Apesar das incertezas

Talvez, quando ela chegue, já não tenha mais espaço na sua vida. Talvez você tenha deixado a barba crescer. Talvez o seu perfume, que tanto faz falta, já não seja mais o mesmo. Talvez seu gosto por comida ocidental já tenha acabado e sua nova obsessão seja a western food. Talvez vocês nem possam mais ir ao mesmo restaurante que teriam ido um ano atrás. E ela sabe de tudo isso. Sabe que talvez você nem tenha mais aquela camiseta respingada de três cores, a mesma vontade de conhecer o mundo, ou mesmo a paciência que costumava ter. Talvez tudo esteja velho demais quando chegar, mas nem todas essas péssimas possibilidades conseguirão segurá-la em casa. Nem todas as chances de dar errado a impedirão de tentar, de ir atrás, de renovar. Ela vai chegar com uma proposta de renovação na mão, mil planos na cabeça e a outra mão bem livre, pra agarrar qualquer chance de ser feliz. Mas presta atenção, que é aí que as coisas mudam de perspectiva - se não puder ser feliz com você, pra ela serve bem demais ser feliz sozinha.

Nevoeiro

Cada palavra ela é um grito

Seja à meia luz, comedido ou educado
até mesmo exasperado, o tom nem diferença faz
A escuridão é branca como a paz

É que as palavras são as mesmas
e o que há dentro é de urgência tão pontual
Essas palavras podiam ser na menor letra
Que ainda se ouvia um grito gutural

Se tudo muda e a constante é a mudança
guarda então na memória, poesia, um nirvana
mesmo que esqueça, que já não seja, me guarda
Se o amor é eterno, tuas crenças são fumaça

Em qualquer canto suspiro um canto
Minha fé só não é maior que os arranha-céus
Rasgando as nuvens igual essa dor no peito
Fico rasa aqui, que mergulhar não é pra mim

Cuida das flores, ó de casa!

Repete frases como quem sabe
Eu não posso contra a coragem
Amor verdadeiro é um espelho
Ilumina a saída desse nevoeiro

Em qualquer canto suspiro um canto
Com quanto canto se faz um canteiro?
Meu coração espera no chão
Que o nevoeiro seja que um devaneio 

940851

Desculpa, que eu menti. Dei as costas, eu fugi, corri até de mim, e até o motivo eu também escondi. Mas achei que fosse óbvio.

Menti porque é difícil demais esse espaço em mim. Me guarda. Me guarda na memória que eu volto. Me guarda na palma da mão, na ponta da língua. Eu também posso voltar. Eu tô quase aí.

Eu sei que eu corri. Tentei, me escondi, mas ainda assim não escapei de mim. Fica tranquilo, eu ainda tô aqui.

A gente tem um oceano.
Meus olhos são o oceano.
Não desiste de mim. Teus olhos são o oceano.

Não desiste. Corre essa ponte, corre esse rio, cumpre a promessa.

Você que me lembrou que tem um mundo lá fora, e eu que te ensinei que olhar pra dentro não é nenhuma fraqueza.

Corre, não desiste de mim. Eu já tô aí.

Danse et danse

Você dizia que eu era a única e eu acreditava te ter, um mundinho particular que comportava só nós dois. Agora as noites são cheias de luzes, o copo está sempre cheio, mesmo que de alguma breja barata, e eu danço a noite toda.

Conheço o teu jogo, sou vacinada contra a tua raça e, de quebra, não aceito papel de prêmio de consolação - aí é difícil, mulher com amor próprio? Hoje, danço a noite toda, sem precisar amar ninguém, sem precisar ligar no dia seguinte, porque também é escolha minha. Mas hoje minha coragem balança no mesmo ritmo que meus pés, uma bossa nova querendo ser samba, um chorinho que é quase um fado. Os ombros doem, as pernas quase cedem, mas a música não me deixa parar. Por teimosia ou sensatez, insisto em não recostar por mais um tempo.

Se quer saber, acho até que esse aperto no estômago não tem nada a ver com as abdominais de mais cedo ou com os copos entornados, mas mesmo assim me recuso a acreditar no que quer dizer de verdade. Meu riso ainda tá entalado na garganta, junto com o álcool que ainda não subiu, e ficar consciente demais me dá um estalo: não caio nessa de intenções nulas, ter sido tudo por acaso. Eu não via o fim, do começo, mas isso não quer dizer que ele já não estava nos planos, não é? Sem parar de dançar, ergo o copo, me enfio um pouco mais na multidão, os pés timidamente abrindo caminho à frente. Me diz, quanta coragem cabe numa desistência? E será que rola um samba dessa nossa existência?

A noite vai ser longa, mas meu copo está cheio.

Loin d'ici (Te procuro)

Eu te procuro em todo canto, em tudo que é sorriso, em todos os filmes, nas comidas, nas risadas e nos cheiros. Me inquieto nos abraços, porque procuro e ainda não acho. Procuro as cores, o toque, a textura. Reviro as gavetas, caço as roupas. Te procuro no perfume, e quase te encontro! No escuro, na cama, em mim, em mim toda. Eu procuro por você nas festas que você nem poderia estar. Nas repúblicas, nos bares, nas ruas, nas corridas, nas partidas, nos esportes, nas memórias, nas luzes. Corro uma busca incessante na chuva, no álcool!, nas cidades, nas estradas, nos bilhetes. Ah, os bilhetes! Procuro qualquer vestígio que tenha sobrado naquela lanchonete. Recrio resquícios de um tempo que passou e te levou, procuro um horário que o relógio já fez mais de mil vezes desde aquela noite; procuro pegadas sobre um piso frio, e migalhas de bolo numa mesa limpa. E vou tão rápido que às vezes até acho que te deixei passar, e quase te encontro numa onda, bem longe, no mar. Que memória. Procuro tanto, e sem chegar a lugar nenhum, porque sei que não vou encontrar aqui, talvez; não vou te encontrar, não é? Procuro tão longe, com medo de estar perto de novo, e descobrir que, quem sabe, só eu tenha procurado esse tempo todo. Busca insensata, coração teimoso. Mas mesmo assim, em te encontrar, ainda que possa talvez me doer a ouvir, vou querer saber se, todo esse tempo, estaria você também a me querer.

Faísca

Meu santo é forte, minha fé um pilar
Mas é tão cruel imaginar que é só isso que me há
Que eu dei adeus de cabeça erguida
sem saber que fim ia se dar,
sabendo o diabo pelo qual me ia passar
mas amor também é renúncia
não se perde o que não se pertence
É que afinal, acreditar é o primeiro passo para realizar

Talvez me seja a teimosia
mas se essa é a melhor coisa que há na vida
por que então a gente não deveria?
E por que não teimar com a própria teimosia e fazer arriscar? Fazer por onde - dá suas voltas
se desenrola, até que não haja mais nós
apenas laços
envolvendo nós

Faz por onde! Seja paciente
Talvez não no meu tempo, mas o tempo dirá.

Porque se há uma chance, uma pequena chance
de você ser - e eu também - num mesmo momento
então eu estarei lá, estarei aqui
A faísca reacenderá

Fogo de amor é inextinto, cê sabe
que enquanto num coração ainda se vive, ainda há, ali, morada
e se faz até sem merecer
lar sempre vai ser o coração do outro

A gente sabe o caminho de casa
a luz de casa é estrela-guia e as portas esperam destrancadas
o fogo resiste mesmo à noite
sempre aceso, teu retorno

E a vida toda não se perde, a lareira jamais se apagará
Uma faísca é tudo que é preciso
Talvez não no meu tempo, mas o tempo virá
E um dia, será.

Verseau

A noite foi fria demais. Cê me desculpa, eu não sabia pra onde ir. As luzes já estavam apagadas, mas eu entrei mesmo assim, me enfiei no teu cobertor e lá fiquei, mesmo sozinha. Teu céu de estrelas não brilhava, mas eu aproveitei o silêncio e o cheiro reconfortante dos lençóis, e confesso que até me senti em casa. É nessas horas que a gente percebe, lá no fundo, que não foi feito pra ficar sozinho, pra ser só. 
Logo o céu lá fora se acenderia e eu precisaria ir embora; doeu perceber que eu não queria nadinha sair dali. Fui enfim, mas com uma vontade louca de ficar, com um desejo enorme de puxar as cortinas e me aconchegar na cama mais um pouco, de esperar tua volta e contar o que me havia do lado de cá. De ouvir teu riso de novo e uma ou outra história do outro lado do mundo, uns desabafos, umas confissões, uma vontade enorme de qualquer tempo com você. Mas num impulso de horror, num reflexo de irreciprocidade, eu corri tanto, mesmo sem chão nenhum, até rasgar as beiras de mim. Corri pra longe até que cheguei bem aqui, exatamente aqui de novo, contigo. Meu dilema continua, enfim. 
Eu não sei se você vale a pena, mas eu sei que eu valho, por mim. Sei também que a gente foge de fazer decisões e depois chama o resultado da nossa omissão de "destino", na maior cara de pau. Mas eu não vou mais ser omissa. Essa é a minha decisão. Eu vou decidir por mim. E por eu valer a pena, aqui eu me arrisco.

Meu jardim

Em qualquer canto suspiro um canto
Minha fé só não é maior que os arranha-céus
Rebentando nuvens como o amor rasga o peito
Cercam-me rasa aqui, sem mergulhar em ti
Eu não posso contra a coragem
Não quero lutar essa vontade
Em qualquer canto murmuro um canto
Com quanto canto se faz um canteiro?
É um espelho o amor verdadeiro
Se ainda te canto, é que um canto em meu canteiro ainda tens

Até que eu encontre, uma última vez, você

Meu mal é acreditar demais. 
Acredito muito em destino, mas também acredito em timing, aquelas chances dadas no momento certo, nas oportunidades que aparecem com um propósito, e não por pura sorte. 

Nunca gostei dessa mania de culpar os outros pelos nossos erros, ou de abraçar os erros dos outros e tentar consertá-los. É preciso muita maturidade pra aceitar o peso das nossas ações, mais ainda pra entender as ações dos outros, as intenções, as consequências. E respeitá-los por isso.

Como quando ouvi aquela vez que a vida ainda nos juntaria pra valer, que eu só precisava ter paciência. De início, a ideia é tentadora, acreditar que só é preciso esperar e então, magicamente as coisas aconteceriam. Voltaríamos e todo o tempo perdido serviria apenas para se arrepender de não termos passado-o juntos. A voz era convidativa, mas eventualmente caí na real. Tá tudo errado. Ninguém entendeu nada.

Eu poderia começar falando como cada pessoa tem seu tempo, e como é possivel, sim, ser a pessoa certa na hora errada — aparecer num momento em que a pessoa está instável, ou emocionalmente indisponível. Tudo isso pra ver se, quem sabe, a gente não tira da cabeça essa ideia romântica e até idealista de que, se for pessoa certa, ela vai obrigatoriamente encontrar um jeito de estar com você, de batalhar todos os seus demônios, seus problemas pessoais e aparecer na tua porta com um buquê de flores numa noite aleatória no meio da semana. Porque você é especial, e ela é a pessoa certa. Oras!

Então nós precisamos entender o que acontece do outro lado da história, de quem fala coisas como "nós ainda vamos nos encontrar" e "a vida dá voltas, espero que a gente ainda se encontre". Não significa que a sua viagem para o Caribe com as amigas precise ser desmarcada, ou que você deva esperar três anos em casa até que ele caia na real, ou então que ela vai acordar algum dia e se sentir diferente e voltar quando você estiver em um intercâmbio na Áustria. É exatamente o oposto. 

Antes que todo o conto de fadas possa acontecer, pode ser que os dois precisem crescer. A vida age de maneiras estranhas, e enquanto ela precisa se conhecer, ele precisa conhecer o mundo, mudar, melhorar. Óbvio que há casais que simplesmente clicam desde os 14 anos e se casam sem nunca terem conhecido nada diferente disso, e milagrosamente não têm dúvidas quanto ao parceiro escolhido na adolescência - mas eles são a exceção. Mas e o resto do mundo? As pessoas tem dúvidas, mudam de ideia, de humor conforme as estações. O resto do mundo somos eu e você, e por mais que viver junto também seja incrível, quem pode ser culpado por querer dar seus próprios passos, errar sozinho um pouco? Se nós não podemos mudar o outro, o que sobra é mudar a nós mesmos, ou morrer na mesmice. Por que não aproveitar essa chance, se amar, descobrir seus gostos e hobbies, se apaixonar por qualquer coisa que não seja alguém, se arriscar na vida, e aprender a gratidão?

Já ouvi uma vez que o que a vida quer da gente é coragem. É preciso coragem para acreditar que às vezes, você pode ser a pessoa certa no momento errado, e que a vida pode te levar a reencontrar o amor da sua vida na sua viagem à trabalho no nordeste ou nas férias de verão em Ibiza. O mundo dá voltas, e o tempo todo a gente (se) encontra e desencontra. É preciso coragem pra ter fé que o que tiver de ser, será; pra ter esperança, pra acreditar que vai dar pé, e mergulhar na vida. E quem sabe, depois dos desencontros, haja um último encontro, certeiro, quase um arco-íris no finalzinho do horizonte. Que haja, então!

Até que eu encontre, uma última vez, você, vou querer viver, não vou largar mão das minhas experiências, meus sonhos, de mim. E que sorte seria, depois das andanças, do topo das minhas conquistas, te encontrar. Talvez seja pela última vez, você.

Mar de lua

Ele começou a dançar por minha causa. 

É sério

Quem vê ele dançando assim
hoje em dia
todo solto
nem desconfia

Quem vê esses passos
bem ensaiados
confiantes
jamais pensaria que apenas meses atrás
ele ainda pisava em falso
e - aliás - em mim

É meu reflexo que bate nele hoje em dia
Só uma parte de mim
que se vê
nele

Eu sei
é difícil de acreditar
somos "tão diferentes"
não somos?

Mas repara no jeito
dele
de dançar
como ele trata a namorada
¡atenção
à atenção que ele dá❣

Repara
rapidinho
como mudou o rapaz
como era
e como é
seu cabelo e seu jeito
e até o brilho do olhar

Reflexo de um amor que já foi meu
amor que já fui eu

Ele era meu mar
imenso
devastador
como tem que ser
e eu sempre fui de lua
nem tão branca, nem tão crua
amálgama
anafilática
mas mar e lua não se mistura