Mas é claro que eu percebi. Notei de primeira quando os olhos dele foram perdendo o brilho, as pálpebras antes tão arqueadas, agora preguiçosamente endereçadas a mim, os cílios alongados sempre tão serenos, tornaram-se inquietos.
É lógico que eu notei, desde o primeiro detalhe eu soube que algo estava errado. Desde a primeira nuance de mudança, eu soube. E não foi só o trejeito que mudou, que nisso ele ainda é o mesmo. Os detalhes foram tão sutis que só alguém tão próximo assim poderia notar, só alguém já pronto pra se jogar do precipício, sem medo da queda. E - detesto a falta de modéstia - esse alguém era eu.
Ele não ligava mais, e não é só de telefone que eu tô falando. Mas o que eu podia fazer? Se nem o meu amor bastava, o que eu podia oferecer pra fazer ele ficar? Ele foi assim, de repente. Num dia estava aqui, no outro fumaça. Leve demais pra ser preso por compromisso forte como o que o amor requer. Eu vi quando ele saiu na calada da noite, sem nem olhar pra trás pra não ter de admitir que debaixo daquela coragem tranquila se escondia um menino.
Quando eu comecei a ler os sinais dele, achei que tinha um dom. Achei que podia entender como ele funcionava, que tinha alguma vantagem com isso, mas aí entendi tão bem que suas ações fizeram sentido. Fez sentido ele ter abusado do vinho da última vez, não ter medido as palavras comigo, nem dissipado aquele furacão nos seus olhos. E eu estava lá, no olho do furacão, pronta pra ser tragada, mas ele estava muito adiante, tão preso dentro daqueles olhos tempestuosos, preso dentro daquelas íris negras como uma criança paralisada de medo do escuro.
E foi um baque assim, mesmo.
De repente não ligou, não apareceu, não mandou SMS e nem sinal de vida. Recusou todas as tentativas de contato até eu finalmente enxergar que a tempestade que eu via naquele olhar não era reflexo do que tinha em mim, aquele abismo era dele. Mas eu podia ajudar. Eu queria ajudar. Ele não. Eu estava pronta pra mergulhar naquele abismo sombrio. Tinha a corda, a lanterna, tinha os pés de pato e o oxigênio, mas ele recuou. E como se salva quem não quer ser salvo?
Então eu entendi, tão bem que não me senti nem mesmo no direito de desatar aquelas amarras, muito menos de dar o salto em direção ao escuro. No fundo ele precisava de mim, sim, até mais do que eu dele. Só que aquele mar dos olhos dele, turvo e abissal, ameaçador e sedutoramente letal... Se não dava pé nem pra ele, como eu ia dar conta de nós dois? Já vi essa cena antes. E eu queria ajudar, não leve a mal, eu só temia afundar também.
Eu amor, ele abissal
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