O medo que me sobrou

De primeiro arrisquei batidas novas, experimentei mais no gosto musical e no modo de vestir, mas no espelho vi que ainda tinha muitos medos, pré conceitos e ilusões que eu vestia como verdade. Mas o medo de mudanças estava estirado sob meus pés.

Comecei a me despir da arrogância, pra ver se assim meu eu cabeça-dura aprendia coisas novas e a visão à minha frente se tornou mais clara. Percebi, não tão surpresa, que havia sem querer colocado os óculos da humildade diante das vistas.

A partir de então, como peças de dominó caindo ordenadamente, assim foram meus medos. Vi enquanto o medo da felicidade ia embora, e pude constatar com alívio que esse era um que eu jamais voltaria a vestir. Temores que eu nem sabia que possuía, escondidos nos bolsos dos casacos e até nas meias. Até medo de amor, ora furtivo entre os fios de cabelo, eu tinha.

Só parei quando uma única peça cobria meu corpo, tão fina quanto uma tatuagem. Tão delicada e ao mesmo tempo tão imponente que precisei olhar diretamente. Passando os dedos, sua textura era tão macia quanto áspera. Aquilo era mesmo parte de mim? Estava ali o tempo todo, só esperando ser descoberto? Observei, maravilhada, e percebi com súbita confiança que se fosse para ter algum medo, que fosse esse, se é que de alguma forma poderia ser classificado assim.

E eu dei as costas para o espelho, confiante, atônita e frenética, pronta para exibir meu solitário medo mundo afora e barganhar todas as proezas que conseguisse com o coitado. Pois o único medo que sobrou foi o de não tentar.

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