frenteverso

meu pescoço, teu punho
minha mão e tua nuca

a faca de dois gumes
que me corta
também a ti machuca

Insólita


meu medo é sólido
mas a coragem é líquida, derretida
e eu, amor insólito
em despedidas, perita

te relembro dezembro
não sou acessório de homem nenhum
e se não a minha voz
minha ausência se torna o lugar-comum

vamos falar da angústia
que eu vejo por tantas lentes 
paradoxais, confusas, infernais
fazer o certo com métodos errados, mas só uma vez mais

e quem sabe eu entenda a dor
pra procurar uma cura por aí 
eu podia ficar, poderia ir - e que diferença faz?
o fim é sempre algia e muda jamais

Quem não quer sou eu

Sabe de uma coisa? Eu não quero a sua amizade, nunca quis. E foi de repente que eu percebi isso, tão de repente quanto decidi te contar. É que eu não quero ser obrigada a estar ao seu lado quando você conhecer a sua namorada, e aí observar enquanto ela aprende tudo sobre você, detalhe por detalhe, coisa que aliás vai demorar anos. E por mais que eu nem pense muito nisso, também não quero estar no canto dos padrinhos no seu casamento. Não quero dividir com você anos e anos de uma amizade sólida e equilibrada, porque equilíbrio é questão de ponto de vista, e eu não entendo como pode ser possível querer amizade com você. Só amizade, entende? A vida já nos dá tantas rasteiras, mudanças de plano de última hora, a gente não devia ficar dando chance para que a gente de repente se torne mais uma dessas fatalidades, uma dessas chances gigantescas jogadas pela janela no último momento, ou que estiveram lá o tempo todo e nunca foram vistas. É que, será que você entende?, eu não quero ser essa chance na estante, e jamais poderia ser. Não quero ficar pegando pó, esperando alguma ação, vendo a vida passar numa dinâmica diferente de tudo aquilo que poderia ser - mas que não é. Eu que já sou tão perita em despedida sei muito bem onde essa bagunça toda pode levar, e não vou querer ficar por perto pra ver fim nenhum. Desculpa, não vou ficar por perto, não. Não quero estar ao seu lado pra conhecer sua namorada, porque - e só agora eu percebi isso - eu prefiro ser ela.

Poema de vírgulas

meu amor por você
joguei no rio tietê
e pedi a iemanjá
pra, por favor, considerar
mas que eu não tinha nada
nada melhor pra ofertar

e em troca eu pedi
que a sorte por favor mudasse
porque ai-meu-deus
esse impasse
fazia tudo menos bem
especialmente essa saudade

que então os ventos se apiedassem
e me trouxessem novidade
sem boleto nem vintém
que eu não queria mais ser parte
dessa arte que é teu harém

mais sorte encontrei
que jogando em loteria,
que me arriscando em Roma
na Fontana di Trevi,
ou andando grátis de carona
e tudo isso sem você, hein

se iemanjá me ouviu
se foi perda ou livramento
ah, isso só o tempo
só com o tempo
e até lá, confesso
agridoce desalento

Segunda vez

Traz a noite crua de novo
iluminada em pontos brancos
Aquela brisa sempre escura
as folhas mortas far fa lhan do

Então traz a alegria de novo
não deixa minguar meu sorriso
Ou vem correr contra o vento
ou tira esse amor do meu peito

Traz de volta tuas memórias
volta correndo essa noite
Queria que soubesses
eu vou te dar essa chance

Lembrança no farol

Fica um pouco mais
um pouco mais fácil
mais fácil cada dia 
cada dia, um pouco passa

de manhã tudo atrasa
a semana se arrasta
mês, então, nem se fala
e o semestre, enfim, passa

A distância é uma hora
mas os dias, uma vida
milhares de milhas
enroscadas pelo ar

Criando esquecimento
a partir da lembrança
in memoriam clara
afluente da esperança

Oito mil nós
de nós pelo mar
Zero ponto sete
souvenir que me há

Quantos mil metros
até sumir do retrovisor?
Quantos mil anos
até o encontro redentor?

Sem uma esperança
eu grito 
em dor;
Por misericórdia
um rito
de amor

Logo um dia vai passar
a memória incessante
quase e sempre, redundante
coração-garrafa-ao-mar

Sem misericórdia
um rito 
que for;
em pura esperança
eu grito 
sem dor

Palavras perdidas

Foi numa dessas epifanias de pura gratidão com a vida e com meu aprendizado nela que eu voltei a pensar em você. Não que por algum santo dia eu tenha parado, mas dessa vez foi diferente. Eu tenho ensaiado mil e uma maneiras de te dizer o que eu sinto e que ficou engasgado, e hoje mesmo fui perceber que, independente do quanto eu goste de você - ou da ideia de quem você se tornou pra mim, o que eu mais preciso agora é que você saiba disso. Só isso. O meu aniversário tá virando a esquina e eu não suportaria fechar um ciclo pensando que tanto do que podia ter sido dito, não foi. Eu não suportaria deixar pra trás tantas verdades que, por mais que eu odeie admitir, talvez nem mudem nada pra você, mas que pra mim, estão sendo um método de tortura escolhida a dedo por um assassino de sangue frio. Desce, vem aqui fora, me escuta cinco minutos. Eu não vou trazer as mil músicas que pensei em mandar, nem vou te culpar pelo que passou, porque sei que nós dois tivemos culpa nessa. Vim só, sem precisar mais de nada. Sem artifícios mundanos, só as palavras mais honestas que pude encontrar. Vim me desculpar pela minha parte nessa bagunça, mas também avisar que estou trabalhando nisso; estou crescendo e corrigindo meus erros, entre essa nossa distância. Acho até que eu era perfeita pra você, mas o problema foi que quando você não viu isso, eu também não vi. Eu sempre fui tão honesta em tudo, até nos sentimentos, a ponto de ser quase transparente. Quando fui amor, fui por completo. Mas quando eu vi você, acabei te mostrando meu lado mais amargo, ingrato e seco. Que irônico, né? Uma parte minha viu aquele brilho especial em você, mas a outra teve um medo insano de te perder. Pensei que fosse o jeito certo de lidar contigo, mas agora eu enxergo como estava errada. Você nao precisa de alguém frio, você precisa de amor. E nem vim arriscar outra chance, decidi deixar isso com o destino, com Deus, com qualquer força lá fora, mais forte que eu, que se compadeça da minha situação. Tô com as roupas de corrida não para provar minha paixão por esportes - finalmente, algo além de você -, mas porque de alguma forma os meus pés sempre correm até você. A vida parece sempre me levar pro seu lugar. Eu vim vestida, mas as minhas palavras não podiam estar mais nuas, tão puras. Você é a minha lembrança mais vívida de uma paixão, e a que mais deixou dúvidas e espaços em branco. E hoje, escuta que simples, mesmo que as palavras não sejam as mais certas, eu só queria preenchê-los.

Saudade

A saudade
Só dá de
Manhã
Quando o café fica pronto
E uma caneca, vazia

A saudade (ah, saudade)
Só dá de
Tarde
Quando o sol aquece a sala
E o sofá, sozinho aguarda

A saudade, tadinha
Só dá de
Noitinha
Quando a luz da vizinha
Mostra sua nova companhia

Faísca, fogo, amor

Parece que é pela milésima vez que eu to falando que não deu, que não era esse o cara. Minha amiga torce o nariz e pergunta em que ponto eu desisti dessa vez, como se fosse um jogo que vez ou outra eu tenho mais  ou menos progresso no tabuleiro. Mas a verdade é que eu insisti por tanto tempo e contra tantos contratempos, chegar a algum lugar, que fatiguei o coração. To exausta de espremer os sentimentos pra ver se sai um pouquinho de paixão. Nada. E aí eu levanto a bandeira branca, porque pra mim até existe paixão sem amor, mas amor sem paixão? Sem nem um tico de paixão? Sei não. Parece tão bobo, quase um capricho adolescente, mas sem ela eu não consigo continuar em qualquer relacionamento de longo prazo, sem achar que eu to gastando o meu tempo e o do sujeito com um sentimento mascarado de algo a mais do que ele é, mas que nunca vai evoluir. Eu tento, tento e tento até ver que alcancei a escala máxima daquele sentimento. É isso. A dor maior é ficar riscando o coração atrás de uma faísca que nunca vai existir; um brilho que jamais vai dar o toque final na relação, que pensando bem, nesses termos, nem devia existir. Então eu desisto, não hesito. Prefiro começar do zero, me arriscar de novo. Coragem, imprudência, seja o que for. Parece besteira, mas no fundo, eu sei que sem faísca, não tem fogo. E todo mundo sabe o que dizem sobre o amor. 

Do outro lado do mundo

Acho que no fundo você sabe. Eu não desistiria a toa, não desisti nem quando você disse com todas as letras que era encrenca e que ia me machucar. Não liguei e não porque sou blindada - longe disso, ainda mais pra quem chora em comerciais de carro, mas porque não consegui enxergar nas suas palavras aquilo que as suas ações diziam. Estava em disjunção, sabe? Então eu fiquei. Queria entender. Dei outras opções: não precisava ficar na cama, estava determinada a aceitar um lugar no sofá. Mas sentei na soleira e esperei a madrugada toda. Aguentei o frio que veio e engoli o medo com o resto de coragem que me sobrava. Eu te ouvia mexendo na fechadura algumas vezes, mas aquela porta não se abriu. E depois de algum tempo assim eu finalmente entendi que não veria teu interior tão cedo. Talvez o problema fosse eu, talvez o mau tempo, talvez até algo no teu passado. Mas no meio de tanta dúvida, decidi que não cabia mais nenhuma. Me agarrei à minha única certeza e voltei pra casa com as sobras do meu amor próprio, um souvenir do meu último recurso. Foi um caminho longo, segurando a respiração a cada passo, engolindo a derrota latente e ainda lutando para manter a cabeça erguida em meio à frustração de uma simples porta que nunca se abriu. Um sofá que nunca me deu abrigo. Por teimosia ou imaturidade, eu não soube a hora de dar as costas e precisei abortar a aproximação. Bobeira, eu sei. Mas por medo ou por desinteresse, quem perdeu foi você. O tudo que poderia ter sido, mas não foi. E agora, com o sol subindo do outro lado do mundo, eu enxergo isso.