Dia das bruxas

As crianças brincam de se esconder.  Escondem-se por trás de máscaras, fantasias, personagens, depois vão pedir doces. Tornam-se alguém completamente diferente do dia para a noite é apenas uma questão de horas para que a mudança aconteça. Mas depois que conseguem o que querem, como bons soldados retornando da guerra - e vitoriosos, voltam para casa desfazer-se de seus disfarces.

Os adolescentes seguem quase o mesmo ritual. Eles tem o brilho perverso que as crianças ainda desconhecem e por esse ou qualquer outro motivo, fazem a noite durar mais. Voltam quando o dia 31 acabou há pelo menos seis horas, mas eventualmente guardam suas fantasias novamente no armário. Os adolescentes conhecem as mentiras da noite como ninguém, e sabem burlá-la até o amanhecer.

E de alguma forma, naquele dia de travessuras, lembrei de você. Vi nós dois mascarados, às ruas, inocentes - bom, ao menos um de nós. A noite estava embaçada no ponto em que decidimos voltar e deixar as garrafas de jäger pra trás. Eu vi quando o sol subiu e novembro anunciou a promessa de renovação, deixando os disfarces, as enganações e as brincadeiras infantis no passado. E, pra mim, juro, eu olho praquele ano e tudo que eu vejo é que nosso dia das bruxas foi incrível, se possível, o auge de nós dois. E aí eu percebi, olhando pras cinzas que sobraram, pros restos de folhas secas já escassas, que aquele dia acabou. O dia das bruxas vem uma vez no ano. Mas para você... todo dia é dia das bruxas.

Não espera

Queria te falar o que aconteceu desde que você foi embora. Quer dizer, se você foi sem sequer olhar pra trás, é óbvio que essas linhas nem te importam mais, mas acho que no fundo todos nós precisamos de um fnal - seja assim, gritado na rua, na frente dos vizinhos; seja por meio de uma mensagem insensível no celular; ou então numa carta, com o único intuito de colocar essas palavras pra fora e depois ser esquecida num canto qualquer. Como essa.

Demorei, e demorei muito, mas acho que finalmente consegui entender que você se foi. Mas e aí, vai deixar eu também ir embora assim? Vai mesmo deixar a gente ter esse fim? Vai mesmo esperar que eu descubra um outro amor - talvez até mais bonito que você, mais atencioso e educado, pra então se dar conta da nossa perda e me pedir pra voltar? Não renuncia a nós dois ainda, não.

Olha, quer saber? Se o teu problema é o orgulho, não espera. Não me deixa ir embora agora. Mas não me busca amanhã no serviço, não aparece à meia noite da quinta-feira que vem pedindo desculpas. Não faz que nem os outros, não deixa pra se arrepender amanhã. Tá entendendo? Não me deixa pra depois. Eu sei que você já foi, mas não me deixa ir também, não assim. Não espera um dia, uma semana ou um mês pra admitir a importância que eu já tinha visto em você, de cara, naquela faísca inicial. Naquele primeiro oi. Se o teu problema é medo de não me encontrar de braços abertos, então não espera pra admitir que errou. Não espera eu te esquecer. Não espera pra fazer uma reviravolta maluca, digna de um filme de comédia romântica, só depois do fim. E, principalmente, não espera pra me impedir de ir. Não me deixa ir embora agora.

Não espera pra se arrepender, ou então nem me espera.

Linhas em vermelho

Folha escrita
rabiscada
Linhas cruas
e parábolas
Curvas nuas
inexatas

tudo
sem
ordem
nem
nada

O muro até ruiu
com meu grito
ensanguentado
desesperado
derrotado

mas três outras camadas
se ergueram na sequência
e eu me vi enjaulada
dentro da tua incoerência

E em oração o que pedi
naquela noite de ardis
duas lentes pra ver o que fostes
poder ler entre as linhas
e rescindir os rancores

Só uma luz o que eu pedi
luz pra ver em meio às dores
luz pra ler tua folha de amores
negro rubro e sem guia,
labirinto à meia noite

E então fez-se ver
nas linhas do teu miocárdio
Letras e letras
puro amor intocado

Cem amores à tinta de sangue
conto tingido
vermelho brilhante
em coração impermeável

Guerra bruta
insossa
sem começo nem fim

Sem sentido nem motivo
Nem ninguém
que ganhe enfim

Folha em preto

A tinta desses gritos
era permanente
Lâmina afiada
nado contra a corrente

Incisiva incalculada
em teu frágil
raso amor
folha pseudo imaculada

Minha prisão
nessas palavras
tão medidas
em medidas desesperadas

sempre diretas
mas sem direção;
mesmo que retas
nenhuma razão

Em último ato
e ante a exaustão
pichei meu nome
nos muros do seu
coração