ficado mais um pouco teria acabado comigo. Mas que, do fundo do meu coração?, espero que ele continue o mesmo.

A primeira

Ele sempre teve esse sorriso debochado, esse jeito de olhar como se te desvendasse por completo no primeiro instante - não pense que é só com você! Esse beijo de metanfetamina que desnorteia por completo também sempre esteve lá, mas aprender a lidar com ele é outra história. Eu poderia até ensinar, mas quando ele chegar de madrugada, com a desculpa mais eloquente do mundo e aquela cara de inocência, todos seus esforços irão por água abaixo. Eu sei que ele é complicado, não nego. A confiança que ele tem é outra coisa que destrói qualquer fortaleza que você pense que tenha, e esse temperamento que vem em ondas irregulares também, mas essa história não é sobre ele. É sobre mim. Me perdi entre tantos entretantos que quase não cheguei aqui. Eu confiava tanto em todo mundo, principalmente nele, que não sobrava quase nada pra mim. Ele chegou roubando tudo, mas aquele sorriso - lembra?, foi o suficiente pra me fazer entregar todos os meus pertences na mão dele como se por vontade própria. O coração, a confiança, eu toda. E quem é que vai discutir com alguém cega de amor? Principalmente comigo, sempre tão bocuda, mas que finalmente tava aprendendo a ceder. E justamente pra pessoa errada. A cada sorriso que eu perdia, ele se fortalecia. Não sei, tem gente que funciona assim, só somando o que há de bom dos outros em si mesmo, roubando amor alheio. E quem é que algum dia vai parar esse cara? Eu não fui a primeira, e você não vai ser a última.

O momento em que acabamos

Pensando bem, foi naquele momento que a gente acabou. Não quando nós brigamos, ou quando você veio se desculpar e eu mal quis ouvir, de cabeça quente, sentindo o sangue bombeando a ponto de arranhar minhas veias. Embora naquele dia eu tivesse tentado a todo custo te tirar da minha cabeça, da minha vida e até dos meus contatos, ainda não foi naquele dia. Embora eu tivesse jurado pra Deus e o mundo a partir daquele dia que não lembrava mais nem do seu nome, ainda não foi naquele momento que o "nós" realmente deixou de existir, não pra mim. Também não foi naquele desastroso último beijo às escondidas, ou nas mensagens de texto minguadas, muito menos nos olhares que se tornaram cada vez mais escassos. Eles pinicam a alma até hoje só de lembrar, mas também não foram a última gota. Não, o fim do amor é quando o amor não dói mais. E o seu nem cócegas me faz. E hoje, que engraçado, me peguei pensando em você. Não com saudade dessa vez, nem aquela vontade de pegar o celular e te mandar uma mensagem, perguntando como estão as coisas. Dessa vez, a lembrança veio de mansinho, quase acariciando a memória, sem sacudir nem abalar as estruturas como costumava acontecer. Eu repassava aquela nossa última conversa, depois que você soube de todos meus inúteis esforços pra te esquecer, que eu nunca consegui esconder nem de mim mesma; depois de toda a bagunça que nós construímos e descontruímos. E foi aquela última conversa o fim, mas eu ainda não conseguia ver. Aquele exato segundo em que, quando eu perguntei como estavam as coisas e você respondeu um monissílabo, sem a menor recíproca, foi quando eu vi que não doía mais. Que a sede de contar todas as coisas da minha vida não era mais saciada por você. E pode até ter sido difícil admitir no início, mas passou. E a lembrança tá aí, de prova, atestando em amarelo neon que dessa vez não tem mensagem ou foto sua que cause aquela agulhada no peito, ou um saltinho a mais no coração, e não necessariamente isso significa algo ruim. Não faz mais perder o sono. As borboletas migraram pra outro jardim. Porque não vale nem o rancor, nem a pena. Mas foi amor, sim. Foi amor legítimo e por bastante tempo, mas acabou.

Se ele quer ir...

Agora é diferente. Dessa vez eu não vou ficar me martirizando pelo que podia ter sido e pelo que não foi. Agora eu consigo enxergar a verdade que está bem ao meu lado, que eu não estava procurando alguém, ou alguma coisa quando quis me arriscar. Que eu só estive esse tempo todo em busca de mim mesma, da voz que sem querer eu vinha sufocando, em função de agradar a quem quer que fosse - menos eu. E que ele não tinha nada a ver com isso. Claro que em um pedaço ou outro do caminho eu me confundi, tropecei e troquei os pés pelas mãos, mas eu também aprendi a me levantar. E quem nos conhece melhor do que nós mesmos? E ele teve a chance, só que não quis. E se tem uma coisa que eu aprendi, enquanto tentava entender a mim mesma, é que não adianta travar uma batalha por quem não quer ficar. Sempre foi assim comigo e não é diferente com os outros. Se for pra lutar junto, eu sou a primeira a me dispor, definir estratégias e por o coração à prova mesmo, mas se a história for um tiquinho diferente, eu não vou. A batalha não é minha, não vou por o peito na linha de frente só por questão de coragem. Porque eu tenho, e sei disso, tô muito mais minha, mas não preciso ficar mostrando isso pra ninguém. E não adianta, já questionei Deus e toda entidade que há nesse mundo, por que é que é sempre assim, por que eu continuo só ganhando experiência, mas nunca consigo um momentinho de paz, um minuto de sossego, pra colocar as armas de lado e descansar. E o que tem de diferente agora? Tem eu, que dessa vez não vou me matar por um indeciso qualquer, que vou recostar em mim mesma, nas amigas que sempre estiveram aqui e não vou mais brigar por alguém que não quer ficar. E hoje sou senhora da minha razão. Se não aconteceu, é porque a outra parte não quis. Eu estava aqui, eu tentei, matei todos os "e se", tô de consciência e cara limpa. E o bonito que se cuide, que eu não sou de desistir, mas quando desisto, é pra valer. Quem precisa de sorte agora é ele.

Ensaio sobre o fim

Hoje em dia tá lá, sorrindo com todo mundo, como se eu nunca sequer tivesse passado pela sua vida.
Mas eu passei.

Tá namorando outras, até parece que nunca me disse que eu era a única na sua vida. 
Mas disse.

Tá com novas melhores amigas, sem mandar nem lembranças, como se eu também nunca tivesse sido a melhor amiga.
Mas eu fui.

Viaja pra todos os cantos, e faz questão de ir aos mesmos lugares que já fomos, como se fosse a primeira vez.
Mas não é.

Tá bebendo mais do que nunca, espalhando por aí de peito cheio que é porque o salário dele aumentou.
Mas há quem discorde.

Tá se perdendo entre tantos corpos, como todos os outros, sendo mais um pra qualquer um assim como todo mundo um dia foi qualquer um para alguém. Sozinho, ele tá sendo só mais um.
Mas ele não é.

Tá por aí, em todo canto, sorrindo o meu sorriso pra qualquer uma, gastando os meus elogios em desconhecidas, às vezes se convencendo bem demais que eu nem existi, às vezes voltando à dura consciência e sentindo falta de quem a gente era. Daquilo que era único.
Mas isso é passado.